domingo, 26 de setembro de 2010

As Ilhas Misteriosas

Tuta Melo, Passagem do Zeppelin sobre o Mindelo , 1937
imagem obtida aqui

Li, ou ouvi, algures que uma das características da Fotografia era a de possibilitar o aparecimento de obras-primas acidentais e anónimas. Creio não ser este um desses caso, embora tenha sido acidentalmente que dei com esta imagem na Internet, enquanto pesquisava algo que, à partida, nada indicava que me levasse a dirigíveis sobre mares tropicais.

Não é anónima a fotografia, indica-nos o fotógrafo Jorge Martins que a disponibilizou no seu site do FOTOLOG. O seu autor foi Guilherme Augusto de Lima Melo, conhecido por Tuta Melo. Não consegui saber muito acerca dele. Sei-o nascido a 10 de Janeiro de 1916,em São Lourenço dos Órgãos, Santiago, Cabo Verde. Terá falecido a 15 de Janeiro de 1999, em Lisboa. Sei-o igualmente filho do fotógrafo João Henriques de Melo, nascido na ilha do Fogo, Cabo-verde. Soube que terá sido funcionário dos Correios, e que terá abandonado essa carreira, tendo-se dedicado posteriormente à exibição cinematográfica, fundando o cinema Miramar, no Mindelo, S. Vicente, Cabo-Verde.

Quanto ao acidental, nada mais conheço das fotografias de Tuta Melo. A existirem encontrar-se-ão provavelmente em esfera privada. Não encontrei outras e desconheço textos sobre elas. Intuo a partir da imagem e da data, que não seria uma imagem única de um fotógrafo fortuito. A posse de uma máquina fotográfica, ou o acesso a ela, em Portugal e nas então colónias, estava longe de ser algo universal nos anos 30. A ascendência de Tuta Melo leva igualmente a crer que seria alguém que não desconheceria a técnica fotográfica e o trabalho de laboratório. O sentido de composição leva-me a querer pensar que a imagem não seja um acaso feliz de um inábil, apesar de objectivamente não poder dizer o contrário, dada a minha ignorância acerca do seu trabalho.


A imagem é forte. Destaca-se numa pesquisa de imagens de Google como se tivesse uma propulsão própria que a retirasse do fundo de imagens banais. Atinge-nos particularmente por ser desconhecida, ou conhecida apenas por poucos. Surpreende-nos.

Eu, que infelizmente nunca fui a S.Vicente, não a posso localizar com propriedade. Existe um elemento distinto e reconhecível, o Zeppelin, que paira acima do centro da fotografia, ainda no lado esquerdo mas com uma trajectória que se adivinha levá-lo para a direita. A orientação da nave, próxima da horizontal mas ligeiramente descaída, ajuda a acentuar a tensão da imagem numa linha diagonal que une o primeiro plano, no canto inferior direito (um troço da ilha, denso e escuro, pontuado pela casa branca), ao dirigível e, finalmente, ao canto superior esquerdo onde as nuvens mais escuras adensam o fundo. Em baixo, a linha do mar estrutura a imagem e o ilhéu-rochedo contrapontua à esquerda, num segundo plano, a terra que se vê no lado direito. Por fim, quase imperceptível, vaga e nebulosa, recorta-se sobre o céu uma linha montanhosa que define um terceiro plano.


Olhando para a imagem de um ponto de vista documental, ela regista a última ou, pelo menos, uma das últimas viagens regulares de um dos Zeppelins que uniam a Alemanha ao Brasil e à Argentina- o LZ 127 Graf Zeppelin e o LZ 129 Hindenburg. Depois de 8 de Maio de 1937,estas não se voltariam a realizar. A ser a última, tratar-se-á do Graf Zeppelin , dado que a aeronave irmã desapareceu em chamas em 6 de Maio desse ano, nos Estados Unidos, quando o Graf concluía a viagem de retorno da América do sul. As carreiras regulares referidas paravam na cidade da Praia, na ilha de Santiago, para largada de Correio, e segundo parece passariam também regularmente sobre S.Vicente. A imagem captura, segundo um dos comentário feitos no FOTOLOG de Jorge Martins, o momento de uma das passagens pelo canal que divide S. Antão (a costa brumosa distante ) e S. Vicente (primeiro plano).

Feito o registo factual, devo dizer que essa é a faceta da imagem que menos me interessa. A atenção que a imagem me motiva não advém daí. Prende-me o carácter vago e algo atemporal. Embora saiba a localização e o tempo, continuo a não experienciá-la de forma tão específica . O Zeppelin revela-se o único significante, e a fotografia, por estarem ausentes dela mais referências legíveis, torna-se uma obra aberta, ambígua. Leremos nela aquilo que o nosso quadro de experiências nos permitir e nos encaminhar. É uma imagem fantástica no sentido literal da palavra.
Para alguns será um dirigível apenas, um balão esquisito sobre o mar. Outros sentir-se-ão tentados a revisitar memória do Indiana Jones e A Última Cruzada. A mim, o tom sépia faz colocar a cena num passado não definido, e a imagem das ilhas traz-me não os trópicos, mas as ilhas das histórias de Júlio Verne, que li e reli em miúdo- A ilha misteriosa e a ilha dos Dois anos de Férias. Vejo nela o inverosímil retrato fotográfico de um passado futuro, com máquinas de tecnologia dura, mecânica, sem electrónica nem noção de quântica. Traz-me o mesmo universo que os belgas Schuitten e Peeters configuraram na série As Cidades Obscuras.


Seja o que for que vejamos na imagem, é a ela que retornamos. Espantosa fotografia que merece ser reconhecida, vista, divulgada. E nesta afirmação não há nada de anónimo e acidental.

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2 comentários:

  1. Parabéns pelo conteúdo de estrema inspiração. Gostei muito de ter encontrado aqui o documento "the largest prize contest in photographic history" uma relíquia histórica e extremamente inspiradora.

    Conheci Seu Blog através do Dilson Silva Mato Grosso e em sua lista de blog estava lá o seu. o Bom da internet que ela interliga as pessoas de uma forma muito louca.

    Sempre quando alguém passa a seguir meu blog eu sempre olho o que ela lê e segue, e sempre dou sorte de encontrar boas coisas e boas parcerias.

    Desta vez não poderia ser diferente.

    Boas Festas e Sucesso.

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    1. Obrigado, Léo! Folgo que tenha gostado.
      É verdade, a Internet aproxima-se muito do conceito de Biblioteca ideal do Umberto Eco. Entra-se em busca de algo indefinido e encontra-se um mundo que não se estava à espera.

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