quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Os cliché verre da veterana

O cliché verre é uma técnica fotográfica invulgar, realizada sem câmara, algo aparentada com os fotogramas. Ao contrário destes últimos, os objectos que irão originar a imagem não são colocados directamente sobre o material fotossensível, são intermediados por vidro ( verre em francês,daí o nome), acrílico, acetato ou outro material transparente.
Tradicionalmente era uma técnica de gravura, em que a superfície do vidro era coberto com tinta preta ou betume, e posteriormente raspada de maneira a formar desenhos que era reproduzidos por processo fotográfico. Camille Corot e outros artistas oitocentistas utilizaram-na pronta e eficazmente desde o início.


Camille Corot,  Le Songeur, cliché verre, papel salgado, 1854
imagem obtida aqui


Depois, ao longo do tempo, foi-se afastando do campo estritamente gráfico e os experimentalistas do século XX tornaram-na uma prática fotográfica de pleno direito. Com os avanços tecnológicos do século passado, passou a ser possível aplicar as "sanduíches" de vidro a ampliadores fotográficos e as imagens dos cliché verre ganharam uma natureza muito distinta dos fotogramas. As suas características algo "artísticas" não permitiram à técnica, no entanto, uma entrada maior no corpus da Fotografia mais conceituada.

Hoje, com o recuo muito acelerado da fotografia analógica, os cliché verre parecem estar remetidos para o nicho excêntrico dos que insistem em usar e ensinar coisas obsoletas (onde o autor destas linhas se inclui).

Mas verifica-se a existência de notáveis resistentes. A quase centenária e norte-americana Maggie Foskett, nascida no Brasil no distante ano de 1919, e em tempos uma discípula de Ansel Adams,  tem desenvolvido nas últimas década um interessante trabalho assente neste procedimento.
O cliché verre propicia-se a descobertas estéticas e a surpresas sem que os praticantes tenham de se deslocar ao outro lado do mundo (ou ao fim da  rua, tão somente). Parece adequar-se extraordinariamente bem a esta mulher que se habituou a olhar para as coisas bem de perto,  nas suas férias escolares, quase um século atrás, passeando pelos campos brasileiros. E que não podendo continuar a carregar câmaras e tripés, continua a descobrir o mundo no seu laboratório.

Maggie Foskett, Bits and Pieces, 2007
imagem obtida aqui


Maggie Foskett, O papagaio vermelho, 1994
imagem obtida aqui


Maggie Foskett, Cavalos marinhos, sem data
imagem obtida aqui


Maggie Foskett, Floresta húmida, 1996
imagem obtida aqui


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