quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Portugal enquanto ponte de barcas

Joshua Benoliel, Preparação para a guerra - Passagem da Cavalaria pela ponte de barcas, Tancos, 1916
imagem obtida aqui

Há algo de metafórico nesta imagem de Benoliel.
Em 1916, Portugal e o ainda recente regime  republicano estavam longe de ser um modelo de estabilidade, progresso económico e paz social. Elevada conflituosidade entre republicanos, entre estes e a Igreja e os monárquicos, golpes, greves, inflação, muitos são os males que se enfrentam na altura. E então, como quase sempre entre nós, foge-se para a frente.
Olhando a grande guerra, o poder decide participar no teatro bélico europeu.
O país, instável, sem estruturas, arrigementa tropa sem equipamento e logística para o combate, cuja verdadeira natureza desconhece, e para ser recebida com enfado pelos aliados. A guerra pesará e marcar-nos-á demoradamente. Inflacionará o número de militares que, retornados da Flandres, se recusarão muitas vezes a abandonar os quarteis e o soldo. O Exército torna-se um lastro extra. Um factor acrescido de instabilidade numa sociedade que aguenta com dificuldade e abana como a ponte das barcas em Tancos. E que, como os remadores erguidos, espera por algo.
Algo que chegará, tristemente, dez anos depois da fotografia.

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