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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Cidade da Muralha

No âmbito da iniciativa GUIMARÃES 2012 - CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA, encontra-se patente até 29 de Janeiro de 2012, no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, a primeira exposição do projecto Reimaginar Guimarães - A Cidade da Muralha.
Trata-se da apresentação duma selecção de imagens fotográficas de espaço público ou semi-público de Guimarães, provenientes da Colecção de Fotografia da Muralha, e que abarcam um arco temporal que se estende do século XIX à década de sessenta do século XX. As provas em exposição são impressões digitais elaboradas a partir da digitalização de negativos originais de gelatino-brometo de prata sobre placa de vidro e em película (estes últimos, em menor número), pertencentes aos espólios fotográficos de duas casas de fotografia comercial da cidade, a Foto Eléctrica-Moderna e a Foto Moderna.A organização optou nesta exposição pela apresentação das imagens com as marcas visíveis de desgaste e de erosão, sem lhes aplicar um intenso tratamento digital de limpeza. Esta opção visou evidenciar a passagem do tempo e o esquecimento a que estiveram sujeitas estas fotografias e estes espólios.

O projecto Reimaginar Guimarães pretende proceder à identificação, conservação e partilha de acervos fotográficos documentais da ou sobre a cidade de Guimarães. Os seus objectivos incluem a identificação de novos espólios e a sua conservação, digitalização e conservação, bem como a  divulgação em exposições e edições e a criação de um arquivo online (que o site oficial do projecto informa vir a ser acessível no endereço www.reimaginar.org, facto que de momento não se confirma, para desalento de todos que gostam de navegar por este tipo de arquivos).

Depois do salutar caso da Família Andrade, cujo caso abordei aqui no último texto, é com felicidade que se vê  o enfoque na recuperação de um património frequentemente negligenciado, o dos acervos das casas fotográficas comerciais. Estes encerram parte significativa da memória visual das cidades portuguesas e amiúde corre-se o risco de os perder irremediavelmente com o encerramento dos estabelecimentos, ou de os ver pulverizarem-se em vendas avulso, dificultando ou impossibilitando um estudo sistemático.

Autor não identificado, Castelo de Guimarães, sem data
imagem obtida aqui

Autor não identificado,  Guimarães, sem data
imagem obtida aqui
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A família Andrade

Aproxima-se do seu termo uma belíssima, muito interessante e invulgar exposição do Museu Municipal de Tavira / Palácio da Galeria - A família Andrade, olhares sobre Tavira. Poderei ser suspeito na apreciação que fiz por, apesar do meu nascimento e primeira infância em latitudes bem mais meridionais, me identificar com a terra onde cresci e vivo, e onde radica a minha família materna. Mas creio serem verdadeiros os méritos desta mostra do Palácio da Galeria.
O título da exposição poderá parecer sugerir  uma dessas exposições locais, pitorescas e olhando para o umbigo de uma povoação. Mas tal impressão é profundamente falsa. Centrada decerto num facto local, a permanência na cidade de uma família de fotógrafos durante várias gerações, a verdade é que acaba por nos dar uma fabulosa visão diacrónica da Fotografia, dos seus aspectos técnicos, estéticos, comerciais e sociais.
Reside aí a invulgaridade de A família Andrade, olhares sobre Tavira. Fugindo dos padrões mais comuns das mostras fotográficas, centrados em aspectos autorais ou temáticos, apresenta-nos a história da Fotografia comercial em Portugal, desde a fixação dos fotógrafos itinerantes ( a forma profissional mais corrente no século dezanove) à transição do negócio para o paradigma digital. Observa-se a evolução dos equipamentos e materiais fotossensíveis, da chapa de vidro (com emulsão de gelatina e sais de prata)  e da pesada câmara de madeira assente em tripé ao quiosque de impressão digital, passando pelas câmaras reflex e de médio formato, pelas películas de 35 mm a preto e branco e a cores, pela iluminação de estúdio e pelo laboratório minilab. Mostra-nos a evolução dos modelos que estruturaram a prática e a acessibilidade da fotografia, do retrato formal e pesado, cheio de adereços e cenários pintados ( à maneira do francês Disdéri), em que a quase totalidade do processo fotográfico era controlada pelo fotógrafo,  à fotografia do it yourself, da era do telemóvel e do facebook, em que o profissional apenas fornece o equipamento para as raras impressões. Apresenta-nos aspectos menos conhecidos, ou quase esquecidos, do retoque e coloração das impressões e da impressão por contacto à fotografia obituária.
E faz isto ( e mais) mostrando-nos a História recente de uma cidade ( e, na verdade, a de um país), desde o tempo em que a fotografia era apenas acessível a uns poucos até à actualidade, em que de tão acessível se torna desmaterializada e menos significativa ( veja-se o quase desaparecimento do hábito de manter álbuns familiares). Vê-se a evolução das indumentárias, dos hábitos, das forças sociais. Vai-se de uma sociedade fortemente estratificada, com grupos sociais visivelmente separados pela roupa e pela postura, da presença constante da forças armadas (natural em Tavira pela presença de um quartel, mas não incomum no resto país no período pós Primeira Guerra Mundial), a uma sociedade democratizada e muito mais uniformizada nos comportamentos e aparência. Pelo meio passa-se pelo Estado Novo, com a inevitável visita de Américo Tomás, acenando aos populares de uma posição elevada, e os postais de um Portugal típico com chaminés algarvias, carroças e burros. E pela Guerra Colonial, um conflito pouco fotogénico por vontade oficial e em que as imagens de Luís Andrade permitem um dos raros vislumbres que vão além da foto do soldado-fotógrafo-amador, das poses para a família e das curiosidades bélicas ou africanas.
A exposição resulta de uma óptima iniciativa do Museu Municipal de Tavira/Palácio da Galeria e do seu quadro, de uma investigação histórica de Rita Manteigas que é apresentada no catálogo da exposição, e sobretudo do cuidado e da capacidade de preservação de um espólio fotográfico espantoso, demonstrados pela família Andrade, numa atitude rara e que nos enriquece a todos.

Família Andrade, Militar, Tavira, 1920-1940
imagem obtida aqui

A exposição termina a 7 de Janeiro de 2012, e se ainda não a viu dê corda ao sapatinho. Vale bem a pena.

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

SPECIMEN - Rícino

Não sei precisar a data, mas creio que terá sido aí por volta de 1989 que vi na televisão um filme que me deliciou absolutamente- "Amarcord" de Fellini. É um filme pleno de cenas antológicas,mas interessa-me aqui recordar uma em particular, em que uma das personagens é questionada por agentes da polícia política de Mussolini. Em causa estava a desconfiança que revelara ter em relação ao líder fascista. Para o "libertar" de tais pruridos, os esbirros fazem-no engolir alguns frascos de óleo de rícino. Retrato grotesco de uma ditadura e de uma sociedade povoada de características patéticas, esta cena faz combinar o cómico de uma espécie de tortura ligeira, se é que posso classificar assim, com o efeito de profunda humilhação e de diminuição humana da personagem em causa, um chefe de família impotente perante tais sevícias.
A palavra rícino entrou aí para o meu imaginário, embora sem que a pudesse verdadeiramente visualizar como algo concreto. O óleo de ricino era para mim um instrumento de Fellini para uma cena fabulosa de um filme fabuloso, e em menor grau, era também algo que a minha mãe fora obrigada a engolir em criança para agilizar os intestinos e que, entretanto e por bons motivos, deixara de ser usado como laxante (de forma corrente, pelo menos).
Na sequência do meu trabalho com a série SPECIMEN acabei por descobrir que o rícino me era perfeitamente familiar. Trata-se do fruto dum arbusto comum. A Figueira-do-Inferno cresce espontaneamente no Algarve, sendo vulgar ,por exemplo, nas bordas das estradas. O nome deriva da folha que é semelhante à da figueira. O seu fruto tem um aspecto algo esférico, e é caracterizado por protuberâncias semelhantes a espinhos. Varia a sua cor de um laranja claro acastanhado a um espantoso vermelho vivo.


Júlio Assis Ribeiro,
SP_V_RCN-01
Rícino, Fruto da Figueira-do-Inferno(Ricinus communis),2010

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SPECIMEN

Desculpem-me por insistir, mas publico agora o pequeno texto que redigi para apresentação da exposição SPECIMEN, e que constará numa brochura:

"Gosto há muito de fotografia, e exerço-a a espaços, como um desafio pessoal. E desde uma idade muito precoce, tenho também alguma fixação relativamente ao processo científico, aos seus desenvolvimentos, às suas figuras e à sua história.
Dois interesses concomitantes, conexos. A fotografia nasce, enquanto prática viável, de duas pulsões - uma artística, capturar a imagem; outra científica, fazê-lo com a ajuda da Física e da Química. Os seus dois pais reconhecidos, Daguerre e Fox Talbot, geraram-na por processos diferentes, em tempo quase síncrono. O francês era um antigo pintor que se dedicou à Química, e o inglês era um homem de ciência que se recusou a aceitar a sua incapacidade de registar, num desenho aceitável, aquilo que via.
No início, a Fotografia era distante, complexa, difícil. Antes de se industrializar, exigia recursos, técnica e talento inacessíveis a quase todos. Poucos podiam manipular materiais perigosos, vapor de mercúrio ou algodão-pólvora, e carregar câmaras pesadas de madeira e caixas com chapas de cobre ou vidro. Poucos tinham tempo e dinheiro para tal.
Não estranhamente, muitos dos seus primeiros cultores eram cientistas. Dominavam já parte das ferramentas do ofício que a fotografia exigia. E a par das imagens dos géneros consagrados da pintura, paisagem e retrato, que os pioneiros emulavam na sua prática fotográfica, nascem outras, derivadas dos seus interesses naturais. Fabulosas fotografias dos objectos dos estudos científicos – amostras provenientes do trabalho de campo, rochas, cristais, fósseis, ossadas; objectos de estudo catalogados, etiquetados e expostos em Museus; fragmentos e peças arqueológicas.
Este trabalho, não artístico nas suas intenções, surpreende-nos. A fotografia, processo mecânico e químico, transmite-nos um olhar pessoal, uma perspectiva única. Há na fotografia como que uma intensificação da experiência sensorial. O quotidiano e o banal, são-nos atirados à cara com uma consistência e uma singularidade reveladoras. As amostras são frequentemente escolhidas para representar universalmente algo, uma espiga representa todas as espigas. Mas a fotografia, ao contrário do desenho, tende a acentuar a sua individualidade, aquela espiga é aquela espiga.
Comecei, em 2002, a registar digitalmente objectos orgânicos vulgares, fruto de uma recolha aleatória, casual, ocasional. Nada de exótico, objectos com que nos cruzamos sem que estes se destaquem, sem que se apartem do ruído visual. Pretendi de alguma forma, simular o olhar científico, que questiona o que é tido por certo. Criar fictícias imagens dum catálogo de Museu de Ciências Naturais, de especímenes apresentados no interior de caixas forradas com veludo negro. Imagens simultaneamente nítidas e com pouca profundidade de campo, metáfora da proximidade e do entendimento íntimo destes objectos que julgamos conhecer, mas para os quais não olhamos verdadeiramente. Imagens digitais acabadas sem manipulações, além das que são possíveis com a fotografia analógica, alguns ajustes em termos tonais e repicagem."

Júlio Assis Ribeiro
SP_V_SRLH_01,
 Serralha (Sonchus oleraceus),2004

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Falta de Vergonha

Existem aqueles que desenvolvem trabalho de qualidade excepcional e que, por pudor, jamais o revelam ao olhar público. E existem aqueles que, por falta de vergonha ou por simples inconsciência,  se põem em bicos de pés e insistem em expôr a sua pouca competência técnica, o seu desconhecimento e a sua inépcia estética.
Cabe-me dizer, com orgulho e vaidade, que passarei fazer parte deste último grupo.

Com a muito simpática colaboração da Casa Azul, em Cacela Velha, e o apoio da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, será inaugurada dia 8 de Setembro deste ano, a exposição SPECIMEN, onde estarão patentes fotografias de uma série que tenho insistido em fazer desde 2002.
Esta provação durará até ao dia 1 de Novembro de 2010.

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