sábado, 11 de dezembro de 2010

O olhar condescendente

Portugal, na transição de séculos, de dezanove para vinte, afigurava-se no contexto europeu como um paradoxo. Nação periférica, dependente, sem recursos materiais e humanos, quase um protectorado britânico, procurava no entanto impor-se como potência colonial.

Ao contrário de outros países, que começando tarde, se impunham por força do seu poderio industrial e humano, para Portugal a questão centrava-se sobretudo numa tentativa de não ser empurrado para fora do comboio. Resultava estritamente da forma como os portugueses se olhavam a si próprios, e não de um plano operativo organizado. Prestígio, História e orgulho nacional, eram os motores do colonialismo luso. A exploração dos recursos era acessória, limitada e muitas vezes concessionada a estrangeiros, sobretudo aos britânicos.

Faltava a indústria na metrópole para rentabilizar algodão e minério, faltavam recursos humanos para montar uma verdadeira estratégia de saque da riqueza das colónias. Este último ponto era deveras marcante.

Maioritariamente analfabeto, Portugal não possuía gente com capacidade técnica, em quantidade, que pudesse exportar. Às elites da época não era estranho o problema, preocupava-as a pouca qualidade dos colonos, que não tendo uma educação formal, vindos de uma cultura oral à semelhança dos povos indígenas, muito facilmente incorriam naquilo que era, por vezes, designado por cafrização. Misturavam-se, adquiriam hábitos e costumes locais, e aos olhos dos responsáveis coloniais não impunham correctamente a “superioridade” europeia .

Igualmente, esta dita incapacidade nacional não era desconhecida dos concorrentes europeus ou de origem europeia. Os boers, defensores acirrados da sua superioridade cultural, designavam como “cafres brancos” ou “cafres do mar”os portugueses que assumiam o papel de capatazes, intermediários na relação com os trabalhadores africanos.

Os direitos coloniais que os portugueses criam históricos não eram vistos como inquestionáveis pelos demais países. Opunham a este argumento a necessidade da ocupação real dos territórios. As tardias campanhas militares portuguesas tentaram colmatar as fraquezas, mas a fraqueza das forças não impediu o abdicar das pretensões sobre a ligação terrestre entre Angola e Moçambique para o categórico aliado, o Reino Unido, nem as várias disputas fronteiriças com outras forças, nomeadamente alemãs.

O sentido da História parecia virar a página, e os povos ibéricos aparentavam ser triturados pela roda do tempo. O império espanhol que se desfizera em grande parte com as vagas independentistas americanas, sucumbe quase totalmente com a guerra hispano-americana de 1898. O ainda mais fraco Estado português soava ser um improvável jogador no casino colonial, sem trunfos nem hipótese de bluff, sobrevivendo apenas na penumbra do poder britânico. A denunciada decadência dos povos ibéricos, além de ser inegável tema da intelectualidade local, afecta igualmente o olhar condescendente da florescente e industrial Europa do norte.

Insiro aí a imagem de Sarah Angelina Acland, que no início do século vinte se faz fotografar carregada numa rede por dois naturais da Madeira.
 
Sarah Angelina Acland, Auto-retrato em rede com dois carregadores e uma acompanhante, Madeira,Autocromo, 1908-1915
imagem obtida aqui


Poder-me-ão dizer que relacionar esta fotografia com a questão colonial é um exagero ou uma distorção. Que ainda hoje os veículos de tracção humana são uma das atracções turísticas da ilha e que ninguém vê nisso qualquer desconsideração. Porém, o que saliento é que a imagem nos apresenta, não os carros de cesto para turista usar , mas a rede de carregar em ombros, imagem que claramente nos remete para gravuras coloniais (algumas delas portuguesas) do Brasil, de África e do Caribe. Mas saliento mais o que considero ser o olhar da fotógrafa, neste caso. Não é o olhar caricatural, achincalhador, de certa imagética europeia relativa aos povos indígenas.

 J. Wexelsen, Mulher do fotógrafo,Beira,Moçambique,1907
 imagem obtida aqui


É antes um olhar sobre o exótico, o estranho, que é usado como figuração e cenário dos retratados. Uma perspectiva que assenta sobre a diferença do Outro, e a nossa demarcação relativamente a este. Um olhar que encontramos em outros exemplos da fotografia colonial, e que no contexto português é observável, por exemplo, em José Augusto Cunha Moraes, numa ou outra das suas imagens de Angola.

José Augusto da Cunha Moraes,
Caçada ao hipopótamo nas margens do rio Zaire,
Angola, cerca de 1878


Um olhar que perdurará e que ainda dura, mesmo que disfarçado de olhar antropológico ou turístico.
Não será particularmente interessante, para os que se deliciam com fotografias de revistas de viagens, ver o dia-a-dia dos corretores da Bolsa de Bombaim, com os seus fatos europeus e os seus carros alemães, ou uma mina altamente mecanizada no Chile. E no que nos diz respeito, lembro-me de um colega de faculdade austríaco, arribado por via do programa ERASMUS, que se dizia bastante surpreendido por não sermos um país de gente vestida de negro, de mulheres com lenço na cabeça. Percepção que tinha, sem saber explicar porquê.

E o porquê é um sul europeu vago, geograficamente indefinido (tanto pode ser Grécia, Espanha, Córsega ou Portugal), de casas brancas, roupa preta e carga em burros, que na Europa Central e do Norte ainda se vende em pacotes de viagem mais hotel com pequeno-almoço.

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