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sexta-feira, 31 de maio de 2013

As operárias de Robert Yarnall Richie

Robert Yarnall Richie, Mulher a realizar cablagens,
Chrysler Corporation, EUA, 1944
imagem obtida aqui


Os Estados Unidos ao entrarem em guerra em 1941, como outros países envolvidos no conflito mundial de então, tiveram de estabelecer uma política de Informação e imagem.
Em junho do ano seguinte foi criado o Office of War Information (OWI), uma agência federal que tinha por objectivo produzir e coordenar a informação governamental relativa às frentes de combate e ao esforço de guerra no próprio país. Esta não foi exactamente uma instituição que nasceu do nada, na medida em herdou a muito eficaz e oleada máquina de imagem do governo Roosevelt, nomeadamente a secção de informação da Farm Security Administration (FSA), que fora muito importante na obtenção de uma opinião pública favorável aos esforços de combate à Grande Depressão.

Uma das áreas em que o OWI teve de intervir de forma imediata foi na de incentivar a participação feminina na produção industrial. Ao contrário do que por vezes aparece descrito, a participação de mulheres em trabalhos fabris não foi uma novidade trazida pelas duas guerras mundiais. Concretamente no caso americano, o operariado feminino existia desde o advento desse tipo de produção e era constituído maioritariamente por membros de comunidades étnicas minoritárias e por emigrantes. O que as guerras mundiais trouxeram de novo foi um foco positivo sobre uma situação, que, por norma, desagradava à sociedade americana. As imagens de mulheres operárias de Lewis Hine, por exemplo, foram feitas sob um ponto de vista de denúncia da exploração laboral e da pobreza.

Lewis Hine, Caixas de cartão, 
E.U.A., 1906-1920
imagem obtida aqui

Tal ponto de vista não podia ser obviamente partilhado pela abordagem do OWI, mesmo que a acção da  FSA ( que, como vimos, fora absorvida na nova organização) o tenha seguido por motivos políticos. Como ficou muito claro em directrizes internas da agência, num país em guerra não se podia propagar imagens de gente abatida por vicissitudes económicas. De vítimas, portanto.

Dorothea Lange (fotógrafa da FSA), Mãe migrante,
E.U.A.,1936
imagem obtida aqui


O objectivo do OWI era aumentar o moral das populações e das tropas e, por isso, a política de imagem teria de ser radicalmente diferente. Os fotógrafos da agência transformaram o trabalho industrial feminino em algo patriótico, positivo (ver As operárias da propaganda). As operárias americanas eram as heroínas da frente doméstica. As suas imagens eram muito mais próximas do glamour da fotografia de moda, do que da estética documentarista da FSA  ou da motivação sociológica de Hine.

Embora em guerra, os Estados Unidos não possuíam um aparelho totalitário de controle de informação e de censura à semelhança dos seus inimigos (Alemanha, Japão e Itália) e de alguns dos seus aliados (União Soviética, por exemplo). Assim, a acção do OWI na comunicação social era, sobretudo, de coordenação  e de definição de linha editorial. A aceitação deste papel tutelar não era polémica, e funcionava muito mais numa base voluntária dos grupos de media, do que em resultado do enquadramento legal (que existia no quadro do estado de guerra).

A estética do OWI foi mimetizada por outros agentes que dele não dependiam directamente, mas que partilhavam os seus objectivos.
Robert Yarnall Richie, um desses casos, foi um fotógrafo comercial  independente que tinha uma boa carteira de clientes nas grandes corporações americanas.
A abordagem proposta pelo OWI caiu particularmente bem neste estrato da economia americana.  A valorização do operariado feminino era um bom negócio. 
Estas empresas, as principais beneficiárias das encomendas militares, resolviam com ela vários problemas de uma assentada. Por um lado a falta de mão-de-obra, resultante do recrutamento militar dos homens em idade combatente, era superada. Por outro, o novo operariado era mais barato, os salários pagos a mulheres eram muito inferiores ao dos homens nas mesmas funções. E por fim, tudo isto era feito sem o ónus de uma má imagem pública. Pelo contrário, estas empresas, à semelhança das operárias, eram heroínas na batalha da produção.
Recusado pelo serviço militar, por motivos de idade, Robert Yarnall Richie participou nesta "guerra" de significados, servindo os seus clientes particulares e partilhando a iconografia de homens do OWI (instituição com a qual chegou aliás a colaborar por algum tempo), como Alfred Palmer e de Howard Hollem. Apresentou uma América fabril que aparece higiénica como um laboratório, dotada de diligentes operárias, fortes mas femininas, maquilhadas e penteadas, de roupa impecável, sedutoras e invejáveis. Fê-lo com qualidade a preto-e-branco, mas imagens a cor revelaram-se mais adequadas a este propósito de transformar as operárias numa espécie de pin-ups castas.

Robert Yarnall Richie, 
Operária da Boeing a trabalhar, 
E.U.A., Abril de 1944
imagem obtida aqui


Robert Yarnall Richie, 
Operária da Boing a trabalhar numa secção de asa, 
E.U.A., Abril de 1944
imagem obtida aqui


Robert Yarnall Richie, da série "Miss Mission",
E.U.A., Agosto 1944
imagem obtida aqui


Robert Yarnall Richie, da série "Miss Mission",
E.U.A., Agosto 1944
imagem obtida aqui


Robert Yarnall Richie, da série "Miss Mission",
E.U.A., Agosto 1944
imagem obtida aqui


Robert Yarnall Richie, da série "Miss Mission",
E.U.A., Agosto 1944
imagem obtida aqui



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terça-feira, 12 de março de 2013

As mães migrantes de Dorothea Lange

Alguns fotógrafos, por uma rara conjugação de factores, têm a felicidade de fazer uma foto que se torna "a imagem" de uma determinada época, de um determinado fenómeno, de um conflito.
Essa felicidade tem um contraponto porém. Como um buraco negro, a fotografia icónica parece absorver toda a sua obra.

Dorothea Lange, fotógrafa norte-americana, fez em 1936 a imagem que se tornou um símbolo da Grande Depressão. Esta começara como um fenómeno da grande finança, um incidente do mercado de valores, em 1929, e rapidamente alastrara de forma dramática para a chamada economia real.

Rondal Partridge, Dorothea Lange, 1936
imagem obtida aqui


A perspectiva inicial dominante das autoridades dos Estados Unidos, onde se dera o crash bolsista, e da maioria dos países industrializados foi, basicamente, a de não fazer nada e esperar que passasse. Os resultados desta abordagem "naturalista" foram catastróficos: o comércio mundial caiu para metade, o desemprego aproximou-se do terço da população activa,  o sistema bancário praticamente colapsou e os preços das materias-primas cairam a pique.

Em 1933, Franklin Roosevelt tomou posse como presidente nos Estados Unidos e iniciou um ambicioso projecto de revitalização económica, o chamado "New Deal". Nasceu daí a campanha fotográfica da RA (Resettlement Administration), mais tarde renomeada FSA (farm security admnistration), que visava dar visibilidade à pobreza rural que grassava no país, e convencer as franjas da população que permaneciam opositoras ao plano de combate à pobreza.

Dorothea Lange seria contratada para esta campanha e desenvolveria ao longo de quatro anos, de 1935 a 1939, um vasto trabalho sobre as populações rurais. E em 1936, cruzou-se com Florence Owens Thompson, uma trabalhadora migrante de 32 anos, mãe de vários filhos, que se vira forçada a acampar em condições miseráveis, no norte da Califórnia, enquanto esperava a reparação do carro em que deslocava de terra em terra, em busca de trabalho. Faria com ela seis imagem, mas apenas a de plano aproximado, de rosto carregado com um bebé ao colo, e duas crianças um pouco maiores a ela encostadas, viria a obter uma atenção maior. Serviria, como praticamente nenhuma outra, o propósito da FSA de mostrar o quanto a economia debilitada estava a ter um impacto pessoal avassalador em muitos americanos.

Dorothea Lange, mãe migrante, 1936
imagem obtida aqui


O esmagador sucesso desta imagem acabaria por, de alguma maneira, ofuscar muito injustamente o restante trabalho da equipa da FSA, que não teria para a posteridade o destaque da fotografia de Lange.

As razões da particular eficiência desta imagem, da sua atracção, são múltiplas e subtis. Não se prendem apenas com olhar compassivo com os desapossados; esse olhar era a marca-de-água do projecto da FSA, imprimida por Roy Striker, o responsável. E não se prendem exclusivamente com a temática da maternidade. Para além de outros a terem trabalhado, a própria Lange a abordou outras vezes, mesmo depois da FSA, sem o mesmo apreço público avassalador.
Mesmo quando as imagens era fortes e belíssimas.
Um exemplo: em 1940,em Maricopa, Arizona, num trabalho apoiado pela WPA (Works Project Administration), outro projecto governamental norte-americano da era Roosevelt, Dorothea Lange captou uma outra mãe migrante, uma apanhadora de algodão, com o seu filho de meses.

Dorothea Lange,
Apanhadora de algodão migrante e o seu filho,
Maricopa, Arizona, EUA, 1940
imagem obtida aqui


A imagem é tocante e reveladora da mesma pobreza nas classes trabalhadoras do período, mas não há nela a secura da fotografia de 1936, não há a mesma a sensação de rumo perdido.


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