domingo, 10 de outubro de 2010

A Morte de Miguel Bombarda

A revolução republicana de 1910 esteve prestes a não acontecer. Acordados os planos, um incidente fortuito leva-lhe o líder civil um dia antes da data definida para a acção. Sentindo o agoiro, numa reunião realizada nas instalações duma empresa de Inocêncio Camacho, alguns dos envolvidos no golpe pensam a desistência. Mas a postura decidida do líder militar, o almirante Cândido dos reis, força a manutenção da conjura que se virá a desencadear a 4 de Outubro. Para ele, a revolução ou se faz nessa noite, ou não se faz. E afirma, premonitoriamente, estar disposto a sacrificar a sua vida na realização dos movimentos acordados. Assim, a revolta militar desencadeia-se e, não sem percalços (ver A Revolução deles) como o do suicídio do almirante, acaba por ter sucesso.

Mas na manhã de 3 de Outubro, um jovem tenente de 31 anos, num episódio de doença mental e alucinação, quase precipita o abandono do golpe. Aparício Rebelo dos Santos, que um ano antes estivera internado, durante três meses, no Hospital Psiquiátrico de Rilhafoles, faz-se apresentar junto do gabinete do director e solicita ser recebido. Miguel Bombarda, o homem que transformara o tratamento da doença mental em Portugal, levando-a do enclausuramento e tratamento por castigos corporais para os enquadramentos positivistas que vigoravam então na disciplina, abandona os seus aposentos no Rilhafoles por volta das 11:00h e ao entrar no gabinete é informado do desejo do tenente. Bombarda, que aceitara contrariado dar-lhe alta, a pedido do pai do militar e para fins de consultar sumidades em Paris, um ano antes, recebe-o de imediato e sem desconfiança.


É pois num cenário de total surpresa que Aparício dos Santos ergue um revólver e dispara. O médico reage a um primeiro tiro que o atinge numa costela, e agarra o tenente tentando desarmá-lo. Inutilmente. Antes de ser agarrado por um auxiliar, conseguirá ainda desferir vários tiros no ventre de Miguel Bombarda, que começa a sangrar profusamente. Consciente, é levado para o Hospital S.José onde, segundo se diz, terá ainda entrado pelo próprio pé.


A notícia do atentado ao deputado republicano por Lisboa voa espantosamente rápida por Lisboa. Alguns, cientes das opiniões do médico, que equiparara o jesuitismo a um problema do foro mental, acusam os padres de instigar o agressor. Geram-se ajuntamentos, no chiado, na calçada do Combro e noutros locais, que acabam por confluir na rua Garrett junto à redacção do jornal monárquico O Portugal, dirigido pelo padre Matos, onde se dão confrontos com a policia.


Joshua Benoliel, que se revelou um homem com talento para estar nos sítios certos, assiste à preparação da operação que tentará salvar Miguel Bombarda. Fotografa-o numa sala do S. José, deitado, com a cabeça assente sobre duas almofadas e segurando o lençol e a manta que o cobriam, enquanto ao lado se atarefam nos preparativos da operação que os doutores Francisco Gentil e Oliveira Feijão irão realizar. É calma a imagem, não se observam sinais de pânico e precipitações. Desconhecendo-se os factos e os presentes, poder-se-ia pensar estar perante uma representação fotográfica de uma situação hospitalar corrente dos inícios do século vinte. A imagem confere verosimilhança a relatos que descrevem um Miguel Bombarda consciente da morte, sereno mas inconformado com o seu fim não a lutar pela queda da monarquia, que tivera como provável, mas na sequência dos actos de um louco.

Joshua Benoliel, Miguel Bombarda antes da operação, 3 de outubro de 1910
imagem obtida aqui

Morrerá pouco depois das seis da tarde de 3 de Outubro, em resultado de infecção abdominal, poucas horas antes do início da revolta militar que planeara e desejava. Mas a sua morte poderá ter tido um papel mobilizador nos civis que nos dois dias seguintes se somarão aos poucos militares resistente na rotunda, e que serão em boa parte a razão do sucesso do golpe.

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