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domingo, 15 de dezembro de 2013

Retrato duma personagem

Praticar o chamado retrato psicológico, um exercício complexo em que se tenta capturar numa fotografia os traços da personalidade do retratado, é algo que frequentemente se revela difícil.
Por vezes, descamba mesmo para o impossível, quando o alvo da lente é alguém que, na sua presença, se transfigura e se transforma numa personagem.

Este defeito, atribuído comummente a secções muito especificas e especializadas, como os actores e os políticos, quase como uma deformação profissional, atinge  situações limite. Situações em que quase se duvida da existência duma verdadeira personalidade atrás da personagem.

Refiro-me a figuras cuja aparição em público implica, ou implicava, sempre uma encenação. Andy Warhol era um desses casos. Outro, sem dúvida, era Salvador Dali.
Ambos tinham uma relação forte com a sua representação fotográfica, ambos forneceram o material visual para alguns dos mais fantásticos retratos do século vinte. Mas, quase sem excepção, o que forneceram não foi um vislumbre do seu pathos ou da sua verdade interior. O que ofereciam à câmara era uma manipulação.

Perante este facto, por vezes a melhor abordagem que um fotógrafo podia ter era hiperbolizar o que o modelo oferecia, tornar evidente essa manipulação.

Alberto Schommer, Salvador Dali, 1973
imagem obtida aqui
E Alberto Schommer, fotógrafo espanhol, sabia-o. Por isso fê-lo tão bem tão bem em 1973.

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Graça nenhuma

Buster Keaton, figura maior da comédia e do cinema mudo americanos, esteve durante muitos anos, por contrato, proibido de rir nas fotografias.
Mas, mesmo muitos anos depois de se ver livre de tais cláusulas, os fotógrafos não lhe pediam que sorrisse.
O seu sorriso, aparentemente, não tinha graça nenhuma...



Bert Stern, Buster Keaton, 1958
imagem obtida aqui


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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Os improváveis

Por vezes, numa imagem reúnem-se vários improváveis.

William P. Gottlieb foi um fotógrafo improvável. Nada, à sua nascença, o parecia encaminhar para tal destino. Nascido numa família empresarial, ligada à construção e à industria madeireira, tudo indicava que estava reservado para ele um lugar no mundo dos negócio. Mas um grave problema de saúde quando estudava economia na Universidade, acabaria por o forçar a uma convalescença longa. Uma convalescença  tornada suportável pela música, em particular o Jazz, que se tornou interesse avassalador e que o levaria optar pela crítica musical e pelo jornalismo como modo de vida.
Foi por falta de verba para fotógrafos que se viu forçado a pegar numa pesada Speed Graphic, uma câmara típica dos repórteres de então,  que lhe custou parte significativa da sua colecção de discos. E nos intervalos em que largava os seus blocos de notas, e a sua função maior de jornalista de textos, o autodidacta fotógrafo revelou-se melhor que a encomenda. Criou um dos mais impressionantes conjuntos de imagens daquela que alguns chamam a "Era dourada do jazz" - o período em que as "big bands" levaram o jazz de música duma vida nocturna mais ou menos duvidosa a grande fenómeno popular, e em que depois, com o declínio destas, a espantosa revolução do Bebop o levou de popular a género de culto.

William P. Gottlieb, Lead Belly no National Press Club,
Washington, 1938-48
imagem obtida aqui

Também para Lead Belly (alcunha de Huddie William Ledbetter) à nascença, em data não muito bem definida, não parecia estar reservado o destaque em importante publicações, nem os palcos mais notáveis das grandes cidades americanas.
Negro, nascido numa plantação do Louisiana em fins do século XIX, tudo apontava que, mesmo sendo um notável autodidacta e poli-instrumentista, enquanto músico não passasse das estreitas margens da sua comunidade ou, quando muito, que singrasse na única carreira possível para os seus, o abrilhantamento do submundo nocturno, como músico de bares duvidosos e bordéis.
E depois, a sua personalidade explosiva, que o tornava quase uma personificação dos piores estereótipos que caricaturizavam os negros americanos, parecia arredá-lo definitivamente do interesse da América mainstream. Bebia, tinha uma vida amorosa atribulada, envolvia-se em zaragatas, usava armas sem grandes pruridos, foi preso e condenado por várias vezes, inclusivamente por homicídio.
Seria porém a cadeia que que o resgataria do desconhecimento. Em 1933, num dos seus retornos à cadeia, (depois de ter conseguido obtido um inusitado perdão dum governador, que era conhecido por os não darmas que frequentava estranhos picnics na penitenciária onde o músico actuava para deleite de guardas e convidados) foi descoberto na gigantesca prisão agrícola de Angola, no Louisiana natal, pelo etnomusicólogo Jonh Lomax. Este esforçar-se-ia para conseguir a sua libertação e trataria de o apresentar à sociedade americana, abrindo-lhe o caminho para um percurso que, embora cheio de percalços, o levaria ao reconhecimento público, com um repertório espantoso de blues, gospel, canções de cowboys e até cantigas infantis.

O encontro destes dois improváveis deu-se por mais que uma vez. A predilecção musical de Gottlieb era o jazz, mas este era por natureza local de encontros. Abria-se sem complexos à musica latino-americana e ao blues, por exemplo. E Lead belly não era exactamente um homem que pecasse por falta de versatilidade. Das imagens produzidas nos encontro,s gosto particularmente da acima apresentada. É a mais sub-exposta, quase uma metáfora da dificuldade de chegar à visibilidade de um notável e complexo músico. Da vitória sobre a improbabilidade.

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os sítios obscuros

A Fotografia, que aparece como prática viável em meados do século dezanove, sem história própria e limitada tecnicamente, socorre-se  num primeiro momento, de modelos e temáticas que busca na artes maiores, sobretudo na pintura.
Praticavam-se muito o retrato, a paisagem e a natureza morta, e alguns mais afoitos abalançavam-se nos tableaux vivants, encenações de momentos históricos ou ficcionais com recurso a modelos. Buscavam-se composições equilibradas e pitorescas, almejava-se belas imagens.
Mas a natureza "mecânica" do processo fotográfico alargou os praticantes muito para além da franja dos dotados para as artes, e rapidamente o mundo das imagens se tornou mais "democrático", mais aberto e inesperado.
A Fotografia mostrou-se estranhamente capaz de se afastar das coisas belas e ideais, e de ser verdadeira.
Com ânsia documental, acercou-se dos sítios obscuros da sociedade e alma humanas.
Mesmo entre os seus praticantes mais eruditos aparecem divergências em relação à tradição pictórica.
Hugh Welch Diamond, um médico psiquiatra e fotógrafo, utilizando a técnica do calótipo, uma das primeiras vias de obtenção de imagem fotográfica, fez registos das feições dos seus doentes e da sua locomoção. O primeiro fotojornalismo, por acção de gente como Jacob Riis, também se dedicou à exposição dos excluídos e dos alienados. Mais tarde, esta temática acabaria por entrar no corpo central da fotografia mais autoral, mais "artística". Nomes como Diane Arbus comprovam-no.

Hugh Welch Diamond, Retrato de louca, 1852-54
imagem obtida aqui


Jacob August Riis, Residente idosa,
Esquadra de polícia de Eldridge Street,
Nova iorque, E.U.A., 1890
imagem obtida aqui


Diane Arbus, Homem com rolos de cabelo
Nova iorque, E.U.A. 1966
imagem obtida aqui



A par deste assalto mais informado ao lado marginal, há toda uma Fotografia mais vernacular que também a aborda. Fotógrafos comerciais que captam as figuras dos circos de aberrações e as fazem circular em postais e carte-de-visite, jornais sensacionalistas que seguem como rapaces as vítimas e os perpetradores de crimes, funcionários de esquadras e asilos que burocraticamente registam os seres da margem.

A maioria dessa Fotografia é desajeitada, tecnicamente medíocre. Mas alguma dela é surpreendentemente viva e competente, e atinge-nos com inesperada força.

O Justice & Police Museum de Sydney, na Austrália, alberga um fascinante arquivo de imagens forenses e de cadastro. Disponíveis online, com alguma informação escrita adicional, é facil perdermo-nos durante horas a vasculhar o submundo australiano de início do século vinte, numa viagem pelas  estranhas e dramáticas histórias pessoais que conseguimos intuir nestas fotografias.

Um exemplo:
Um tal  Harry Leo Crawford  aparece em três fotografias. De origem escocesa, casado em segundas núpcias com Elizabeth King Allison, funcionário de um hotel, aparentemente um cidadão dentro da normalidade, é preso em 1920, por suspeita do assassínio da primeira mulher.

autor desconhecido, Eugenia Falleni alias Harry Crawford, 
Sydney, Austrália,início de 1920
imagem obtida aqui


Sete anos antes casara com a viúva Annie Birkett, uma empregada da residência do Dr. G. Clark , em Sydney, de quem era então motorista. Após quatro anos de matrimónio, Annie Birkett desapareceu e Harry informou os vizinhos de que havia fugido com um canalizador.


Em 1919, Harry casou novamente indicando no registo a condição de solteiro. Nesse mesmo ano, denúncias de familiares da sua primeira mulher levam a que a polícia investigue o desaparecimento. Finalmente, um corpo ,encontrado desfigurado em 1917, é exumado e identificado como o cadáver de Annie Birkett, e a 5 de julho de 1920, Harry foi detido.

Mas esta história real  de intriga policial esconde uma torção existencial e de identidade.
O escocês Harry Leo Crawford era a italiana Eugenia Falleni.

Nos arquivos do Justice &Police Museum são disponibilizadas três fotografias. A primeira (acima), encontrava-se  numa capa de papel com a inscrição  "Falleni Man/Woman" ( Falleni Homem/Mulher), apresenta-nos o suspeito em roupas de homem, na esquadra central de Sydney, provavelmente em 5 de Julho de 1920, o dia da sua detenção.

A segunda, feita no final desse ano, em 21 de Outubro, já é uma imagem da penitenciária feminina onde cumpriria a pena, e Harry/Eugenia já aparece vestido de acordo com o seu género biológico.

autor desconhecido, Eugenia Falleni alias Harry Crawford
Sydney, Austrália, 21 de Outubro de 1920
imagem obtida aqui


A terceira, também uma imagem de cadastro da mesma penitenciária, feita oito anos depois, confirma-nos uma Eugenia Falleni em roupagens femininas.

autor desconhecido, Eugenia Falleni alias Harry Crawford,
Sydney, Austrália, 1928
imagem obtida aqui


Abstendo-me de falar mais da história desta personagem, duma vida plena de potencial romanesco, que desafio os leitores a investigar, concentro-me no que está patente nas fotografias.

São três imagens sem grandes ambições. Fotografias de identificação. A inicial apresenta-nos Falleni na sua falsa identidade. As duas seguintes mostram-nos a sua verdadeira identidade, a que a biologia lhe impôs e a que a lei a forçou a aceitar.

Mas as imagens contam-nos uma história diferente. Olhando-se a linguagem corporal, a sensação que se tem é que a personagem travestida é a que consta das fotos da penitenciária,e não a da esquadra. Eugenia é muito mais natural e segura enquanto suspeito Harry Leo Crawford , do que enquanto condenada Eugenia Falleni.

autor desconhecido, 
Eugenia Falleni alias Harry Crawford (pormenor), 
Sydney, Austrália,início de 1920
imagem obtida aqui


autor desconhecido, 
Eugenia Falleni alias Harry Crawford (pormenor), 
Sydney, Austrália,início de 1920
imagem obtida aqui

autor desconhecido,
Eugenia Falleni alias Harry Crawford (pormenor),
Sydney, Austrália, 1928
imagem obtida aqui



Estas imagem falam-nos de identificação e identidade. E de como estes conceitos não são sempre avenidas cristalinas, funcionais e desimpedidas. São, por vezes, sítios obscuros, retorcidos, misteriosos.


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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O não-retrato pessoal de Andy Warhol

Henry Cartier-Bresson terá dito que não gostava de retratar actores e actrizes. A relação profissional que têm com a sua própria imagem faz com que a presença de câmaras os transforme numa pose, considerava ele.

Em poucos casos, esta dificuldade de separar a personalidade da imagem, terá sido mais evidente que no do artista plástico Andy Warhol. Este, figura de proa do movimento Pop Art, é um exemplo único de opacidade. Todas as suas aparições públicas eram momentos de demonstração. O homem era a sua imagem. O seu rosto era uma máscara de cera inexpressiva, imagem pura, sem aparente significado.
Dificilmente se poderia contornar este exercício, vislumbrar um pouco da intimidade, da sua verdade, através do rosto.

Richard Avedon, Andy Warhol,
Nova Iorque, 20 de Agosto de 1969
imagem obtida aqui


Uma das formas de garantir anonimato numa fotografia passa por evitar o rosto. É um recurso comum no manual de artíficios dos fotógrafos. Os amadores que tentam o nu, com modelos relutantes à exposição pública, fazem-no. Os fotógrafos mais ambiciosos, quando tentam a abstração partindo dum corpo  individual, também vão por aí.

Curiosamente, um dos olhares fotográficos mais certeiros sobre Andy Warhol serve-se desta abordagem.
Em Agosto de 1969, Richard Avedon fez algumas fotografia com o artista, então recuperado de uma tentativa de assassínio. Pouco mais de um ano antes, Valerie Solanas, uma aspirante a actriz e dramaturga, desequilibrada social e psiquiatricamente, que tentara entrar no círculo próximo de Warhol, e despeitada pela pouca atenção que considerava obter, disparara sobre ele.
Gravemente ferido, fora submetido a uma operação complexa na qual, inclusivamente, o recuperaram de uma paragem cardíaca. Andy warhol sobreviveria, mas do acontecimento ficariam marcas físicas, um torso retalhado por cicatrizes e a necessidade de usar um corpete ortopédico, e marcas psicológicas. Warhol nunca lidara bem com a dor física e o episódio viria a marcá-lo profundamente, acentuando a aversão irracional que tinha por hospitais e médicos. O artista faleceria prematuramente em 1987, na sequência de uma operação dita de rotina à vesicula biliar, que adiara ao ponto de a tornar uma emergência médica.

O tronco sem rosto de Warhol, um não-retrato, que Avedon fotografa no Verão de 1969, acaba por ser uma muito mais fidedigna, e pessoal, imagem dos seus demónios interiores do que os muitos registos da face icónica que oferecia às câmaras

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Um retrato não tão perfeito

Steve Schapiro,
Woody Allen a passear a sua formiga de estimação, 1964
imagem obtida aqui


Falei aqui desta imagem recentemente.
Foi feita no ano seguinte ao retrato de Ruth Orkin (ver Um retrato perfeito). No entanto, apesar de divertidíssima, é uma imagem muito mais presa ao tempo. Diz-nos muito de Woody Allen em 1964 e  menos do Woody Allen de hoje.
Ao contrário da fotografia de Orkin, que se furtou ao restrito com subtilezas e referências, este retrato é ilustrativo. Apresenta (com precisão fulminante, é certo) o momento do comediante, o seu tipo de abordagem nonsense e apalhaçada. Ilustra a persona excêntrica, insegura e patética que o nova-iorquino incorporou sobretudo nas suas actuações e filmes iniciais.

É um belíssimo retrato da personagem, não do homem. E Woody Allen sempre fez questão de tentar afastar a ideia de que a criatura que ostenta nas obras corresponde à sua personalidade.

Com menos sucesso do que desejaria.


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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Um retrato perfeito

A temática do retrato fotográfico é quase tão antiga quanto a própria técnica.
Inicialmente, a Fotografia socorreu-se das convenções da Pintura, mas depressa as possibilidades únicas do meio permitiram-lhe emancipar-se. O instantâneo fotográfico facultaria um outro olhar sobre a alma humana.

Teorias sobre como obter o retrato perfeito não faltam. Livros que as explicam também não.
Eventualmente não há O retrato prefeito. Há retratos perfeitos.

Fred Stein obtinha-os. Arnold Newman também. E não há maneiras mais diferentes de tratar o tema. Um trabalhava cirurgicamente sobre o rosto, o corpo, a postura e o movimento, com a agilidade da sua Leica (ou, quando muito, com uma Rolleiflex). O segundo, trabalhava sobre a identidade, o retratado era capturado com as referências visuais do seu trabalho, com as ferramentas, na sua casa. E fazia-o muitas das vezes com uma pesada câmara de grande formato.

Gosto bastante de Woody Allen.
Conheço-lhe vários retratos. Gosto bastante do que foi feito por Newman. O de Steve Schapiro diverte-me. Mas o seu retrato perfeito, para mim, foi feito por Ruth Orkin.

Data de 1963, e Woody Allen era então apenas um comediante e um escritor de gags para televisão.Não realizara ainda nenhum filme, não estreara peças e nem se sonhava com a complexidade de  referências  que a sua obra futura tomaria.
Mas este retrato consegue a proeza de tudo isso enunciar.

Ruth Orkin, Woody Allen no Metropolitan Museum of Art,
Nova Iorque, 1963
imagem obtida aqui
Há na imagem a ironia fina e triste que será característica da obra madura do nova-iorquino. Há igualmente o sentido de auto-exposição, da apresentação do seu corpo e dos seus trejeitos. 
E depois, há uma assumpção que é interessante por ser dada num retrato. 
Nos retratos ambiciona-se capturar a verdade psicológica do retratado. A imagem criada por Orkin e Allen subverte essa ambição. Este retrato confronta-nos com a construção de uma representação, e com essa natureza muitas evitada, e negada, do retrato enquanto construção.

À primeira vista temos um efeito cómico, com Woody Allen armado em mimo a replicar a pose do aristocrata  da pintura, mas o olhar sério deste destrói a comicidade óbvia.  E acabamos com um jogo que evidencia a impossibilidade de darmos aos outros uma representação que respeite plenamente as convenções.


Somos sempre patéticos quando comparados com aquilo que devíamos ser.

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terça-feira, 17 de julho de 2012

O Abandono e a Memória

Os momentos de transição são necessariamente momentos que geram consequências e reações. A passagem do paradigma analógico para o digital na Fotografia, que se consumou definitivamente na primeira década do nosso século, não escapa a este postulado geral.

De entre as consequências e as reacções daí advindas interessa-me aqui apontar duas: a súbita redução do mercado da fotografia assente em sais de prata, e o desaparecimento de marcas e produtos nesse campo, causam um choque significativo em todos aqueles que cresceram a conhecer nomes como Rodinal, Agfa e Polaroid; e o renovado e súbito interesse por processos e objectos que pareciam remetidos para a história. Os dois fenómenos são concomitantes e contagiam-se: é sensação de perda que leva à criação do vários projectos que tentam recuperar filmes, equipamentos, químicos entretanto desaparecidos ou em vias de se perder (the impossible Project, Lomography, a inteligente estratégia do fabricante Adox, entre outros); é o desaparecimento de produtos industriais que renova a atenção sobre a era pré-industrial da Fotografia ( e eis que voltam o daguerreótipo, o cianótipo, o papel salgado e o colódio húmido, técnicas e artefactos que não dependem de uma indústria).

Ao mesmo tempo que a Fotografia vivia esta mudança de paradigma, do Analógico para o digital, o norte-americano Quinn jacobson vivia, no início da década passada, uma transição pessoal. Depois de um largo período como fotógrafo dos quadros das forças armadas, de uma licenciatura em Fotografia, Artes Visuais e Comunicação, Quinn tacteava o seu caminho, digerindo influências que incluíam nome como Diane Arbus e August Sander, e esgravatava o seu próprio passado em busca de um sentido para o seu trabalho. E é então que se dá um instante decisivo, que ele sabe precisar com grande detalhe: ao observar o livro "Looking at Photographs: 100 Pictures from the Collection of The Museum of Modern Art", deparou-se com a reprodução de um ambrótipo anónimo. O ambrótipo é um positivo directo sobre vidro, utilizando a técnica do colódio húmido, em que a face posterior do vidro é recoberta de um material negro, betume normalmente. Pesquisando sobre o procedimento, que caíra em desuso ainda na década de setenta de oitocentos, conheceu com o trabalho do Dr. Hugh Welch Diamond, um médico dedicado à psiquiatria que aprendera a fotografar com o criador da técnica do Colódio Húmido, Frederick Scott Archer.
Welch Diamond acreditara, exercitando o espírito positivista típico de finais do século dezanove, que através da fotografia sistemática dos seus pacientes poderia, de alguma forma, catalogar e organizar padrões de doença mental. Falharia rotundamente nesse aspecto. As suas fotografias dizem-nos muito pouco sobre os problemas do cérebro, mas ficar-nos-iam como um espantoso documento do pensamento e sociedade da época. A sua “Mulher com pássaro morto”, de cerca de 1855, forneceria a Quinn Jacobson o mapa que o orientaria na criação dum olhar próprio. Aquela observação tornar-se-ia uma epifânia.

Dr. Hugh Welch Diamond, Mulher com pássaro morto, cerca de 1855
prova de albumina a partir de negativo em vidro
imagem obtida aqui
Com conhecimentos limitados no que dizia respeito a procedimentos fotográficos arcaicos, Quinn Jacobson procurou a ajuda de Mark e France Osterman, um casal que tenta recuperar a arte (quase) perdida do Colódio Húmido, na cidade de Rochester, sede da Kodak e uma espécie de capital da fotografia nos Estados Unidos. Nos workshops organizados por estes, teve acesso às peculiaridades do processo, que implica um período curtíssimo entre a execução dos suportes e o seu processamento (em cerca de vinte, trinta minutos, é feita a aplicação da emulsão, a exposição da chapa e a sua revelação e fixação), às particularidades de uma sensibilidade relativamente baixa e à fabulosa gama tonal que esta técnica permite.

A partir de 2003, Jacobson começou uma série, "Portraits From Madison Avenue", onde diferentes componentes se combinam e nos fornecem uma abordagem muito pessoal da fotografia. Partindo da já referida influência estruturante de Diane Arbus e August Sander (onde a atenção ao conceitos de normalidade e identidade são determinantes), abordou a sua própria experiência pessoal, retornando ao bairro da sua cidade natal, Ogden, no estado americano do Utah, onde na década de setenta do século passado, o seu pai possuía alguns apartamentos de rendas baixas, e onde, acompanhando-o, conheceu os estranhos e fascinantes inquilinos que os habitavam. Gente que se situava nas franjas da sociedade norte americana, que apresentava problemas físicos, mentais, de integração. Uma legião excluída, abandonada longe da normalidade dos subúrbios. Trinta anos depois, o bairro mantinha a mesma tipologia de ocupantes. Fotografá-los com a técnica do colódio húmido permitiu reconstruir a proximidade com que lidara com os seus antecessores. Com as câmaras de grande formato, exposições de vários minutos e a necessidade de ter um estúdio à mão, não havia a possibilidade de obter instantâneos furtados da sua vivência. Fotografá-los desta forma implicava convencê-los a posar, convencê-los a colaborar, contornar as suas resistências. Implicava conhecê-los .

Quinn Jacobson, Jefferson Kerby,
série "Portraits from Madison Avenue, 2003-2006
imagem obtida aqui
A opção pelo colódio húmido revelava-se não fútil, não caprichosa. Forçou uma metodologia de trabalho, permitiu um tipo específico de resultados. E depois havia, para Quinn, um paralelismo não negligenciável: fotografava os abandonados da sociedade americana com uma técnica, belíssima nos resultados, mas que fora abandonada em prol de outras mais simples e práticas. Mais produtivas.

Com "Portraits From Madison Avenue", Quinn Jacobson estabeleceu um padrão , uma orientação de trabalho. Propôs-se abordar e explorar as suas experiências, e questionar acerca de coisas como Identidade, Diferença, Classe social e Memória. Pretendeu criar trabalhos que evoquem em vez de dizer, que sugiram em vez de explicar.
Nalguns trabalhos iniciais sentiu a necessidade intervir mais substancialmente nos retratados. Em várias fotografias de Dusty Nance, um jovem adulto com claras limitações mentais, e que tivera problemas com a justiça, sentiu necessidade de o vestir com a roupa listada dos presidiários de outros tempos. Mas estas intervenções foram pontuais e tenderam a desaparecer. As imagens tornaram mais depuradas e auto-esclarecedoras.

Quinn Jacobson, Dusty Nance,
série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006
imagem obtida aqui


Quinn Jacobson, Dusty Nance,
série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006
imagem obtida aqui

Quinn Jacobson, Ex-presidiário,
série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006
imagem obtida aqui

Quinn Jacobson, Kayla - uma testemunha de jeová,
série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006
imagem obtida aqui


Quinn Jacobson, Rene Jimenez,
série "Portraits from Madison Avenue", 2003-2006
imagem obtida aqui
A sua série seguinte, "Vergangenheitsbewältigung" ( qualquer coisa como o “esforço para lidar com o passado”), iniciada em 2006, coincide com a sua mudança para a Alemanha, onde reside desde então. Começou por se chamar "Kristallnacht: The Night of Broken Glass" (Kristallnacht: a noite dos vidros partidos), numa alusão aos eventos de 9 e 10 de Novembro de 1938, em que milícias nazis e civis destruíram e incendiaram propriedades de judeus, e assassinaram dezanove membros dessa comunidade- enfim, um prenúncio daquilo que viria a ser o holocausto judaico da segunda guerra mundial. Mas a nova designação descreve melhor o pensamento que subjaz nestes trabalhos que, mais que lidarem com um momento traumático e específico, lidam com o lastro da História. 
Nesta série, o fotógrafo lida com a sua ascendência judaica (a  família de Quinn Jacobson adiantara-se ao nazismo uma geração, tendo emigrado para os Estados Unidos no início do século vinte) e como essa condição é determinante na sua relação com seu actual país de residência. Aos retratos, que já existiam em "Portraits From Madison Avenue", passou a acrescentar imagens de paisagens urbanas de particular significado como as ruínas da sinagoga de Mainz. E se na série anterior a figura tutelar que parecia pairar predominantemente sobre as fotografias era Diane Arbus, com sua empatia pelas figuras à margem da normalidade, em "Vergangenheitsbewältigung" , será muito mais Auguste Sander o fantasma que as perpassa. Nestas fotografias, os rostos e os corpo muito mais que representações de pessoas em particular são representações de um tipo- o estrangeiro, o homossexual, o alemão, o artista.

Quinn Jacobson, Homossexual,
série "Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010
imagem obtida aqui

Quinn Jacobson, Bisneta de um oficial nazi, 
série "Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010
imagem obtida aqui


Quinn Jacobson, Imigrante italiana, 
série "Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010
imagem obtida aqui

Quinn Jacobson, Homem nórdico,
série "Vergangenheitsbewältigung", 2006-2010
imagem obtida aqui
Também aqui a técnica usada traz uma dimensão única. A definição de imagem muito particular obtida revela-se muito eficaz no seu propósito de comunicar o peso da História e da Culpa, e o carácter diáfano da Memória.
No trabalho de Quinn Jacobson, a utilização de um processo fotográfico abandonado revelou-se uma determinante central na construção de um sentido estético, indo muito além da mera curiosidade, do acto extremo de nostalgia, ou do espírito amador do “do-it-yourself”. A orfandade que alguns sentem pelo lento perecer dos suportes analógicos é ultrapassável, com sucesso, pela visão pessoal e pelo experimentalismo (que estranhamente pode passar hoje recuperação de algo remetido para o passado).

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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Duas horas e meia

Fred Stein é, muito injustamente, um daqueles casos de um fotógrafo conhecido por uma única fotografia. Dele, que começou a fotografar profissionalmente nos anos trinta, que nos deixou imagens notáveis da Paris de entre guerras e da Nova Iorque dos anos quarenta e cinquenta, que publicou trabalhos na TIME, na LIFE e na NEWSWEEK, conhece-se geralmente apenas o seu retrato de Albert Einstein, de 1946.

Fred Stein, Albert Einstein,1946
imagem obtida aqui



Retratista notável, foi citado num artigo de 1954, no New York Times, afirmando que “ o registo da semelhança e a revelação da personalidade são os dois principais objectivos de um fotógrafo de retrato. Ambos devem ser atingidos num retrato bem-sucedido, dado que o pleno reconhecimento duma pessoa não reside apenas na identidade externa, mas é produzido e tornado convincente por alguns elementos visíveis da individualidade. O fotógrafo tem de estar alerta para a atitude, o gesto e a expressão, e tem de carregar no disparador no momento crítico quando todos estes elementos se combinam para descrever a personalidade interior”.

Abordava os seus retratados de uma maneira muito particular. Quando se lhe apresentava um trabalho de retrato, estudava os feitos e as opiniões do seu futuro modelo. E aquando do momento do retrato, Stein, homem de uma espantosa biografia, um leitor ávido e sistemático, um conversador incurável e uma personagem cheia de assunto, transformava o trabalho em longas tertúlias. Vencia a rigidez e a pose defensiva pela empatia que conseguia despertar no interlocutor e, por não usar equipamento pesado (fotografou sempre com uma pequena Leica ou com uma Rolleiflex), conseguia captar os instantâneos das longas conversas em que se tornavam as suas sessões fotográficas.

Assim aconteceu no caso do famoso retrato de Albert Einstein. Nos contactos preliminares com o secretário do físico, um antigo conhecido dos tempos da faculdade na Alemanha, este avisara-o que apenas conseguira que Einstein lhe disponibilizasse dez minutos no seu escritório. Mas iniciado o serviço, rapidamente o cientista e o fotógrafo encetaram uma longa conversa que, de tempos a tempos, era interrompida pelo secretário. Este tentava manter a agenda planeada e fazer sair Stein. Sem sucesso, dado que repetidas vezes Einstein lhe disse que o fotógrafo ficava mais um pouco. Os dez minutos acabariam ao fim de duas horas e meia e resultariam na fotografia que marcaria, justificadamente ou não, toda uma carreira.

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O inventor

Há muito, muito tempo atrás, quando não existiam playstations, wiis e canais televisivos só de desenhos animados, os miúdos socorriam-se de estranhas coisas para passar o tempo. Algo que, como se sabe, para a criançada demora a passar.
E espantosamente, nesses estranhos tempos não faltavam alternativas. Havia o futebol, é claro, e havia as corridas (então como hoje, sabe-se lá porquê, correr por correr, sem organização, era uma coisa que encantava a malta pequena). E havia toda uma série de possibilidades que hoje soam verdadeiramente esquisitas. Brincava-se aos cowboys e aos índios num recanto da Europa a escorregar para Marrocos, aos polícias e ladrões num país então com poucos polícias e poucos ladrões, e aos espiões. Para estes, as nossas referências não eram a verdadeira variante nacional, os bufos da PIDE, extinta poucos anos antes. Não. Brincávamos aos espiões a sério, do gabarito do James Bond ou das personagens do Casablanca, gente de mistério, gabardine, engenhocas mortais e mensagens em código. E foi aí que o nome Morse entrou na minha vida. Como diria 007, estou a falar de Morse, Código Morse.
Fingíamos pomposamente saber o código, gastando folhas de caderno com mensagens secretas de pontos e traços que, minutos depois, não faríamos a mínima ideia do conteúdo. Alguns insistiam que o código se chamava Morsa, como o simpático mamífero de dentes grandes e bigode, outros mais pedantes corrigiam, que não, o nome era estrangeiro, morsa em francês era morse. E ficava tudo bem, na tremenda certeza com que os miúdos arrumam o mundo.
Por vezes, era necessário reorganizar o mundo como quando, folheando um dos poucos livros didácticos ilustrados da biblioteca local, um de nós descobriu que o código se chamava assim em virtude do seu criador, o americano Samuel Finley Breese Morse - o homem que inventou o telégrafo. Esta reorganização era feita de forma expedita e eficaz : durante dias gozava-se insistentemente, tanto com os que tinham insistido que era morsa, como com os que tinha insistido que era morsa em francês. Quando o azucrinanço deixava de vexar as vítimas e de ter piada, estava o mundo novamente estruturado num novo conjunto de certezas.

Mathew Brady, Samuel Morse, daguerreótipo,
1844-60
imagem obtida aqui

Anos mais tarde tive que arrumar novamente as minhas certezas quando inesperadamente descobri que Samuel Morse, mais do que um inventor da estirpe dum Edison, se revelava uma personagem mais variada, mais matizada nos seus interesses e com uma desconhecida (para mim) importância na história da Fotografia.
Sobre Morse, como acontece com muitas figuras marcantes, há uma narrativa lendária. Esta faz recair sobre um facto traumático a sua determinação em criar um sistema rápido e eficaz de transmitir informação urgente. Diz-se que terá sido informado muito tardiamente da súbita doença da esposa durante uma deslocação, conseguindo retornar apenas quando já era tarde de mais. Que, sobre a sua campa, teria sentido a definitiva urgência de poupar a outros o seu infortúnio.
Porém, a prudência e os factos aconselham um olhar mais cauteloso e natural do feito de Samuel Morse. É natural que tivesse ao longo da sua vida sentido insatisfação e frustração com as muitas notícias que chegavam demasiado atrasadas e com as consequências que daí resultavam. Mas não era o único, muitos outros estavam determinados a acelerar a informação e a alterar significativamente o mundo. O telégrafo é uma daquelas invenções que resultaram de um processo múltiplo no tempo e no espaço, resultante duma maturação do conhecimento científico e experimental. Samuel Morse não foi o primeiro a tentar um sistema de comunicação à distância, estes existiam desde o início da História, com resultados melhores ou piores, mas sempre pouco práticos. Tampouco foi o primeiro a vislumbrar a possibilidade de usar a electricidade para esse fim, anteciparam-se-lhe o espanhol Francisco Salvá i Campillo, o alemão Samuel Thomas von Sömmering, o barão báltico Pavel Schilling e o também americano David Alter. Morse pôde beneficiar da impraticabilidade das soluções destes (com vários fios envolvidos numa única mensagem, sistemas complexos de codificação e grandes limitações na distância da transmissão) e, através da sua intuição e perseverança, ir progressivamente apurando tecnicamente aquela que seria a primeira solução prática e internacionalmente aceite deste processo. Tendo visto, pelo meio, outros adiantarem-se-lhe na exploração comercial da telegrafia eléctrica, a imposição da sua solução foi um processo complicado de negociação de apoios públicos, de apresentações científicas e de deslocações longas nos Estados Unidos e na Europa. Algo bem diferente da história romântica do herói solitário com uma missão.
Aliás, qualquer descrição unidimensional não fará justiça a Samuel Morse. Nasceu numa família conservadora e muito religiosa, filho de um pastor calvinista defensor das tradições puritanas. Igualmente crente nas virtudes de uma educação cuidada, o pai permite a Samuel Morse, filho primogénito, a frequência da Phillips Academy, no Massachussetts, e mais tarde da Universidade de Yale, onde chega com o propósito de estudar Filosofia, Religião e matemática, matérias tradicionais e próprias de um erudito do início de oitocentos. Mas os seus interesses derrapam para as ciências experimentais e para as artes, situação que, pelo menos inicialmente, terá desagrado ao progenitor. Desenha, pinta a pedido e frequenta as aulas de electricidade (então uma curiosidade sem aplicações práticas) de Benjamin Silliman e de Jeremiah Day .
Concluída a formação universitária, Morse opta por aprofundar os seus conhecimentos artísticos, uma escolha que parecia ser uma forma mais fiável de garantir o sustento do que o trabalho no estudo da electricidade (estranhos tempos aqueles!). A qualidade do seu trabalho chamara a atenção e com o apoio de Washington Allston, um artista reconhecido, e do pai, entretanto conformado com a ideia de ter um filho pintor, consegue um estágio de três anos em Londres, para onde parte em Julho de 1811. É o início de uma carreira notável no âmbito da pintura americana do século XIX, que inclui várias viagens pela Europa (onde faz o circuito do “Gran Tour”, como era próprio na época em todos os que tinham ambições culturais), a atribuição de encomendas públicas e de uma vasta clientela particular e ainda a nomeação para o cargo de professor da universidade de Nova Iorque, responsável pela cátedra de Literatura da Arte e do Design onde abordava sobretudo Pintura e Escultura.

Samuel Morse, Mrs. Daniel DeSaussure Bacot,
óleo sobre tela, 1820
imagem obtida aqui

Porém, o sucesso global da sua carreira artística não significou a prosperidade económica almejada pelo ambicioso e inventivo Morse, forçando-o a procurar alternativas. Já em 1821, tentara patentear sem sucesso uma máquina replicadora para esculpir esculturas em pedra. Sempre a par das últimas descobertas no campo da electricidade, a partir de 1832, em complemento das suas actividades de professor de Universidade, começa a trabalhar na sua ideia de telégrafo de registo electromagnético, com fio único. Em 1837, já com a assistência de Leonard Gale, que o ajudara a resolver o problema de aumentar a distância do circuito eléctrico, e o apoio financeiro e técnico de Alfred Vail, o telégrafo atinge a fase de funcionalidade. De imediato o pioneirismo de morse é contestado. Charles Jackson, um conhecido de Morse com quem debatera a sua ideia de telégrafo em 1832, reclama a invenção. Os ingleses William Fothergill Cooke e Charles Wheatstone patenteiam um sistema eléctrico alternativo e conseguem adiantar-se-lhe na exploração comercial do processo. Defrontando dificuldades no financiamento público da rede de telegrafo experimental nos Estados Unidos, e correndo o risco de ser ultrapassado no velho continente, Morse decide em 1838 deslocar-se à Europa para garantir a patente na Inglaterra, França e Rússia.
Será em Paris que, entusiasmado, tomará conhecimento dos avanços de Louis Daguerre no campo da Fotografia. A razão do entusiasmo, para além do natural interesse dum pintor na novas possibilidades de criação de imagens, prende-se com o facto do próprio Morse ter sido um dos muitos que haviam tentado, sem sucesso, tentado fixar as imagens que a câmara obscura projectava. O seu insucesso, que dera por definitivo, fora vingado então pelo processo de Daguerre.

Jean-Baptiste Sabatier-Blot, Louis Daguerre,
daguerreótipo, 1844
imagem obtida aqui

No momento, Daguerre não havia ainda tornado público o procedimento e resguardava-se, tentando evitar que outros intuíssem os passos necessários e lhe furtassem a glória e os proveitos que esperava. A única forma de ver os daguerreótipos era através do próprio autor. Em conversa com o cônsul americano, Robert Walsh, desenha uma estratégia. Morse convida Daguerre para uma demonstração do seu telégrafo esperando que, por cortesia, Daguerre o convide para o edifício do Diorama, onde tinha o seu laboratório, e lhe apresente os suas bem resguardadas chapas fotográficas. A coisa resulta. Ao convite do americano, o francês contrapõe uma proposta para uma visita imediata ao Diorama, onde Morse observa deslumbrado, pela primeira vez, uma série de imagens fotográficas – vistas de ruas, interiores, obras de arte, cópias de gesso e, inclusivamente, uma imagem microscópica de uma aranha. A invenção não fora ainda apurada ao ponto de permitir uma exposição suficientemente curta para possibilitar um retrato.
Entre os dois homens, que se consideravam pares na excelência, gera-se uma clara empatia. Daguerre compromete-se, segundo Morse, a enviar-lhe uma descrição do método assim que a esperada venda do invento ao Estado Francês se confirmasse, e o procedimento fosse tornado público e aberto a todos. Em 20 de Abril de 1839, através do jornal do irmão, o New York Observer, Daguerre faz chegar aos Estados Unidos a notícia da invenção da fotografia. O texto seria republicado por todo o país em vários jornais, fomentando o interesse na inovação.
No final do Verão de 1839, já nos Estados Unidos, Samuel Morse recebe um manual com a descrição dos passos e desenhos dos aparelhos. Rapidamente, em 27 de Setembro desse ano, terá feito aquela que provavelmente seria a primeira fotografia da América – uma pequena placa, do tamanho de uma carta de jogar, registou após 15 minutos de exposição a vista do seu gabinete na Universidade de Nova Iorque, onde figuravam a igreja do Messias e um edifício próximo.
A imagem é no entanto insatisfatória e o próprio Morse virá a atribuir o primeiro sucesso fotográfico em terras americanas ao inglês D. W. Seager, que tendo recebido o manual na mesma altura é mais feliz nos resultados, nesse final de Setembro.
Retratista reconhecido, tem o sentido posto nesse campo e prontamente tenta realizar os primeiros retratos, recorrendo às filhas, com exposições de muitos minutos e em pleno sol num terraço. As imagens perderam-se, delas havendo apenas cópias sob a forma de gravuras. Mas sabe-se que o resultado não seria de entusiasmar. A deficiente óptica aconselhada pelo manual de Daguerre e os longos tempos possíveis obrigavam os retratados a vinte minutos de tortura sob sol intenso, resultando o esforço em retratos de olhos fechados, imagens tremidas e contrastadas, com sombras pronunciadas abaixo do nariz e das sobrancelhas.
Os propósitos fotográficos de Samuel Morse pareciam encravados nesse início de Outono quando terá tido conhecimento que, no mesmo edíficio da Universidade de Nova Iorque, onde fizera as suas primeiras experiências, coisas entusiasmantes se passavam. John William Draper, um professor oriundo da Universidade da Virgínia, estabelecera-se aí no verão anterior e trouxera consigo uma dezena de anos de experiência própria no campo do estudo da óptica e da fotossensibilidade. Sem acesso ao manual de Daguerre e apenas com a descrição sumaria do processo que obtivera a partir de um jornal inglês, Draper abalançara-se em Setembro na sua própria via para o Daguerreótipo, improvisando uma câmara com uma caixa de charutos e uma lente de óculos. Insatisfeito com os primeiros resultados, e sempre longe do olhar público, acompanhado apenas pelo seu assistente William Henry Goode, foi testando novas soluções, experimentou várias lentes, criou diferentes conjuntos ópticos com combinações destas, jogou com os diferentes resultados de partes do espectro luminoso na matéria fotossensível. Ao aumentar a luminosidade das lentes, Draper aproxima-se como ninguém de um processo que sistematicamente permita fazer retratos sem transformar potenciais clientes em mártires da fotografia (embora tenha, numa suas primeiras tentativas, coberto uma auxiliar de farinha para tentar acelerar a exposição). O encontro entre os dois professores terá acontecido no Outono de 1839, e causado grande impacto em Morse. Desconhecem-se pormenores deste encontro, embora o investigador Howard McManus defenda, baseado num conjunto de daguerreótipos que tem em sua posse, que terão nesse Outono compartilhado as suas experiências com retratos mútuos no terraço do edíficio da Universidade de Nova Iorque. A experiencia terá convencido Morse da sua inferioridade técnica e tê-lo-á levado a frequentar, em Janeiro de 1840, as aulas que um agente de Daguerre, Francois Gouraud, deu nesse período em Nova Iorque. O acontecimento seria frustrante, com Morse a descobrir que o francês nada tinha a ensinar-lhe, dadas limitações do equipamento e da química fornecidos a partir da formulação inicial de Daguerre, e com o agente a publicamente definir o americano como um amador.
Em Março de 1840, Alexander S. Wolcott funda precisamente em Nova Iorque o primeiro estúdio fotográfico dedicado ao retrato. Wolcott aventura-se usando uma câmara de sua invenção, a primeira patente americana no campo da fotografia, em que usava um processo inovador que recorria a um espelho côncavo, à semelhança dos telescópios. As imagens de Wolcott eram pequenas devido ao seu processo e de qualidade sofrível, mas causaram sensação.

Alexander S. Wolcott, desenho da câmara alvo da patente americana 1582,
8 de maio de 1842
imagem obtida aqui


Sabedor da superioridade técnica dos daguerreótipos de Draper e ciente da sua larga experiência de retratista, Morse convence o primeiro a formar com ele uma sociedade destinada a explorar o mercado do retrato fotográfico. Esta funcionará com enorme sucesso numa divisão envidraçada do último piso do edifício da Universidade de Nova Iorque, onde à componente eminentemente técnica de Draper se associa o instinto estético e comercial de Samuel Morse. As ópticas usadas permitiam uma composição aproximada, centrada nos retratados, e a profundidade de campo relativamente reduzida que obtinham era perfeitamente adequada à técnica de retrato. Morse rapidamente aperfeiçoa uma postura padrão que permite contornar as dificuldades de exposição longa de alguns segundos – os clientes são sentados numa cadeira de braços, onde apoiam os cotovelos, o pescoço repousa sobre um suporte que permanece ocultado, as mãos são frequentemente entrelaçadas e afastadas do peito para que os movimentos respiratórios não provoquem estremecimento. Nos dias nublados, em que a pouca luz impede a recolha de imagens, Draper e Morse iniciam igualmente um trabalho pedagógico ensinando aos pretendentes do estatuto de daguerreótipistas os seus conhecimentos e técnicas. Por eles passará a formação básica de muitos dos que criarão a história inicial da Fotografia no Estados Unidos. Nomes como Mathew Brady, Albert Sands Southworth e Jerimiah Gurney, passaram pelas mãos da dupla e tornaram-se eles próprios mestres de uma nova geração de fotógrafos, transmitido o legado de Morse e Draper.
A sociedade dura poucos meses, não chegará a 1841. Draper via-se a si próprio como imvestigador, não partilha da ambição comercial de Morse nem do ânimo estético deste. Para ele, a fotografia era sobretudo um desafio intelectual e retornaria às investigações a tempo inteiro, explorando as capacidades científicas do novo meio, nos campos da fotografia astronómica e microscópica. Morse continuaria a actividade, isolado e por um curto período, num estúdio situado no último andar do edifico do New York Observer, o jornal do seu irmão. Mas, uma vez aprovado um apoio público para a construção de uma linha experimental de telégrafo, em finais de 1842, passará a concentrar aí o seu tempo e abandona definitivamente o campo da Fotografia.
Apesar de o ter tentado, Samuel morse não inventou a Fotografia. Mas o homem que deu a notícia do seu invento aos americanos, que é dos primeiros a realizá-la com sucesso nos Estados Unidos, que soube associar-se a quem o complementasse na criação de um processo eficaz de retrato fotográfico, e que soube ainda partilhar esses conhecimentos com aqueles que construiriam a História da Fotografia americana, é em boa medida o inventor da Fotografia dos Estados unidos.

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