domingo, 29 de janeiro de 2012

As medalhas de Morse


Mathew Brady, Samuel Morse, 1866
imagem obtida aqui




Observo o retrato de Samuel Morse, septuagenário, e recorre-me a ideia de estar perante um general americano da guerra civil. Apesar de objectivamente falsa e até um pouco tortuosa, a associação não é totalmente despicienda.
É falsa, desde logo, porque Morse não foi um militar. E dos retratos de generais desse conflito mais emblemáticos, apenas o do derrotado Robert E. Lee se aproxima da sua grisalha figura. Outro ponto contra ainda, é verificação de que a exibição ostensiva de medalhas não faz parte da iconografia e da mentalidade castrense dos americanos dessa época. Dir-se-ia que prevaleciam ainda os valores puritanos e austeros dos pioneiros.
Mas imagem é contemporânea da contenda, que terminara um ano antes, e a postura é similar à de muitos retratos das figuras militares que a travaram. Quem fotografa Samuel Morse é Mathew Brady, um seu antigo aluno de pintura e que com ele aprendera a dominar o difícil processo da daguerreotípia antes de transitar para método do colódio húmido. E Brady é tão-somente o grande fotógrafo da guerra civil americana, o homem que, pessoalmente ou através de colaboradores, fez do registo do conflito uma missão, e um empreendimento de tal forma intenso que quase o leva à ruína financeira.
Esta aproximação icónica de uma imagem de Morse à galeria de generais, na esteira da vitória da União, revela-se tortuosa pela natureza da figura do inventor. O telégrafo que inventara revelara-se instrumental e, a par do comboio, outra novidade dessa guerra, ajudara muito o Norte Industrial a responder rapidamente a um Sul muito mais limitado em recursos técnicos. Mas Morse, que geograficamente é um homem da União, um nova-iorquino, é igualmente uma personagem complexa. Na luta moral e ideológica que antecedera a guerra, as posições de Morse políticas estão muito mais alinhadas com o sul. Defendera a escravatura como uma forma natural de organização de poder, de autoridade e de propriedade.
O verdadeiro nexo desta associação reside, por um lado, na já referida coincidência temporal e imagética (e no autor da fotografia), e por outro, no facto da imagem encerrar um discurso sobre a guerra pessoal de Morse e a sua vitória. Morse apresenta-se como um vencedor da disputa de longos anos pelo reconhecimento da sua autoria e propriedade intelectual sobre o telégrafo. A instalação do telégrafo e a sua difusão mundial fora um feito que resultara de duras disputas de financiamento, de viagens de demonstração e de pressões diplomáticas que atingiram um almejado sucesso quando, em 1858, um conjunto de potências europeias associadas com o Império otomano lhe atribuem um prémio de 400.000 francos franceses em reconhecimento do seu invento e do uso deste nas suas redes nacionais. Mas há algo de ambíguo na expressão, a barba cobre os lábios que parecem indicar um sorriso subtil, ao passo que os sobrolhos permanecem carregados. O Samuel Morse que se faz fotografar expondo as medalhas de reconhecimento de países europeus (da Espanha à Rússia, da Dinamarca à Turquia, o arco à quase completo, apenas a Grã-Bretanha e o seu império se põem de fora) é o homem que cinco anos depois falecerá convicto que o seu próprio país não lhe fizera a devida justiça. Conseguira impor-se nos tribunais como o único e verdadeiro inventor do telégrafo electromagnético, mas o Supremo Tribunal de Justiça negara-lhe quaisquer direitos sobre futuras aplicações baseadas no código ficaria para sempre associado ao seu nome. E apesar do reconhecimento judicial, nunca em vida o Governo federal dos Estados Unidos reconheceu o politicamente controverso Samuel Finley Breese Morse, que não só defendera a Escravatura, como acreditava lutar contra uma conspiração dos países católicos europeus que estariam a encher a América de emigrantes para depois a controlar.


Num último reparo, observo que a segunda medalha da esquerda, no cimo, corresponde à Ordem honorífica portuguesa de Torre e Espada.

Mathew Brady, Samuel Morse, 1866, pormenor
imagem obtida aqui


Desconhecendo a história que envolve a atribuição deste título a Morse, mas sabendo que Portugal não fez parte do rol de países que retribuiu monetariamente o inventor em 1858, arrisco-me a dizer que estamos perante um caso vetusto duma irritante idiossincrasia portuguesa. Fala-se amiúde de um traço psicológico nacional que se centra numa espécie de ausência de frontalidade, no evitar publicamente defender uma posição e evidenciar-se, naquilo que o filósofo José Gil definiu como a não-inscrição, e que a maioria das pessoas designa por manha. Mas atrevo-me a apontar outra característica espantosa, diversa da primeira, mas que igualmente se insere na linha do comportamento manhoso. Refiro-me a um talento das nossas “elites”, que conseguem pôr-se em bicos de pés e fazer-se aparecer na fotografia. Sem contribuir, sem esperar verdadeiramente pagar qualquer futuro envolvimento, conseguem colocar-se junto dos verdadeiros actores e associar-se a momentos que esperam de glória. Como os fura-casamentos, beijam a noiva, dançam com as convidadas, comem o bolo e nunca, nunca passa pelos seus planos oferecer um presente. Tudo isto sem qualquer sentido de ridículo ou de vergonha, o que os torna dignos do Olimpo. Caso não se lembrem de nada, relembro a história de um primeiro-ministro luso  que, há alguns anos atrás, se fez fotografar numa cimeira a quatro que iria iniciar uma guerra, sabendo de antemão que não poderia enviar tropas. Ou a recente e fabulosa interpretação sorridente de gestores, secretários de estado e ministros que cercaram (num verdadeiro festival de croquetes, pasteis e de brindes com vinho branco) um grupo de empresários asiáticos visivelmente atrapalhados, pouco acostumados a ser tratados como velhos "compinchas", como amigos de infância, por gente que fora forçada a vender-lhes parte significativa de uma empresa pública.
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