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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A resposta

Certas imagens têm a espantosa capacidade de conter a resposta para perguntas que ainda não fizemos...

Alexander Zemlianichenko,
As roupas espaciais do cosmonauta Anatoly Ivanishin
num estendal a secar,
Rússia, 2014
imagem obtida aqui

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um bom ano, então!...

Dizem aqueles que se agarram fortemente à Razão que esperar que a rotação dum ponteiro de relógio, ou até uma revolução do planeta em torno do seu sol, mude alguma coisa é um pensamento patético.
Mas os pensamentos patéticos fazem o mundo girar (a terra não, mas o mundo sim- leiam o Heidegger, que ele explica-vos isso em alemão).

Um bom ano, então!

Autor não identificado, 
Ceia de Passagem de Ano, 
Funchal, Madeira, Portugal, 1949-1950
imagem obtida aqui
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sábado, 4 de outubro de 2014

As esferas de Richard Lindon

Autor não identificado,
Richard Lindon, o inventor das câmaras de ar esféricas,
Rugby, Inglaterra, 1880
imagem obtida aqui

A importância desta imagem pode ser apresentada por duas vias:
por um lado, é um raro exemplo de um homem que se expõe publicamente orgulhoso das suas esferas;
por outro lado, ela apresenta-nos o homem que, ao tornar as bolas uniformes e comparáveis, tornou possíveis todos os desportos de bola modernos.

Sem ele não existiriam aqueles fantásticos programas televisivos em que se leva duas horas a discutir se foi penalti ou não.

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Coração vagaroso

Dizem que tenho um coração negro, de pedra.
Mas tu conheces-me melhor.
Sabes que é de carne. Sangue e músculo, sobretudo.

Mas têm alguma razão.
O meu coração não é normal.
É vagaroso, bate lento, num pathos sereno.

Só quando te acercas é que funciona com ritmo de gente…




Júlio Assis Ribeiro, SP_M_CRÇPDR_01, 2014
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Discurso sobre a Coerência

Joel Meyerowitz,
Times Square, Nova Iorque, EUA, 1963
imagem obtida aqui
Por vezes, acredito piamente que o recurso ao efeito anedótico é uma opção que se esgota rapidamente. Que a prazo se torna desengraçada e desinteressante.
Outras vezes, estranhamente, o caricato diverte-me solenemente e elevo-o ao meu Olimpo.

Algumas vezes, acho que a Coerência é uma qualidade altamente sobrevalorizada.
Outras porém, penso exactamente o contrário...

Joel Meyerowitz,
Times Square, Nova Iorque, EUA, 1965
imagem obtida aqui

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domingo, 6 de outubro de 2013

A modelo do senhor Steinberg



Muitas vezes, um mistério quase sem detalhes é bem mais interessante que uma história bem esclarecida.

Os Tyne&Wear Archives&Museums são uma instituição pública local inglesa que tem como missão cuidar e expor o património da área metropolitana de Newcastle. No âmbito das suas responsabilidades coube-lhes receber o espólio de um comum estúdio de fotografia, "Turners Photography Ltd", outrora estabelecido nos números 7 a 15 de Pink Lane, uma artéria desta cidade britânica.

No meio do mais corrente trabalho que um estúdio com estas característica é suposto produzir, encontrou-se um misterioso e pequeno conjunto de imagens intituladas "A Modelo do sr. Steinberg". Sobre as imagens, de 1949 e de inesperado conteúdo , nada mais se sabe.

Mas tudo se pode especular, e imaginar um estranho mundo subterrâneo, alternativo, fora do padrão, na muito formal sociedade britânica do imediato segundo pós-guerra, não é certamente das coisas mais descabidas que se podem fazer. E é definitivamente uma mais divertidas...

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

A senhora Silva

Não sei quem foi a senhora  R. de Lima Silva.
Mas até não me importava de saber...

Harris & Ewing, R de Lima Silva,E.U.A., sem data
imagem obtida aqui


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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Paraíso

Há diferentes ideias de paraíso.
Para uns, é um sítio onde brota leite e mel, para outros é uma ilha tropical com areias brancas e água tépida. Para outros ainda, é uma ilha mediterrânica com discotecas a despejar techno em alto volume e outros extras.
Eu próprio tenho várias asserções do paraíso. Mas ultimamente a que predomina será eventualmente uma coisa estranha. Forçado profissionalmente a gozar as férias em Agosto quando, na parte setentrional do mundo, quase todos decidem fazê-lo, vejo-me perante engarrafamentos de trânsito, supermercados a transbordar e magotes de gente nas ruas.
A salvação passa pela cortesia dum familiar e pelo seu convite para uma estadia no que para muitos será um degredo: uma casa duma aldeia da serra algarvia, longe do mar, longe da Internet, longe de tudo. Aí, na torreira do Agosto do Algarve serrano, é possível passar uns dias gastos apenas na tão portuguesa obsessão de saber o que se vai cozinhar na próxima refeição, na fuga ao sol e nos banhos retemperadores numa pequena piscina improvisada.
E ao fim da tarde, quando temperatura começa a descer dos quarenta e a entrar nos trinta Celsius, posso descer a encosta e encaminhar-me para o leito seco da ribeira. Posso passar pelos vários pegos, fundões naturais onde permanece alguma água. E aí, na luz fugidia do fim do dia,  posso brincar aos fotógrafos de natureza, perseguindo com a minha limitada 70-300 as rãs que sobrevivem ao estio extremo, insistindo em enfrentar o sol como se fossem banhistas numa praia.

Júlio Assis Ribeiro, Rã
Monte da Ribeira, 2013

Júlio Assis Ribeiro, Rã
Monte da Ribeira, 2013


Júlio Assis Ribeiro, Rã
Monte da Ribeira, 2013


Júlio Assis Ribeiro, Rã
Monte da Ribeira, 2013


Júlio Assis Ribeiro, Rã
Monte da Ribeira, 2011


Júlio Assis Ribeiro, Rã
Monte da Ribeira, 2011


Júlio Assis Ribeiro, Rã
Monte da Ribeira, 2011

Sim, eu admito. É estranho que o paraíso dum homem adulto seja também o paraíso das rãs. Mas que posso eu fazer? Ninguém é verdadeiramente senhor dos seus gostos.

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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quando Bernardino era Bernard

Henri Manuel, Bernardino Machado,França, sem data
imagem obtida aqui

Bernardino Machado foi presidente da República Portuguesa por duas vezes, e a sua figura única é quase um ícone da conturbada primeira república, imediatamente reconhecível.
De forma perfeitamente acidental deparei-me com esta imagem na colecção digitalizada do Musée français de la Photographie, disponível online. Pelos dados veiculados pela instituição, sabemos ser uma fotografia do parisiense Henry Manuel, um fotógrafo que manteve uma longa relação profissional com o governo francês. Não é indicada data, mas terá sido feita muito provavelmente em 1917, aquando da deslocação de Bernardino ao país para visitar as tropas do Corpo Expedicionário Português, envolvidas então nos combates das trincheiras da primeira guerra mundial.

Outra surpresa, e desta vez divertida na sua natureza, é observar o nome com que o presidente português é registado. Se o adágio diz "Em Roma, sê romano", adaptando um pouco ficamos com um "Em França, levas com um nome francês". Assim, e para a posteridade, aqui temos o momento em que Bernardino foi Bernard, président du Portugal.


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terça-feira, 6 de agosto de 2013

E para continuar mal...(2)

Entrada preguiçosa e egocêntrica, típica dum Agosto quente.
Quando comecei esta aventura do blog, fi-lo com uma imagem que demonstrava o meu gosto pela estética dos lugares-comuns, no caso a das imagens tipo postal ilustrado com pôr-do-sol.
E esta entrada, mais de três anos depois, serve apenas para reafirmá-lo.

Júlio Assis Ribeiro
Cerro de S. Miguel visto a partir do extremo ocidental
da Ilha de Tavira, ao anoitecer.
Perto de Arroteia de baixo, Algarve, Portugal,
Julho de 2013



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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Porquê as flores?...

Os homens (pelo menos, os heterossexuais) mantêm uma estranha e forçada relação com as flores.

Oferecemo-las porque somos empurrados pelas convenções, pelas comédias românticas americanas e pela necessidade de prevenir o desapontamento das nossas amadas.
Não é que os homens não gostem de flores. Simplesmente gostam tanto delas quanto do resto da planta, do caule e das folhas. Alguns de nós gostam tanto das flores quanto das raízes. As flores são apenas a parte da planta que se esforça. A parte que grita constantemente: Olha para mim, vá lá... Olha para mim!...
E todos sabemos que nem sempre quem se esforça por ser visto é quem é mais interessante...
...
...
...Onde é que eu ia?... Ah, as flores! Oferecemo-las porque alguém convencionou que eram o símbolo do amor romântico, do amor desinteressado. Ora, pelas mulheres eu não posso falar, mas penso poder dizer qualquer coisa pelos homens. Pois então aqui vai: Quando os homens se sentem obrigados a oferecer flores, fiquem sabendo, é porque estão interessados.
Nós, os homens, somos seres muito limitados neste aspecto. Não há grandes pacotes alternativos, os homens amam quem sexualmente os atrai. A única variante possível é os homens sentirem-se sexualmente interessados por mulheres que sabem não amar. E isso, bem se vê, é terreno pantanoso.
Sabemos que as mulheres são criaturas muito mais complexas que nós, que isto do amor é uma coisa complicada. E trabalhosa. E que as mulheres esperam certas coisas de nós. E oferecemos flores.
Mas, repito, desenganem-se! Quando oferecemos flores não é que sejamos uns românticos incuráveis e castos. Quando oferecemos essas provas de amor desinteressado, estamos a dizer: Eh pá, estou interessado! Mais que interessado!
E depois, porquê as flores ?...
Com tanta coisa para oferecer como símbolo de amor não sexual, foi-se logo convencionar que a coisa ideal para oferecer é os órgãos sexuais das plantas. Que é o que as flores são. Quem decidiu, vê-se mesmo que sabia o que estava a fazer!... Levando a coisa ao absurdo, se as plantas fossem gente e quisessem oferecer entre si símbolos equivalentes, dariam umas às outras ramos de pénis e vulvas. 
Sim, eu sei, a imagem é parva e desagradável. 

Os homens são seres com limitações em certas coisas. Eu então serei particularmente limitado. Há alturas em que olho para as flores e juro que só consigo ver o que elas são…

Júlio Assis Ribeiro,
SP_V_CHRTR_O1 - nicotiana glauca,
2010


Júlio Assis Ribeiro,
SP_V_FLRNDTRMND_O3 - Flor não determinada,
2010
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segunda-feira, 19 de março de 2012

O mundo é uma bola

O cientista e professor Rómulo de Carvalho, vestindo a pele de poeta e o nome de António Gedeão, escreveu um poema nos tempos da ditadura em Portugal em que afirmava que a Terra, por acção do Sonho dos homens, pulava e avançava como uma bola nas mão de uma criança. Um cantor "baladeiro", Manuel Freire, no decénio de estertor do Estado Novo, musicou-o e "Pedra filosofal", era esse o nome da música e do poema, tornou-se uma das populares canções da contracorrente política, metáfora perfeita de um estado das coisas, em que se  pressentia que por mais contidas que fossem, estas acabariam por rebentar.
Neal Slavin, um jovem americano, sensivelmente por este mesmo período ganhou uma bolsa de estudo e chegou a Portugal para desenvolver trabalho de campo em arqueologia. Porém, em vez de se concentrar na busca proveitosa de cacos do período romano, acabou por gastar muito do seu tempo aproximando-se e fotografando os portugueses vivos do final do Estado Novo. Detectava neles uma estranha qualidade comum, uma tristeza colectiva, e para a interpretar socorreu-se da mitologia auto-explicativa dos portugueses- ligava essa natureza melancólica à Saudade, sentimento indefinido de perda e nostalgia.
No entanto, se adoptou esta caracterização que não se afastava muito da imagem turística que Portugal vendia então, as suas fotografias não se ficavam pela epiderme e revelavam um olhar que registava uma complexidade que ia muito além das imagens "para inglês ver". Fotografou, é certo, assuntos que eram comuns a uma imagem padrão do Portugal dessa época.Também ele fotografou velhas vestidas de negro, paredes caiadas de branco e os pobres do sul europeu . Mas as suas velhas não eram as dos postais e os seus pobres do sul não eram os pobres pitorescos e alegres da imagética Salazarista. Há nas suas fotografias um interesse e uma proximidade que o afasta desse ponto de vista abstractizante e torna as figuras que retrata mais concretas. Com a intuição dos estranhos, evitou certos erros de perspectiva. O "Portugal" que faz publicar em livro da Lustrum Press em 1971, é simultaneamente complexo e objectivo. Regista o interior, o rústico e o lastro do passado, mas não foge do urbano e da modernidade possível. Não sabendo diagnosticar plenamente a doença que via, captou com atenção cirúrgica os seus diferentes sintomas.


Neal Slavin,  Portugal, 1968
imagem obtida aqui

Agrada-me bastante a imagem acima. Há nela um duplo fechamento. Duas figuras isolam-se dum exterior vibrante e cheio de detalhes que não vemos mas que, qual caverna de Platão,  podemos intuir pelo seu reflexo. Os dois homens resguardam-se desse exterior em primeira instância através de um vidro. Mas essa barreira é secundária. O isolamento principal é fornecido pela sua concentração no jornal desportivo, que os separa não só da rua, como um do outro.
É corrente afirmar-se que na ditadura do Estado novo, mercê da Censura e do constrangimento político, os assuntos públicos de interesse estavam reduzidos aos três éfes: Fátima, Fado e Futebol. O Futebol garantia a única possibilidade de discórdia pública num país em que o consenso era forçoso, em que qualquer discussão, qualquer dissensão, era afastada do conhecimento geral.
Mas o futebol fornecia igualmente, a espaços e entre desaires,  a possibilidade quase única de aceder a um particular aspecto da mitologia identitária portuguesa: a ideia de ser um país pequeno e pobre que enfrenta gigantes e que, apesar da adversidade, os vence.
Distorcendo a ideia de Rómulo de Carvalho, encerrados num estranho casulo mental, para muitos portugueses os sonhos giravam à volta do futebol e, então como agora, para eles o mundo era "A BOLA". Ou o "Record". Ou "O JOGO".

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segunda-feira, 5 de março de 2012

A estranha dieta da avestruz

Uma das mais antigas memórias que tenho, relativamente a imagens de cinema de animação, e que não sei precisar muito bem no tempo, é a de uma avestruz que engolia tudo o que encontrava (nomeadamente, muita coisa de ferro) e que a certa altura, depois de muito fugir, era capturada por um íman gigante.
Por ser desenho animado, nunca pensei muito na verosimilhança da coisa. Porém, há dias apercebi-me que às vezes a realidade é tão parva quanto um cartoon.
As aves têm o hábito, e a necessidade, de engolir pedras para as ajudar na digestão. Muitas aves comem quase tudo o que mexe e não mexe, o que conseguem enfiar pelo bico e o que se lhes seja de algum proveito alimentar (quem lidou com galinhas em miúdo sabe que, se for para comer, conseguem fazer espantosas habilidades, incluindo caçar roedores).
Agora a avestruz... a avestruz é mesmo um caso portentoso. No que diz respeito a engolir, envergonha o mais talentoso dos faquires e, ao contrário destes, vigora o princípio do "Engoliu, está engolido". O que vai pela goela abaixo não volta a subir.

Frederick William Bond,
O conteúdo do estômago de uma avestruz,
Londres, cerca de 1930
imagem obtida aqui

Cerca de 1930, Frederick William Bond fotografou o estranho conteúdo da barriga de uma avestruz que morrera  sossegadamente no Zoo de Londres.  Este incluía, entre outras coisas, um lenço de renda, um lenço simples, uma luva com botões, uma corda, sete moedas, ferragens variadas, ganchos, agrafos, parafusos e um prego de quatro polegadas.

O conteúdo do estômago da avestruz terá sido particularmente indigesto para Bond, um pacato contabilista, tesoureiro da Zoological Society of London. Enquanto fotógrafo era um amador pouco dado a fugir das convenções, registava as novidades zoológicas de Londres segundo padrões algo conservadores, um pouco a dar para o "fofinho". Mas aqui, ao invés de uma simpática natureza-morta, a coisa aproximou-se estranhamente das assemblages dadaístas ou construtivistas, que as vanguardas artística contemporâneas desta fotografia apresentavam com escândalo.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Concentrada e amplificada

Divertem-me os estereótipos e os lugares-comuns. Gosto da maneira estilizada como nos arrumam o mundo. E gosto de ver como, por vezes, estes são oferecidos ao olhar alheio e nos são depois devolvidos de forma amplificada.
Toni Frissell, fotógrafa americana que passou por Portugal em trabalho, em Maio de 1946, trabalhou sob o ponto de vista do turista, passou pelos bairros históricos de Lisboa, pelos cais do Tejo e pelas casas de fado. Por essa observação fez imprimir a sua marca de água. Algo que, à falta de melhor termo, eu descreveria por intensidade.
A imagem que produz duma fadista em actuação é simplesmente fabulosa.  Apresenta-nos um Portugal do Estado Novo, mais real que o real. Com tristeza, a pose torcida e chorada da cantora, a seriedade nos acompanhantes e um pintas no fundo a compor o quadro. E tudo isto com um jarro de vinho e barriga cheia denunciada pelo prato vazio.

Toni Frissell, Fadista numa casa de fados
Lisboa, Maio de 1946
imagem obtida aqui

A fotografia de Frissell apresenta-nos de forma perigosamente concentrada o modo como um certo Portugal de então gostava de se ver ( e de se mostrar).

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domingo, 29 de janeiro de 2012

As medalhas de Morse


Mathew Brady, Samuel Morse, 1866
imagem obtida aqui




Observo o retrato de Samuel Morse, septuagenário, e recorre-me a ideia de estar perante um general americano da guerra civil. Apesar de objectivamente falsa e até um pouco tortuosa, a associação não é totalmente despicienda.
É falsa, desde logo, porque Morse não foi um militar. E dos retratos de generais desse conflito mais emblemáticos, apenas o do derrotado Robert E. Lee se aproxima da sua grisalha figura. Outro ponto contra ainda, é verificação de que a exibição ostensiva de medalhas não faz parte da iconografia e da mentalidade castrense dos americanos dessa época. Dir-se-ia que prevaleciam ainda os valores puritanos e austeros dos pioneiros.
Mas imagem é contemporânea da contenda, que terminara um ano antes, e a postura é similar à de muitos retratos das figuras militares que a travaram. Quem fotografa Samuel Morse é Mathew Brady, um seu antigo aluno de pintura e que com ele aprendera a dominar o difícil processo da daguerreotípia antes de transitar para método do colódio húmido. E Brady é tão-somente o grande fotógrafo da guerra civil americana, o homem que, pessoalmente ou através de colaboradores, fez do registo do conflito uma missão, e um empreendimento de tal forma intenso que quase o leva à ruína financeira.
Esta aproximação icónica de uma imagem de Morse à galeria de generais, na esteira da vitória da União, revela-se tortuosa pela natureza da figura do inventor. O telégrafo que inventara revelara-se instrumental e, a par do comboio, outra novidade dessa guerra, ajudara muito o Norte Industrial a responder rapidamente a um Sul muito mais limitado em recursos técnicos. Mas Morse, que geograficamente é um homem da União, um nova-iorquino, é igualmente uma personagem complexa. Na luta moral e ideológica que antecedera a guerra, as posições de Morse políticas estão muito mais alinhadas com o sul. Defendera a escravatura como uma forma natural de organização de poder, de autoridade e de propriedade.
O verdadeiro nexo desta associação reside, por um lado, na já referida coincidência temporal e imagética (e no autor da fotografia), e por outro, no facto da imagem encerrar um discurso sobre a guerra pessoal de Morse e a sua vitória. Morse apresenta-se como um vencedor da disputa de longos anos pelo reconhecimento da sua autoria e propriedade intelectual sobre o telégrafo. A instalação do telégrafo e a sua difusão mundial fora um feito que resultara de duras disputas de financiamento, de viagens de demonstração e de pressões diplomáticas que atingiram um almejado sucesso quando, em 1858, um conjunto de potências europeias associadas com o Império otomano lhe atribuem um prémio de 400.000 francos franceses em reconhecimento do seu invento e do uso deste nas suas redes nacionais. Mas há algo de ambíguo na expressão, a barba cobre os lábios que parecem indicar um sorriso subtil, ao passo que os sobrolhos permanecem carregados. O Samuel Morse que se faz fotografar expondo as medalhas de reconhecimento de países europeus (da Espanha à Rússia, da Dinamarca à Turquia, o arco à quase completo, apenas a Grã-Bretanha e o seu império se põem de fora) é o homem que cinco anos depois falecerá convicto que o seu próprio país não lhe fizera a devida justiça. Conseguira impor-se nos tribunais como o único e verdadeiro inventor do telégrafo electromagnético, mas o Supremo Tribunal de Justiça negara-lhe quaisquer direitos sobre futuras aplicações baseadas no código ficaria para sempre associado ao seu nome. E apesar do reconhecimento judicial, nunca em vida o Governo federal dos Estados Unidos reconheceu o politicamente controverso Samuel Finley Breese Morse, que não só defendera a Escravatura, como acreditava lutar contra uma conspiração dos países católicos europeus que estariam a encher a América de emigrantes para depois a controlar.


Num último reparo, observo que a segunda medalha da esquerda, no cimo, corresponde à Ordem honorífica portuguesa de Torre e Espada.

Mathew Brady, Samuel Morse, 1866, pormenor
imagem obtida aqui


Desconhecendo a história que envolve a atribuição deste título a Morse, mas sabendo que Portugal não fez parte do rol de países que retribuiu monetariamente o inventor em 1858, arrisco-me a dizer que estamos perante um caso vetusto duma irritante idiossincrasia portuguesa. Fala-se amiúde de um traço psicológico nacional que se centra numa espécie de ausência de frontalidade, no evitar publicamente defender uma posição e evidenciar-se, naquilo que o filósofo José Gil definiu como a não-inscrição, e que a maioria das pessoas designa por manha. Mas atrevo-me a apontar outra característica espantosa, diversa da primeira, mas que igualmente se insere na linha do comportamento manhoso. Refiro-me a um talento das nossas “elites”, que conseguem pôr-se em bicos de pés e fazer-se aparecer na fotografia. Sem contribuir, sem esperar verdadeiramente pagar qualquer futuro envolvimento, conseguem colocar-se junto dos verdadeiros actores e associar-se a momentos que esperam de glória. Como os fura-casamentos, beijam a noiva, dançam com as convidadas, comem o bolo e nunca, nunca passa pelos seus planos oferecer um presente. Tudo isto sem qualquer sentido de ridículo ou de vergonha, o que os torna dignos do Olimpo. Caso não se lembrem de nada, relembro a história de um primeiro-ministro luso  que, há alguns anos atrás, se fez fotografar numa cimeira a quatro que iria iniciar uma guerra, sabendo de antemão que não poderia enviar tropas. Ou a recente e fabulosa interpretação sorridente de gestores, secretários de estado e ministros que cercaram (num verdadeiro festival de croquetes, pasteis e de brindes com vinho branco) um grupo de empresários asiáticos visivelmente atrapalhados, pouco acostumados a ser tratados como velhos "compinchas", como amigos de infância, por gente que fora forçada a vender-lhes parte significativa de uma empresa pública.
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domingo, 18 de dezembro de 2011

Com as vacas

Depois de dois textos sobre dirigíveis ( recentes, que há um outro mais antigo), sobre a seriedade do seu papel bélico e do optimismo exagerado quanto ao seu futuro, apresento agora uma imagem de contraponto, mais divertida.

Autor não identificado, R101 com vacas,
cerca de 1929, Grã-Bretanha
imagem obtida aqui

A fotografia é britânica e apresenta o R101, uma grande aposta do Reino Unido, em cenário bucólico pairando e sombreando vacas que pastam. Desconheço as intenções do fotógrafo (aliás, desconheço o fotógrafo) mas aparece aqui uma das formas mais comuns de criar humor, colocar em conjunto duas coisas que se contradigam e fazê-lo de forma a que pareça natural.
A imagética mais corrente da época faz associar os dirigíveis a coisas que os liguem ao progresso. Apresenta-os em gigantescos hangares, eles próprios exemplos notáveis dos progressos da engenharia, regista-os a flutuar sobre as notáveis e novas cidades de arranha-céus. Os ângulos são oblíquos, sugerem movimento. Nada disso aqui acontece. A coisa paira sobre vacas que, como é natural nestes bichos, pastam indiferentes e pachorrentas. A torre de ancoragem não é um estiloso espigão Art Deco, como o que pontua o edifício Empire State de Nova iorque, assemelha-se antes a um rústico depósito de água.  A imagem capta o engenho num ponto de vista perpendicular ao seu comprimento, o que acentua o carácter estático da cena. Este dirigível parece dizer que o seu destino não é ligar os pontos mais distantes do império britânico, que o seu futuro não é levar a lado algum. É antes ficar ali. A pairar, com as vacas.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Uma mascarada

A primeira guerra mundial confirmou algo que a guerra cívil americana já evidenciara: a natureza da guerra alterara-se significativamente com o progresso industrial.
Na guerra da secessão dos Estados Unidos, com a maior cadência de fogo das armas modernas e a insistência em práticas militares arcaicas, como o avanço em linha para as posições inimigas, as taxas de sobrevivência dos combatentes desceram para níveis espantosamente baixos. Na primeira grande guerra, aproximadamente meio século depois, as mentalidades das chefias militares não se modificara de forma assinalável, viviam ainda em quadros mentais muito próximos das guerras napoleónicas. O mundo mudara muito, porém. As armas eram muito mais potentes, mais precisas, e muitas inovações na arte de matar haviam aparecido. Este desenquadramento entre tácticas e armas haveria de ser profundamente desastroso. A matança tornara-se industrial, o morticínio cifrar-se-ia pelos milhões.
Este desenquadramento vivia-se igualmente ao nível da mentalidade das elites. Muita da aristocracia e da burguesia partia para a guerra imbuída de um espírito de galanteria e de panache (em certa medida, sofria de uma espécie de complexo de D. Quixote). Nalguns círculos, como era o caso dos futuristas, louvava-se inclusivamente o poder regenerador, purificador, dessa nova guerra que haveria de ser mecanizada e regular, enfim, moderna. O choque com a realidade acabaria por ser brutal e encheria de sobreviventes com perturbações mentais os hospitais militares.
Os governos envolvidos e os seus exércitos experimentavam novas armas, testavam as sua características e documentavam-nas. A imagem abaixo, proveniente dos National Archives da Grã-Bretanha apresenta-nos um equipamento respiratório, desenvolvido pela secção de combate nas trincheiras do Ministério das Munições, para uso em caso de ataque com gás. A fotografia foi feita obviamente longe da frente de guerra, e parece permanecer nela, pela pouca praticabilidade do aparato e pela postura do modelo, um pouco dessa atitude blasé em relação aos combates. A coisa parece uma pausa num musical cómico de Gilbert e Sullivan. Aos cavalheiros britânicos da era eduardiana era suposto combaterem valentemente, mas não só. Tinham que fazê-lo com compostura e pausa para o chá.


Autor não identificado,
Equipamento respiratório para ataque de gás,
1914-1918
imagem obtida aqui


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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Cara lavada

Quem chegar a este blog pela primeira vez não notará nada e, se calhar, ainda bem. Os outros, os que revisitam, regularmente ou quando calha, notarão que esta coisa tem outro aspecto, apresenta-se agora de cara lavada.
Anteriormente a aparência era propositamente franciscana, fruto de decisões de poucos minutos aquando da criação da conta no blogspot. Uma opção motivada pela preguiça, claro, mas também por um certo fastio de sites artilhados com tralha ( por cima, por baixo, aos lados, com coisas que se mexem e piscam, quais árvores de Natal) e que distraem do conteúdo, quando efectivamente o há.


O anterior aspecto da coisa

Quando o número de visitantes chegou à fasquia de alguns (valentes)milhares, comecei a achar que, até por uma questão de respeito por aqueles que resistem e lêem as coisas que aqui insisto em publicar, se impunha uma reformulação da coisas, uma melhoria da fachada.
Mantem-se, espero eu, alguma contenção, continua  a não haver nada que pisque e provoque ataques epilépticos (excepto, eventualmente, a fraca qualidade de alguns textos).
Recorrendo a uma imagem da entomologia, que é sempre uma área interessante para se ir buscar conversa, espero que o anterior visual tenha sido a necessária fase de pupa ( ou de crisálida, se preferirem) deste projecto, da qual saiu uma criatura mais vistosa e que voa. Não posso garantir se será uma bonita borboleta ou uma irritante traça, mas farei o meu melhor.


Júlio Assis Ribeiro, 
SP_A_PPNDTRMND_01 - Pupa de insecto não determinado,
2011

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segunda-feira, 21 de março de 2011

A Lua maior

No sábado passado, 19 de Março, foi dada nas notícias particular atenção a um fenómeno astronómico. E, ao contrário do habitual, aqui a palavra é literal e não se refere a um hiperbolização de números. Nesse dia o perigeu lunar coincidiu com a fase de lua cheia, acontecimento relativamente raro - deu-se pela última vez há dezoito anos.
A lua, diziam-nos as notícias, seria vísivel como uma super lua, enorme e brilhante.
Às sete horas e pouco da tarde desse mesmo dia, pude observar um fenómeno igualmente raro e perturbador.
Na estrada do Arraial, em Tavira, uma massa indiferenciada de gente, composta de portugueses, espanhois e outros europeus (menos ruidosos), encostava os carros, sacava dos telemóveis e de pequenas câmaras compactas e apontava à lua. Ao evento que o reflexo celestial proporcionava contrapunha-se o espectáculo dos flashes sincopados que disparavam ao longo da estrada. Visto à distancia poderia parecer um reposição dos Encontros Imediatos do Terceiro Grau.
Mas não apareceram charutos voadores e não houve a música do John Williams que enchia o filme de Spielberg. A banda sonora dessa tarde era feita maioritariamente por sons do tipo " Que pasa?!..", " 'Tá quieto, joão, que cais à salina!", "O flash disparou?", "Não percebo, não 'tá cá nada..." e " Já podemos ir embora?...".


Júlio Assis Ribeiro, Lua na salina, 19 de Março de 2011

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sexta-feira, 4 de março de 2011

Oferendas de gato

Com a excepção dos cerca de dez anos que passei em Lisboa, vivi sempre na proximidade de gatos. Na minha família nunca houve o hábito de interferir muito na natureza dos bichos, estes eram deixados intactos, sem castrações, e o seu local de pernoita era no exterior. As suas visitas ao interior da casa eram toleradas por curtos períodos ou em raros casos de doença, no pico do inverno. Neste status quo, a natureza da relação entre nós e os gatos era distante da pegadice doentia que algumas pessoas mantêm com os seus animais de estimação. Mas não deixava de ser clara, os nossos gatos eram os nossos gatos (os dos vizinhos apareciam por vezes , mas sabiam estar fora do seu lugar), tinham direito a alimentação, a abrigo, a tratamento veterinário e a festas quando pediam. Independentemente das suas personalidades muito variadas, os gatos mantinham connosco um relacionamento próximo mas independente, a anos-luz da constante bajulação e adoração com que os cães brindam os donos. Procuravam-nos quando estavam interessados, fosse em comida, fosse em carícias no pelo, e ignoravam-nos ostensivamente quando para aí estavam virados. E, sobretudo os machos, ausentavam-se por espaços de tempo que chegavam à ordem dos meses.
Ocasionalmente acontecia algo interessante. Gratuitamente, sem qualquer motivo aparente, os gatos traziam-nos pequenas ofertas. Não sei se para demonstrar a sua estima, se para mostrarem que não eram ingratos, ou se com isso pretendiam pagar o alojamento, marcando a sua independência, o facto é que traziam para casa o que, para os gatos, deve ser o tipo de prenda ideal. Regra geral, as oferendas mais comuns eram pássaros mortos e, para desespero e nojo da minha mãe, ratos e osgas igualmente defuntas.
Um gato de riscas amarelas, a que chamámos Manolo, pela bravata de toureiro espanhol com que enfrentava os cães, mostrou-se porém mais perspicaz. Sabendo que aquilo que era o presente perfeito para os gatos, punha os humanos em estados de alma estranhos, aprendeu a variar a gama dos produtos que dava aos donos. Do peixe seco inicial , que tradicionalmente é estendido nas varandas algarvias e que surripiava algures, passou para variedades mais espantosas, decerto com muito desagrado dos meus vizinhos de então. Ofereceu-nos, e vou dizer só o que me lembro, peixe frito, bacalhau demolhado, febras e salsichas grelhadas e, uma vez, meio salpicão.
O meu gato actual está longe do brilhantismo do Manolo. Animal estranho, mesmo pelos padrões felinos, é um cruzado de siamês que desaparece, por vezes, por meio ano e retorna magro, ferido e doente. Recupera, engorda e não se furta a festas no pelo, de que gosta bastante. Mas nunca compreendeu o conceito da caixa de areia, e a sua estadia em interior, mesmo doente, é higienicamente inaceitável. Não sei se por ressentimento, se por puro desconhecimento de protocolo, o facto é que até recentemente nunca o animal , ao contrário de todos os seus antecessores, trouxe algo para casa. E quando o fez, dias atrás, não me ofereceu um enchido, nem sequer um pássaro. Carregou na boca uma grande pata de insecto, que depositou junto dos meus pés.
Continuo sem perceber se foi amabilidade, se foi ironia.


Júlio Assis Ribeiro, SP_A_PTNSCT_01, 2011

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