domingo, 7 de fevereiro de 2010

Os desenhos de Henry Fox Talbot

A fazer fé nas palavras do próprio, podemos situar de forma muito precisa o momento em que se imaginou a Fotografia e uma forma de a concretizar.

Estar-se-ia nos primeiros dias do mês de Outubro de 1833. Num comportamento próprio da classe abastada e culta da época, Henry Fox Talbot abandonara a ilha natal e fazia o circuito do Grand Tour, em busca de beleza, cultura e arte. Encontrava-se nas margens do lago Como, em Itália, mais concretamente, junto da balaustrada da Villa Melzi. Debatendo-se com a sua manifesta falta de talento, tentava desenhar a paisagem. Mas nem com a ajuda de um ligeiro engenho óptico, patenteado por Wollaston, a Camera Lucida, conseguia transpor a riqueza visual e tridimensional que o envolvia para a folha de papel. Esta apenas funcionava como prova de uma inépcia que o desapontava.
Contrariamente a Daguerre, outro dos vértices da trindade anglo-francesa a quem é atribuída a paternidade da Fotografia, Talbot era senhor de uma personalidade reservada. Mas essa natureza não significava falta de ambição intelectual. Tirara proveito de uma educação esmerada e evidenciou-se pela sua cultura polifacetada, destacando-se quer como matemático, químico e físico, quer como estudioso de línguas orientais, e em particular da escrita cuneiforme.
Terá sido então que, confrontado com o pouco sucesso pessoal no campo do desenho, nas margens do lago Como, em Outubro de 1833, Henry Fox Talbot terá pensado o quanto encantador seria se as imagens, que via através do prisma da camera lucida, se fixassem de forma duradoura no papel. Porque é que tal não haveria de ser possível?
No espaço de dois anos, desenvolveria um processo de fixação de imagens, e em 1839, sabendo da exposição pública do trabalho de Daguerre, exporia as suas imagens na Royal Institution of Great Britain, a 25 de Janeiro. Poucos dias depois, num ensaio apresentado perante a Royal Society, divulgaria os detalhes técnicos daquilo a que chamou desenho fotogénico (photogenic drawing).

Pode-se olhar para esta história da História de um ângulo moral, como se fosse uma fábula. Talbot quando confrontado com uma limitação, transformou a adversidade, através do seu trabalho e intelecto, num feito de incontestável valor.
Prefiro vê-la porém de uma outra forma. Perante alguma glorificação actual da ignorância, considero fantástico verificar como um homem, obviamente brilhante nos campos das letras e das ciências, valorizava de forma tão acentuada as artes, ao ponto de considerar um fracasso pessoal não estar aí ao mesmo nível com que manobrava números, químicos e escritos antigos.


Desenho de Henry Fox Talbot, realizado na Villa Nelzi
Pormenor do desenho

O autor dos desenhos

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