domingo, 9 de dezembro de 2012

A mais cínica das frases

Autor não identificado, Portão em Auschwitz,
Polónia, 11 de Maio de 1945,



É conhecida praticamente de toda a gente a frase forjada em ferro que encima uma das entradas do campo de concentração de Auschwitz, perto de Oswiecim, na Polónia. Com dureza metálica, recebia os que entravam com uma mensagem de alento. ARBEIT MACHT FREI, o trabalho liberta, garantia aos que chegavam. Ali perto, no campo anexo de Birkenau, aos que eram seleccionados para o trabalho forçado e adiavam a morte, os Kapos ( prisioneiros, normalmente de delito comum, que controlavam os outros condenados) de imediato, na primeira formatura, retiravam quaisquer ilusões. Ao campo chegava-se de comboio e só se saía através das chaminés, no fumo dos fornos crematórios.

Mas o cínico enunciado metálico de Auschwitz não era uma singularidade, um assombro casual  de humor negro dos projectistas desse campo. Como tudo na máquina do Holocausto nazi, não nasceu dum acaso ou dum improviso. 

Erich Hartmann, fotógrafo da famosa agência Magnum, desenvolveu, já  nos últimos anos da sua vida, um projecto que se tornara uma obsessão pessoal. 
Nascido na Alemanha, numa família de classe média judaica, Hartmann escapara ao Holocausto porque a sua família tivera a oportunidade de emigrar para junto de parentes que tinha nos Estados Unidos. Mas septuagenário, no início dos anos noventa de novecentos, retornou à Europa natal e, durante oito semanas, percorreu vinte e dois antigos campos de concentração. Neste périplo gastou mais de uma centena de rolos de película que, depois de muita selecção, culminariam nas setenta e quatro imagens que seriam incluídas no livro "In the Camps", publicado em 1995.

Na obra não aparece o famoso portão de Auschwitz que, quer se queira quer não, se tornara um lugar-comum do mais incomum e maléfico dos projectos humanos. Mas, depois da muita escolha que o fotógrafo fizera do produto da sua excursão, a promessa de liberdade pelo trabalho aparece por duas vezes. Não em Auschwitz, Polónia, mas em Teresin, na República Checa, pintada num arco de alvenaria, e em Dachau, Alemanha, feita no ferro dum portão como em Auschwitz.

Sistematicamente, repetidamente, pelos vários países por onde passou a Solução Final de Hitler, os nazis deixaram, marcada na arquitectura dos campos, a mais cínica das frases.


Erich Hartmann, Entrada da Prisão da GESTAPO,
Terezin, República Checa, 1994
imagem obtida aqui



Erich Hartmann, Dachau, Alemanha, 1994
imagem obtida aqui


Quem estiver interessado, e tiver um dinheirinho extra ( não é o caso, infelizmente, deste vosso escriba ) pode comprar aqui o livro "In the camps", de Erich Hartmann.



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