quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A vitória do capitão

Das fotografias tiradas a Tristram Speedy na ilha de Wight, em 1868, gosto naturalmente mais das de Júlia Margaret Cameron. O capitão prestava-se mais à teatralidade desta do que à imagens bem comportadas de Cornelius Jabez Hughes, fotógrafo oficial da Rainha Victoria. Prefiro o desfoque da imagem aproximada, de rostos e ombros, em que Tristram olha para longe, de olhar vazio ( viva a exposição longa), e em que a criança fita a câmara sem entusiasmo. Prefiro-o à técnica certinha nos retratos de ambos, com as mesmas roupagens africanas, de corpo inteiro, sentados no mesmo cadeirão de estúdio em que outra clientela vitoriana de Hughes se fazia registar com fatos e vestidos europeus.



Cornelius Jabez Hughes, Capitão Tristram Speedy e o príncipe Alamayou ,1868
imagem obtida aqui

Julia Margaret Cameron,Capitão Tristram Speedy e o príncipe Alamayou, prova de albumina, 1868
imagem obtida aqui

Interessa-me igualmente a fotografia que Cameron Intitula “Speare or spare”, que se pode traduzir (toscamente) como “A lança ou a Misericórdia”. Como numa encenação de opereta, Tristram Speedy vertical retém sob a ameaça de uma lança um homem tombado, negro. O homem parece ser o mesmo que aparece noutra fotografia de Cameron, acompanhado do capitão Speedy e do príncipe Alamayou, e que é, umas vezes, descrito como um dignatário etíope não identificado, e outras, como um africano anónimo.


Julia Margaret Cameron,"Speare or Spare", prova de albumina, 1868
imagem obtida aqui


Na imagem, Cameron tem a oportunidade de criar uma cena contemporânea análoga às dos dramas e mitos que compunha com a colaboração de família e amigos. Desta feita, em vez de graves momentos de peças de sakespeare e da gesta arturiana, reconstitui à sua maneira os eventos da campanha da Abissínia, meses antes. Fá-lo com o mesmo sentido com que trabalha personagens imaginários, sem interesse na literalidade. Speedy é mais que mais que um simples homem de armas, parece corporizar uma visão interna, serena e heróica do Colonialismo e Imperialismo do século dezanove. Apesar da crueza dos factos- um expedição militar britânica, de milhares de homens, com a melhor tecnologia militar da época, ataca o único verdadeiro estado independente de África, aniquila o exército mal armado que defende a capital, força ao suícidio o imperador e rapta o herdeiro de sete anos – o que Cameron nos mostra é um Europeu, fascinado pelo exótico, e que tendo um clara vantagem se mostra superior poupando aquele que domina. No fundo, domina para bem dos dominados, porque se interessa por eles.

Esta é uma leitura óbvia do sub-texto que sustenta a imagem. Mas pode-se igualmente fazer uma outra leitura, mais pessoal, centrado no próprio Tristram Speedy. O homem dominado que, como vimos, por vezes é descrito como um dignatário abissínio, pode representar Alaqa Zaneb.

Após a tomada de Magdala, à época a capital da etiópia, e o suícidio de Tewodros, os britânicos capturam o príncipe herdeiro e a sua mãe, a rainha Teru Warq. O seu destino é claro, ambos seguirão para a Grã-Bretanha, junto com o saque. Ao príncipe está destinada uma educação britânica. A rainha, no entanto, insiste em que este continue igualmente os seus estudos em amárico e em cultura etíope. Com a concordância de Sir Robert Napier, comandante britânico da expedição, é apontado Alaqa Zaneb , um erudito etíope, cronista e arquivista-mor do reino, para o cargo de perceptor do jovem princípe. Ora esta nomeação pôs claramente em causa o reconhecimento de Speedy que, pelo domínio da língua da corte etíope, se apresentava como natural candidato ao cargo de tutor de Alamayou.

A morte, por doença, da rainha perto de Antalo, ainda em território etíope, acabará por ser providencial para o capitão. O professor etíope ainda embarcará com os elementos da expedição britânica no Mar Vermelho, mas não passará do Suez, sendo afastado definitivamente do príncipe. Parecia não interessar a ninguém, e a Speedy em particular, a manutenção de laços forte com a terra natal.

A versão de Tristam Speedy relativamente ao afastamente de Alaqa Zaneb, consta de uma crónica conservada pela sua família, e roça o anedótico. Num dia particularmente quente, em que praticamente todos, excepto Speedy, se encontravam no convés tentando aproveitar alguma brisa marinha, um alvoroço enorme leva-o a subir e depara-se com Alamayou, em pânico, aos gritos. Vendo-o, a criança agarra-se ao seu pescoço e, ao colo, explica que Alaqa Zaneb lhe lançou um mau-olhado, recusando-se a falar com o etíope, que é assim dispensado.

O diplomata Hormuzd Rassam, emissário pessoal da rainha Victoria, que seguia na mesma embarcação não confirma de todo esta descrição. Limita-se a declarar que, por motivos vagos, Alaqa Zaneb terá sido dispensado em Suez, não seguindo para Inglaterra. Em linguagem diplomática ser vago é uma forma de não dizer motivos graves. O facto é que, afastado o perceptor etíope, não foi feita qualquer tentativa de angariar um substituto, e não faltavam, em Jerusalém nomeadamente, eruditos etíopes que pudessem, caso houvesse interesse, garantir uma educação não exclusivamente britânica.

A ascendência que Tristam speedy tem na fotografia de Julia Margaret Cameron sobre o tal alegado dignatário, pode ser assim lida quer como uma metáfora do “iluminado” domínio europeu sobre o Mundo, quer como uma representação da sua vitória pessoal sobre Alaqa Zaneb, o elo do jovem princípe com a Etiópia e um perigo para a sua pretensão à tutoria de Alamayou, fonte de notoriedade e reconhecimento.

__________________________________________________________

Sem comentários:

Publicar um comentário