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segunda-feira, 22 de julho de 2013

A posição correcta


Lewis W. Hine, Posição sentada correcta,
Boston, Massachusetts, E.U.A.
1917
imagem obtida aqui

Encontrar torsos femininos nus na obra de Lewis Hine não significa encontrar aí exercícios de esteta ou citações da arte dos clássicos. Hine tinha uma concepção instrumental da fotografia. Esta era para ele um meio de explicitação de uma ética, de uma postura política e sociológica. A obra fotográfica de Hine é uma das primeiras que se constitui como documento de louvor ao trabalho e de combate à exploração laboral.
A sua causa inicial (e talvez a maior) foi o registo e denúncia do trabalho infantil, algo que assume quando é contratado para esse efeito pelo National Child Labor Committee, uma organização progressista norte-americana, no ano de 1908. A partir daí o seu trabalho alastra para campos adjacentes, para as condições de vida de trabalhadores, imigrantes ou de minorias étnicas, para a dignificação estética do trabalho, e até para a documentação e estudo da relação entre trabalho e a doença.

Nas primeiras décadas do século vinte, no mundo industrializado de então, a atitude em relação ao trabalhador industrial não era muito distinta da que se verifica hoje nos redutos de exploração onde a indústria mundial concentra a sua produção. O trabalhador era um elemento a usar o mais eficazmente possível, de forma a obter o máximo de proveito com o mínimo de custos.
A preocupação com as doenças profissionais, com a segurança e higiene no trabalho e com a ergonomia, que hoje são imposta por lei no chamado primeiro mundo (um mundo que se desindustrializou alegadamente por excesso de regulamentação), não existiam verdadeiramente. Iniciados na infância no trabalho pesado e fabril, muitos trabalhadores desenvolviam ainda antes da idade adulta deformações ósseas  e problemas graves a nível articular, muscular e tendinoso.

É por aí que entram os torsos femininos nus no trabalho de Hine. Não são uma decorrência estética, uma declaração de apreço pela beleza feminina. São a forma de tornar visível as deformações que anos de posturas incorrectas e tarefas repetitivas em elevada cadência produziam em jovens mulheres americanas nos inícios de novecentos. Vestidas com as pesadas roupagem do pudor pós-vitoriano, a evidência do problemas não seria possível nelas. A fotografia é aqui puro documento, algo que se quer a caminho da ilustração científica.

Lewis W. Hine,
Mildred Benjamin, 17 anos de idade,
Curvatura dorsal no lado direito, Escoliose,
Boston, Massachusetts, EUA,
1917
imagem obtida aqui
Lewis W. Hine,
Posição erecta razoavelmente correcta,
Boston, Massachusetts, EUA,
1917
imagem obtida aqui
Lewis W. Hine,
Fannie Bowman, 15 anos de idade,

Deformação postural,

Boston, Massachusetts, EUA,
1917
imagem obtida aqui


Lewis W. Hine,
posição correcta,
Boston, Massachusetts, EUA,
1917
imagem obtida aqui

Denunciar o problema, registá-lo, aconselhar soluções, esta era para Lewis Hine a posição correcta. E as suas fotografias estavam ao serviço dela.


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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Os "Bravas"

 Lewis Hine, nos seus anos ao serviço do National Child Labor Committee, concentrou-se no motivo central, as crianças que desde quatro, cinco anos, eram lançadas no mercado laboral em inícios de novecentos. Esta realidade era esmagadora entre as minorias étnícas e entre as comunidades imigrantes.
Ocasionalmente, o foco saía dos pequenos trabalhadores e ia para aspectos associados - alojamentos miseráveis, escolas decrépitas e quase vazias, outros membros das referidas comunidades.

Na sua viagem de anos por essa América omissa, cruzou-se várias vezes com um pequeno e singular grupo.
Nos registos refere-se a eles como "Bravas", "black portuguese" ou simplesmente "portuguese".

Ora esses "portuguese" tinham uma origem diferente dos outros "portuguese" que aparecem muito mais frequentemente nas suas fotografia do trabalho infantil. Esses outros provinham do território continental e das ilhas atlânticas, dos Açores sobretudo. Os "Bravas" eram também ilhéus, mas de outro arquipélago, de outro continente. Eram oriundos de Cabo Verde, muitos da ilha Brava, o que daria origem à designação que Hine usa.
Os cabo-verdianos, que acorriam às mesmas zonas atlânticas que a maioria dos imigrantes portugueses, eram igualmente empurrados pela  miséria ( maior em grau, decerto, a aridez das ilhas provocava fomes recorrentes) e concentravam-se na pesca e na agricultura, sobretudo na apanha de bagas. Foram a primeira comunidade  africana que emigrou deliberadamente para os Estados Unidos, e distinguiam-se, a fazer fé nalguns relatos de descendentes, por ser gente profundamente orgulhosa da sua origem e cultura.

Os habitantes de Cabo Verde constituíam uma singularidade no contexto colonial português, eram bastante  miscigenados, descendentes não só de povos africanos levados para as ilhas, nos tempos da escravatura, mas também de portugueses e de todo um conjunto de gentes de diferentes origens que aportava às ilhas, um importante ponto de abastecimento nas rotas marítimas. Embora não fossem exactamente considerados cidadãos (essa condição apenas lhes seria reconhecida em 1947), não estavam abrangidos pelas limitações do estatuto de indigenato e conseguiam mover-se com liberdade.  À semelhança dos libaneses que chegavam ao Brasil e ficavam conhecidos como turcos, pela soberania otomana no território, também os cabo-verdianos eram chamados de portugueses na América. 
Mas a questão rácica impunha uma separação.  Somando à discriminação naturalmente votada aos emigrantes não anglo-saxónicos, sofriam um preconceito acrescido pela sua origem africana, vivendo e trabalhando em condições piores ainda.

Lewis Hine, Barraca com sete portugueses,
Falmouth, Massachusetts, E.U.A.,Setembro de 1911
imagem obtida aqui


Lewis Hine, Barraca com sete portugueses(pormenor),
Falmouth, Massachusetts, E.U.A.,Setembro de 1911
imagem obtida aqui

Lewis Hine, Barraca com sete portugueses (pormenor),
Falmouth, Massachusetts, E.U.A.,Setembro de 1911 
imagem obtida aqui


Em Setembro de 1911, Lewis Hine realizou, na zona de Falmouth, no estado do Massachusetts, uma série de fotografias acerca das crianças que trabalhavam, juntamente com a família,  a partir dos três anos de idade, na apanha de bagas. Uma parte significativa era de origem portuguesa.  No meio destes, uma minoria das ilhas cabo-verdianas participava também na colheita. Uma das raras fotografias apenas com adultos capta a barraca minúscula, atolada de beliches rudimentares onde sete "portuguese", cabo-verdianos na verdade, viviam.

O abrigo , de cerca de 10 m2, continha 12 camas e encontrava-se imundo. Funcionava como alojamento para homens sem família, que não eram pagos senão no fim da temporada.


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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Recenseamento, Matrícula, Frequência

As relações entre Fotografia e legenda são alvo de análise há muito(Susan Sontag, por exemplo, escreveu umas valentes linhas sobre o assunto). Mas continuam a fazer-nos pensar.

Lewis Hine, no seu trabalho de denúncia do trabalho infantil, em inícios do século vinte, registava sistematicamente as circunstância que envolviam as suas fotografias. Fazia-o de uma forma magistral.
Com poucas linhas, os detalhes suficientes, traçava uma história que hoje conseguimos reconstruir e imaginar sem esforço, conjugando as suas imagens e as suas palavras.
Por vezes a coisa é romanesca, com vários personagens e enredos complexos. Outras vezes, tudo é clinicamente descritivo.

Na imagem abaixo, a legenda apenas amplifica o que pressentimos na imagem. O interior de uma escola segregada, miserável, para crianças negras, quase vazia, abre-nos a compreensão para o que não está lá. O que a legenda caracteriza com dados friamente apresentados:

"Recenseamento 27, Matrícula 12, Frequência 7. A professora espera ter 19 matrículas após o trabalho de colheita. O Tabaco mantém-os fora, há falta de braços."


Lewis Hine, Escola para negros em Anthoston,
Kentucki, E.U.A.
13 de Setembro de 1916
imagem obtida aqui


Lewis Hine,
Escola para negros em Anthoston (pormenor),
Kentucki, E.U.A.
13 de Setembro de 1916
imagem obtida aqui


Lewis Hine,
Escola para negros em Anthoston (pormenor),
Kentucki, E.U.A.
13 de Setembro de 1916
imagem obtida aqui

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quinta-feira, 26 de abril de 2012

O sorriso de Manuel Ferreira


Insisto no retrato de Manuel Ferreira.
Em 18 de junho de 1916, Lewis Hine, o fotógrafo do National Child Labor Committee, dirigiu-se ao King Philip Settlement (uma instituição de base voluntária que garantia educação a crianças e jovens de comunidades desfavorecidas) de Fall River, nos Estados Unidos, e realizou várias fotografias, algumas de grupos e outras de retrato individual.

Lewis Hine, 
Aula do curso de entalhador do King Phillip Settlement,
Fall River, Massachusetts, E.U.A.
18 de junho de 1916
imagem obtida aqui


Uma das imagens de grupo apresenta-nos os alunos do curso de entalhador que funcionava aos domingos, dia de descanso nas fábricas, onde, entre os vários miúdos imigrantes presentes, se encontra Manuel Ferreira. O rapaz de quinze anos é igualmente fotografado por Hine em retrato isolado, onde confronta a câmara em pose direita, com um sorriso contido mas confiante. A imagem furta-se aos estereótipos, não há nela a exposição da vítima que se poderia esperar de um fotógrafo empenhado na denúncia do trabalho infantil, nem o fascínio pictorialista pelo personagem tipo, nem ainda o lado “pobrete mas alegrete” tão caro a certa mentalidade e a certa Fotografia.

Lewis Hine, Manuel Ferreira,
Fall River, Massachusetts, E.U.A.
18 de junho de 1916
imagem obtida aqui


Manuel, nas suas roupas domingueiras, lida com a câmara em aparente auto-satisfação, formal mas não rígido, quase em pose de Homem de Estado.
Hine, que não era um fotógrafo de instantâneos, mas que não era decerto também um encenador tout-court, era estruturalmente um documentarista e não terá aqui desejado fazer alegorias ou metáforas. Há na imagem uma verdade, um contentamento estranho para quem trabalhava numa siderurgia seis dias por semana. Há em Manuel um sentido de vitória ao ser fotografado na escola onde se dirigia aos domingos com as suas melhores roupas.
Ser pobre e desfavorecido nos Estados Unidos do início do século vinte era, apesar de tudo, muito diferente de ter essa mesma condição em Portugal, ou em outros países do velho mundo. Socorro-me agora de uma fotografia algo posterior à de Hine.

Em 1940, Bernard Hoffman, fotógrafo da revista americana LIFE, deslocou-se a Portugal para realizar uma reportagem. O ano não é de todo irrelevante. A Europa encontrava-se em guerra, os Estados Unidos procuravam isolar-se do conflito (apesar do entendimento de Roosevelt de que a entrada americana seria apenas uma questão de tempo) e o regime português realizava o seu grande evento de propaganda e comemoração- a Exposição do Mundo Português.
O artigo sairá na edição de 29 de Julho desse ano, e fará acompanhar a reportagem fotográfica de quatro textos. Um versará sobre a vida pacata da aristocracia, outro sobre o vinho do Porto, e os dois restantes, bem mais interessantes para nós, tratarão da particular situação geopolítica do país. Os textos faziam-se acompanhar de uma colecção de lugares-comuns acerca dos portugueses (alguns bem merecidos, outros nem tanto), mas centravam-se em dois pontos: na periclitante situação de Portugal numa Europa em guerra, e na figura do ditador que controlava o país.
Apesar de bastante laudatórios em relação a Salazar, a quem eram atribuídos grandes méritos e progressos (afastara o país de uma diabólica república que quase o destruíra, construíra obra, era casto, um pai para o país, e tolerava com benevolência a oposição), há neles uma repetida e constante referência à decadência e à extrema pobreza do país. A dada altura, na página 67, uma imagem (dotada de uma legenda que refere os progressos que o ditador alegadamente conseguira na educação básica) surpreende-nos.
A imagem afasta-se do tom geral da reportagem fotográfica, saí do campo do pitoresco e do cartaz turístico . Num primeiro plano, cinco crianças de sete anos, magras, andrajosas, quase todas descalças, lêem em coro a partir de livros decrépitos para um professor que pressentimos fora de campo.
A legenda diz com desinformado benefício que a maior parte das crianças encarava os sapatos como algo que se usa para ir à missa ao Domingo (desconhecendo provavelmente que parte da população rural e dos arrabaldes urbanos, sobretudo a infantil, pura e simplesmente não tinha sapatos).
Para um observador de século vinte e um, as crianças magras de cabeça rapada e a roupa puída remetem-nos para um universo tétrico que irromperia cinco anos mais tarde quando, na derrocada da Alemanha nazi, fotojornalistas entraram em campos de concentração. A associação é decerto incorrecta e injusta mas iconograficamente as imagens são próximas.

Bernard Hoffman, Meninos lendo numa aula,
Portugal, 1940
imagem obtida aqui


Bernard Hoffman, Meninos lendo numa aula (pormenor),
Portugal, 1940
imagem obtida aqui




Manuel Ferreira sorri-nos confiante a partir duns Estados Unidos onde, perto de um século antes, o pensador francês Tocqueville notara que a pobreza estava longe de ser considerada uma condição natural do ser humano, vendo até na obsessão pelo progresso material um dos problemas da democracia americana.
A pobreza real e a exploração laboral existentes na América eram contrabalançadas por uma ideologia social centrada no princípio da igualdade e na possibilidade (muitas vezes, apenas teórica) de ascensão social e material. O Portugal que, vinte e quatro anos  depois da fotografia de Lewis Hine, Bernard Hoffman capta é ainda um país de certa forma ancorado no velho regime, socialmente dividido em categorias muito estanques, e em que aristocracia tradicional fora parcialmente substituída no mesmo domínio rigoroso da propriedade e do poder por uma burguesia muito conservadora, com idêntica aversão à mudança e à concorrência.
O Estado Novo que a Revista LIFE elogia pela sua estabilidade (a conflituosidade social e a instabilidade política da república haviam tornado, aos olhos internacionais, o país num caso digno de estudo) é um essencialmente um sistema politicamente tradicionalista, autoritário, imobilista, parcialmente beato.
A pobreza que era considerada natural e louvada na retórica pública como sinónimo de felicidade e honra, era estruturalmente necessária a uma economia que evitava a mecanização e assentava numa mão-de-obra miserável. Toda a reivindicação sindical era evitada e reprimida, e a representação laboral era um simulacro corporizado em sindicatos oficiais controlados pelo Estado. A imigração era contrariada, ao contrário dos tempos da primeira República, precisamente pelo risco de exaurir o fornecimento de trabalho barato, vital ao modelo económico.
Em 1916, Manuel Ferreira tinha provavelmente mais razões para sorrir na sua condição de trabalhador fabril adolescente em Fall River, do que os miúdos descalços que escapavam ao analfabetismo geral de 1940, para aprender alguma aritmética e muita religião (palavras da LIFE), num país que, em paz, garantia à maioria dos seus cidadãos uma existência meramente ao nível da subsistência. Uma existência que seria apenas comparável à de uma Europa destruída pela guerra, no curto período entre 1945 e a implementação do plano Marshall.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Contentamento

Lewis Hine, Manuel Ferreira,
Fall River, Massachusetts, E.U.A,
18 de junho de 1916
imagem obtida aqui

Lewis Hine, Manuel Ferreira (pormenor),
Fall River, Massachusetts, E.U.A,
18 de junho de 1916
imagem obtida aqui


Vem-nos do início do verão de 1916 o sorriso de Manuel Ferreira. Vem-nos de Fall River, no Massachussets, estado americano da Costa leste onde uma parte significativa da diáspora portuguesa se estabeleceu no início do século vinte. E vem-nos intermediado por Lewis Hine, o homem que ao serviço do National Child Labor Committee, fotografou e denunciou o flagelo do trabalho infantil numa das épocas mais prósperas da economia norte-americana.
Mas a imagem não é propriamente o que descreveríamos como a imagem de uma vítima. Falta à imagem o abatimento da postura, a expressão carregada, os sinais evidentes de pobreza ou de abuso, traços que encontramos em muito fotojornalismo e imagens incontornáveis da história da Fotografia (desde o pioneiro trabalho de Jacob Riis até ao contemporâneo Sebastião Salgado, passando pelo exemplo da campanha fotográfica da Farm Security Administration, na altura da Grande depressão).
Manuel Ferreira mira-nos desde 1916 carregando um sorriso contido, mas evidenciando contentamento. Hine, que sistematicamente anotava os aspectos relevantes que conseguia apurar acerca dos seus retratados, deixou-nos na cópia guardada pela Biblioteca do Congresso dos Estados, além dos forçosos nome e ocupação (trabalhador da siderurgia de Fall River), duas informações. Por ele sabemos que Manuel, aos domingos, se dirigia ao King Philip Settlement ( uma instituição de base voluntária que garantia educação formal, profissional e artística a crianças de comunidades desfavorecidas) e frequentava o curso de entalhador, visando tornar-se um trabalhador qualificado. Em informação não redundante, Hine acrescenta ainda que Manuel se apresentava com as suas roupas domingueiras.
Os registos de Lewis Hine municiam-nos com o necessário para percebermos o emproamento confiante com que o miúdo enfrenta a câmara, e que o ângulo ligeiramente contrapicado usado apenas ajuda a enfatizar. As primeiras décadas do século vinte foram décadas de verdadeira sangria demográfica em algumas regiões do velho mundo. Em Portugal, na Irlanda e em grande parte da Itália a partida em massa de jovens adultos, e respectivas famílias, atingiu por vezes o nível de verdadeira debandada chegando, apesar dos elevadíssimos níveis de natalidade da época, a esvaziar algumas aldeias miseráveis das regiões rurais. No caso português, o êxodo teve como destino prioritário o Brasil, mas a indústria da Costa Leste dos Estados Unidos garantiu alguns pontos de atracção e comunidades portuguesas importantes surgiram (como as de New Bedford ou Newark), nunca atingindo porém a dimensão dos números da emigração irlandesa e italiana na América do Norte.
Empurrava-os para o outro lado do Atlântico, por um lado, um grau de pobreza que hoje nos parece ficcional, em que subnutrição era uma constante (com reduzido acesso a proteína animal e uma dieta assente em batata e pão); em que grande parte da população vivia amontoada em casas de divisão única ou dupla, com chão de terra batida, muitas vezes sem chaminé ou janelas vidradas; e em que a roupa e o calçado eram bens quase inacessíveis, faltando muitas vezes o último; por outro lado, a par das questões materiais, havia nestas sociedades maioritariamente analfabetas uma ausência quase total de possibilidade de ascensão social. Jogava-se desde a nascença um jogo viciado, em que o resultado de uma vida estava determinado pelo meio em que se nascia.

Manuel Ferreira sorri-nos, através de Hine, provavelmente orgulhoso. Com o estranho orgulho de quem acha que a vida até lhe corre de feição. Se para Lewis Hine ele pertence a uma secção particularmente desfavorecida da realidade americana, a verdade é que comer carne regularmente, usar no dia de descanso roupas que se aproximam do vestuário janota do dia-a-dia da classe média, frequentar aulas ao domingo e tirar uma fotografia eram pequenas vitórias que um miúdo, oriundo da miséria e da mentalidade do velho mundo de então, encararia possivelmente como um tremendo progresso.

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quinta-feira, 8 de março de 2012

O Fingimento

Uma das comunidades com que Lewis Hine lidou quando, ao serviço do National Child Labor Committee, procurou registar o trabalho infantil foi a luso-americana do estado do Massachussets.
Num domingo de Janeiro de 1912, em New Bedford e nas imediações de uma Fiação, deparou-se com um grupo variado, maioritariamente de rapazes. Estes, quase todos de origem açoriana, dividiam-se em duas categorias: os que frequentavam a escola e os que trabalham na Fiação. Sondando-os apercebeu-se de uma fabricação.
Os miúdos, estudantes e trabalhadores, embora deambulassem em conjunto pela praia gozando o ócio domingueiro, encontravam-se separados por uma linha invisível mas bastante forte. Aqueles cujas famílias haviam chegado há mais tempo, provavelmente já nascidos em território dos Estados Unidos, encaixavam-se num padrão muito mais consentâneo com identidade americana. Frequentavam a escola, eram mais desprendidos e expressavam-se num inglês fluente. Eram os intérpretes de Hine.
Os outros carregavam uma história que lhes fora imposta. Iletrados, mal sabendo assinar o nome, quase não falavam inglês apesar de se encontrarem em New Bedford há já alguns anos. Tão ou mais pequenos que os demais, declaravam-se mais velhos. Lewis Hine concentrou-se em dois, Jo Viera ( João Vieira ?) e Antone Mello (António Mello?), que declararam ter 15 e 14 anos, respectivamente, apesar do seu desenvolvimento físico visivelmente o desmentir. Ambos trabalhavam havia um par de anos na Fiação junto à qual Lewis Hine encontrara o grupo a brincar.
A questão interessa ao fotógrafo do National Child Labor Committee. A sua presença não passa despercebida, nem o seu ofício e nem o seu equipamento. Fosse para garantir a colaboração da pequena multidão que atraiu, fosse para tactear a melhor forma de visualmente registar o embuste que detectara, gastou várias chapas nesse domingo. Como era comum no seu trabalho dessa época, as imagens apresentam-nos os sujeitos em pose mais ou menos ordenada, enfrentando a câmara. Nas provas, como era igualmente seu hábito na época, anota as circunstâncias e os temas. Na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos estão guardadas quatro impressões distintas dessas fotografias, quatro estratégias: numa imagem, Jo Viera e Antone Mello são fotografados isolados, quase a corpo inteiro, com a fábrica recortada no fundo; numa segunda fotografia, os dois miúdos aparecem separados por poucos metros de um grupo numeroso de rapazes que frequentavam a escola; na terceira imagem, Jo Viera e Antone Mello são registados enquadrados por quatro figuras mais altas, aparentemente um adulto e três adolescentes (embora, Hine se refira aos quatro como "men", ou seja, adultos); por fim, uma fotografia em que as duas crianças aparecem, junto à casa de Antone Mello, no meio de dois rapazes estudantes que afirmam ter uma idade inferior dois a três anos à afirmada por Jo e Antone. A esta última imagem, Lewis Hine chama “Comparison of Ages”(comparação de idades), e é a mais feliz das quatro na explicitação da mentira.

Lewis Hine, Jo Viera e Antone Mello,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui



Lewis Hine, 
Jo Viera e Antonio Mello junto a um grupo de estudantes,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui



Lewis Hine,
Jo Viera e Antonio Mello entre adultos e estudantes,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui


Lewis Hine,Comparação de idades,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui







Como retratista de uma realidade embaraçosa, Hine estava habituado a confrontar-se com a Mentira. Amiúde as crianças que sabia estarem a trabalhar numa fábrica eram apenas "visitas", e com maior ou menor talento proprietários e encarregados  apresentavam outras histórias para negar o óbvio. Naquele domingo nevado de 1912, a sua atenção concentrou-se na colaboração, activa ou tácita, de uma comunidade relativamente ao trabalho infantil. Jo e Antone repetem a Hine a versão que lhes foi instruída, uma alternativa mais simpática e construída do que a pura verdade. Falando com um dos miúdos estudantes, o mais alto, de treze anos, este confirma ao fotógrafo a sua suspeita. Diz-lhe que mentem acerca da idade. Que quando se vem das ilhas, mente-se acerca da idade e trabalha-se na Fiação. A mentira era óbvia mas fácil e conveniente. Era desenvergonhada, pública e organizada: para os recém-chegados, eram os padres da comunidade portuguesa quem tratava de tudo .
É interessante o facto de o miúdo que explicita a situação referir que se assim quisesse também podia enganar os donos da Fiação. É-o porque, em bom rigor, não havia ali um engano.Perante a descrição e perante o que é visível no trabalho de Lewis Hine dificilmente poderemos pensar que estes proprietários fossem gente crédula ao nível do absurdo. Uma mentira não é uma mentira quando é feita por um mútuo acordo, quando é uma convenção. Nessa situação está-se perante um fingimento. Os miúdos da comunidade portuguesa de New Bedford fingiam mentir e os donos da Fiação fingiam acreditar.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lewis, o ardiloso

Nos Estados Unidos, na transição do século dezanove para o século vinte, uma em cada seis crianças entre os cinco e os dez anos de idade encontrava-se a trabalhar. E essa realidade era estatisticamente muito mais esmagadora entre as crianças oriundas de famílias recém-chegadas ao país ou de comunidades étnicas minoritárias.

Lewis Hine,
Salvin Nocito de cinco anos a carregar bagas
Nova Jérsia, 28 de Setembro de 1910 
imagem obtida aqui


Apesar da situação norte americana não ser uma excepção a nível global no período em causa, de não haver qualquer impedimento legal e de a lógica económica de então encarar com naturalidade a exploração de toda a mão-de-obra disponível ( as crianças, pelo seu tamanho e baixo custo laboral, adequavam-se muito bem a determinados trabalhos, fosse em túneis de minas, fosse na indústria), o facto é que desponta a consciência de que socialmente era indefensável a exclusão total da escolaridade e do direito à infância. Por um lado, os sectores intelectuais e políticos mais progressivos organizam-se no sentido de expor e limitar o problema; por outro lado, os empregadores de crianças, não querendo abdicar do seu uso, têm clara consciência da inaceitabilidade crescente da situação e organizam-se para esconder e disfarçar o óbvio.
Em 1904 é criado o National Child Labor Committee, que rapidamente ganha apoios entre a classe intelectual e política, incluindo o do ex-presidente Grover Cleveland. Três anos depois, esta organização é reconhecida oficialmente pelo congresso norte americano e, embora sem poderes oficiais, acabará por ser decisiva na alteração da situação do trabalho infantil nos Estados Unidos.

Em 1908, visando registar e denunciar o trabalho infantil, o National Child Labor Committee contratou como fotógrafo Lewis Hine, um professor secundário de sociologia na progressista The Ethical Culture School, uma escola privada de Nova Iorque.
Como docente, Hine destacara-se por fazer um uso pedagógico da fotografia, levando as suas classes para Ellis Island a fim de registar as vagas de emigrantes que faziam a sua entrada nos Estados Unidos através do porto nova-iorquino. Contava igualmente no currículo o facto de, durante dois anos (desde 1906), ter fotografado aspectos da vida das comunidades de Pittsburgh ligadas à indústria do aço, colaborando no estudo sociológico designado por Pittsburg Survey, financiado pela Russell Sage Foundation.
Confrontado com a vontade dos empregadores de esconder uma realidade embaraçosa, Hine raras vezes teve autorização para efectuar livremente o seu trabalho. Ao contrário do que seria comum hoje, perante as proibições a sua estratégia não podia ser a de fazer uso de uma câmara oculta. Impediam-no o volume do equipamento que usava à época, as fracas condições de luz no interior de fábricas e minas e, facto não negligenciável, a sua abordagem ao acto fotográfico. As imagens de Hine não se orientavam no sentido da captura de um instantâneo, eram antes uma construção de pose e cena. Em certa medida próximos dos retratados de August Sander, os sujeitos das fotografias de Lewis Hine não são surpreendidos pela câmara, são antes solicitados deliberadamente a confrontá-la. Dito isto, qual era a então a sua abordagem para contornar a impossibilidade de actuar livremente? Muitas vezes não conseguia simplesmente entrar nos locais de trabalho do trabalho infantil e restava-lhe fotografar no exterior, nos portões das fiações e das siderurgias, nos acessos das minas.

Lewis Hine,
embaladores na conserveira Seacoast Canning Co
Eastport, Maine, Agosto de 1911
imagem obtida aqui

Mas outras vezes conseguia, com os seus negativos de vidro, com o seu magnésio (que era usado para produzir os clarões necessários à iluminação das cenas) e com a demais parafernália, entrar nos redutos industriais. Para tal apresentava-se como um inspector de empresas seguradoras ou como um fotógrafo de postais, apelava às obrigações de capatazes e proprietários, ou à sua vaidade. Aqueles que, de outro modo, o correriam com impropérios para fora das instalações, tornavam-se seus colaboradores, colocavam a criança “que estava apenas a visitar familiares” a trabalhar junto da máquina para dar a devida escala à cena. Hine, ardiloso, aproveitava-se do seu desejo de querer ficar bem na figura.

Lewis Hine,
Rapazes na fiação Bibb,
Macon, Georgia, 19 de janeiro de 1909
imagem obtida aqui


Lewis Hine,
Enroladores de charutos na Tabaqueira Englahardt & Co,
Tampa, Florida, Janeiro de 1909
imagem obtida aqui


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