quinta-feira, 20 de junho de 2019

Vestígios

Entre as culturas animistas, são frequentes as cerimónias em que se agradece aos espíritos da natureza o usufruto da sua riqueza. Os humanos alimentam-se dos frutos e dos seres do mundo, e é pertinente esta homenagem, não vão os espíritos zangarem-se e recusarem a abundância necessária. Nalguns casos, a cerimónia tem mesmo o carácter dum pedido de desculpa.

Entre a cultura cristã, esta riqueza é entendida como uma oferta do criador ao homem, mas embebidos na sua prática permanecem vestígios de festividades prévias, pagãs, em que se festeja o sucesso das colheitas, ou em que se praticam ritos sobre os animais, agradecendo a sua (involuntária) generosidade e tentando prevenir a sua futura escassez.


Tal qual os locais arqueológicos, os fenómenos culturais contêm camadas, e a naturalidade que é introduzida pela pertença cultural é apenas a superfície que oculta a riqueza subjacente.


Diogo Margarido,
Benção dos borregos,
Castelo de Vide, Portugal, 1972
imagem cedida por cortesia do autor

domingo, 16 de junho de 2019

O ameaçador

Há uma velha e estranha crença, aqui pelo pequeno rectângulo ibérico, que assegura que em qualquer lugar do mundo, em qualquer confusão, há sempre um português.

Quando no final da guerra civil americana, se dá o assassinato do presidente Lincoln e alguns atentados falhados associados, é levada a cabo uma intensa operação policial que culmina no abate do assassino, e na captura de vários suspeitos da conspiração.


Fotografados por Alexander Gardner, temos hoje uma imagem clara desses homens. Na sua maioria, seriam condenados e executados em enforcamentos também registados por Gardner. As expressões rígidas (a que não era estranha a longa exposição necessária à época) são muitas vezes tidas como denunciadoras da sua condição de condenados, de mortos já em vida.

Ora, entre os retratados de Alexander Gardner, há um que não chegou a julgamento e que se furtou à forca. E sim, tratava-se dum português.

João Maria Celestino, em tempos capitão duma escuna inglesa que alegadamente tentara furar o embargo aos confederados, levantara suspeitas por proferir ameaças ao Secretário de Estado William M. Seward, outro dos alvos da conspiração.

Os serviços secretos acreditavam que teria tido alguma ligação à conspiração, mas vieram a desistir de o julgar, considerando que as suas relações a outros conspiradores não seriam significativas, e que o seu envolvimento seria improvável.

João Maria Celestino pode ter sido tão somente o equivalente dessa época do actual indignado que faz comentários em maiúsculas nas redes sociais, sem real desejo de os cumprir.

Alexander Gardner,
João Maria Celestino,
EUA, 1865
imagem obtida aqui

domingo, 26 de maio de 2019

O Real e o Mágico

No entendimento do tempo, tende-se a teorizar que há duas concepções que estruturam as culturas.

Por um lado, tem-se o chamado tempo cíclico, frequentemente considerada a noção de tempo original. As culturas primitivas, dominadas por ciclos naturais como os das estações ou das migrações animais, tenderiam a considerar o tempo como uma eterna repetição. A criação do mundo é normalmente formulada num tempo mítico, separado do tempo vivenciado, com a intervenção frequentemente de múltiplas divindades, responsáveis cada uma por partes distintas da criação.

Por outro lado, temos o chamado tempo linear, que assume o conceito duma direcção: o tempo teve um início e terá um fim. É a concepção prevalecente nas religiões do livro, monoteístas. E é a concepção herdada e adoptada pelo racionalismo, que a “sacraliza” na ideia de progresso. O tempo linear é o tempo das culturas ocidentais.

No que diz respeito às culturas do Novo Mundo, o tempo cíclico parece ser predominante nas grandes civilizações. Mas estudando as pequenas culturas ameríndias, alguns antropólogos entendem que há, por vezes, uma terceira concepção do tempo. Certos povos têm mitos da criação que se passam num tempo mítico. Mas este tempo mítico não é atemporal, segue paralelo à realidade experienciada, e ocasionalmente os dois tempos, o mítico/mágico e o real fundem-se, comunicam. As grandes perturbações, os fenómenos inexplicáveis, são atribuídas a esta confluência. De certa forma, o tempo vivenciado é ainda o tempo da criação.

E é interessante pensar que esta terceira via pode ser a responsável pela afloração do mágico no real que caracteriza grandemente as culturas latino-americanas. Seja na literatura, seja no cinema, seja na fotografia, a pulsão realista que o racionalismo ocidental fomentou na elite cultural latino-americana mistura-se com frequência com intromissões do mágico, do irreal, sem aparente negação nem repulsa.

Graciela Iturbide,
Imaculada,
Xochimilco, México, 1984
Colecções da Fundacion MAPFRE

domingo, 19 de maio de 2019

A máscara como natureza

Sobre o retrato fotográfico, e sobre a sua longa história, há todo um conjunto de abordagens e teorias, e de gente que se agarra aos dogmas. 

Se alguns defendem a linhagem de Disdéri com os seus retratados a carregarem símbolos da sua condição, rodeados de adereços, à maneira da pintura clássica e dos seus códigos, outros seguem a conduta de Nadar, com foco no rosto e na postura do modelo, tentando captar aquele instante em que a expressão e a pose parecem corresponder magicamente à personalidade, retendo-lhe o pathos e o ethos.
Estes últimos, os defensores do chamado retrato psicológico, não têm decerto trabalho fácil.

Cartier-Bresson, por exemplo, ter-se-á queixado da dificuldade de retratar verdadeiramente actores e actrizes. Perante a câmara, os profissionais da representação tenderiam sempre a assumir uma personagem. O seu rosto era, em certa medida, um adereço. Uma máscara. Porém, se retratar a psicologia de actores tende a ser um acto sem sucesso, isso não significa que não se produza nesse esforço boa fotografia. Como os poetas, os actores tendem a fingir aquilo que deveras sentem. A máscara nem sempre é um adereço, pode ser a sua própria natureza.

Paolo Di Paolo,
Marcello Mastroianni,
Itália, sem data
imagem obtida aqui

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O peso do Mundo

Nos milhares de fotografias que tirou desde a década de cinquenta de mil e novecentos, encontramos na obra de Diogo Margarido muitas imagens de um Portugal que se moderniza, que se torna cada vez mais urbano, que se mune de indústria.

Mas encontramos muitas outras vezes um outro país mais telúrico, arcaico e ancestral.

Um Portugal anterior às máquinas, em que as suas gentes parecem carregar, como as figuras míticas de Atlas ou Sísifo, o peso do Mundo e a condenação à eterna repetição de tarefas esforçadas.

Diogo Margarido,
Castelo de Vide,
Portugal, 1964
imagem cedida por cortesia do autor

quarta-feira, 20 de março de 2019

A América rugosa e sombria de Robert Frank

Embora todos usemos essencialmente os mesmos meios quando fotografamos, tal como todos escrevemos e falamos com as mesmas limitações da língua, os grandes mestres fazem com as imagens o que os poetas fazem com as palavras. Criam um novo mundo de sentidos, abrem portas para outros caminhos.

Robert Frank é um desses casos. Diz-se que há uma fotografia antes do suíço-americano, e que há uma outra depois dele. Sobretudo, depois do seu livro/projecto “The americans”, que compilaria uma selecção de oitenta e três imagens dos milhares de fotografias feitas numa longa viagem de automóvel através do país.

Na grande década americana, os anos cinquenta, nos tempos do Baby Boom e da fé na prosperidade imparável, o jovem fotógrafo, que aí chegara em fascínio, ganhando a vida em publicações de moda feminina, cria um olhar progressivamente mais oblíquo, de imagens rugosas, composições improváveis e desencanto latente.

Aos brilhos e fulgores da superfície da Grande América que ainda hoje instila imaginários saudosos, contrapunha Frank um outro lado sombrio, talvez menos simpático e laudatório, mas certamente mais fundo.

Robert Frank,
Estúdio da CBS,
Burbank, Califórnia, E.U.A., 1956
imagem obtida aqui

segunda-feira, 18 de março de 2019

Um olhar familiar


No contexto da fotografia portuguesa, em virtude duma menor e tardia expansão da prática fotográfica, o olhar dos outros, o dos estrangeiros, acaba por ter uma importância que não terá correspondência em localizações mais “centrais” como a França ou a Inglaterra.

Com outros conhecimentos e abertura, libertos de condicionamentos locais, de pressões sociais e políticas, da “naturalização” dos hábitos nacionais, os fotógrafos estrangeiros introduziram frequentemente um olhar crítico e certeiro que não era fácil encontrar em praticantes locais, maioritariamente profissionais de estabelecimento comercial ou amadores com olho posto nos salões fotográficos.


Tim Motion, situa-se aqui numa situação particular. Irlandês, chega ao Carvoeiro e ao Algarve em 1961. A esse algarve, agora irreal, constituído quase só de locais, retorna para viver nos anos seguintes, aprendendo a falar português e tornando-se uma figura de Carvoeiro, onde haveria de ficar até aos anos setenta.
Aspirante a pintor, acabaria por tornar-se fotógrafo, muito por conta do encontro com o também irlandês Patrick Swift, que o levaria a ser responsável pelas fotografias do livro “Algarve,a portrait and a guide” (com texto do sul-africano David Wright).

As fotografias de Tim Motion não se situam no campo do folclorismo turístico, nem dum fotojornalismo mais convencional ou crítico. O facto mais notável acerca delas é talvez é o de serem simultaneamente um olhar de fora e um olhar familiar. Não sendo limitado pelo contexto fotográfico local, a sua abordagem não é a dum estranho. Fotografa as feiras, os pequenos eventos do dia-a-dia, as gentes que passam, com proximidade, sem a rigidez dum país preso a formalidades. Mas fotografa igualmente com o encanto de quem sabe da singularidade desses episódios.

Quem quiser melhor perceber do que aqui se fala, pode dar uma olhadela ao livro “Algarve 63” , um produto do esforço notável dos Encontros de Fotografia de Lagoa e em particular do seu director, Nuno de Santos Loureiro.


Tim Motion,
Raparigas do cultivo do arroz preparam-se
para a pausa para o almoço,
Silves, Portugal, 1963
imagem obtida aqui