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domingo, 12 de maio de 2013

William Paul Gottlieb: o cronista acidental

Um artigo meu na Obvious

Delia Potofsky Gottlieb, William Gottlieb na rádio WINX,
Washington, E.U.A., cerca de 1940
Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América




William Gottlieb,
Ella Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Ray Brown, Milt MiltonJackson e Timmie Rosenkrantz no Downbeat, 
Nova Iorque, E.U.A.,Setembro de 1947
Arquivos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Como alguns cronistas medievais, William Paul Gottlieb teve acesso muito próximo a uma corte. A sua era a legião de músicos excepcionais que, nas décadas de trinta e quarenta de novecentos, transformaram radicalmente o jazz. Era amigo dalguns dos seus editores, entrava nos camarins, alguns foram convivas na sua casa.

Mas William Gottlieb foi um cronista invulgar e acidental. Embora escrevesse colunas na imprensa e animasse programas de rádio, o seu registo mais marcante foi a fotografia. E nada, no início da sua vida, parecia encaminhá-lo para a crítica musical e para a fotografia.


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quarta-feira, 17 de abril de 2013

O cão de Billie Holiday

Durante os anos em que William Gottlieb foi uma espécie de cronista fotográfico do Jazz, cruzou-se praticamente com toda a gente que era alguém nesse mundo. Gente e não só.
Billie Holiday foi uma figura incontornável dessa era dourada. Uma voz invulgar e um estilo único de interpretação tornam-na inesquecível. Mas à semelhança de outras figuras suas contemporâneas no jazz, como Charlie Parker, parecia encerrar em si uma tendência auto-destrutiva.
Filha de um pai ausente (um músico das big bands da altura, sem vocação parental), com uma mãe negligente, violada antes da adolescência por um vizinho,  parece situar-se na infância a origem dessa tendência, provavelmente alimentada por uma falta de afecto que se tornou patológica.

Como muitas vezes explicam os especialistas, as carências tendem a ser sublimadas por substitutos, por excessos. E na vida da cantora não faltaram substitutos e excessos. Repetidas relações amorosas com homens abusadores, consumo de drogas, um abuso de álcool que culminaria na sua morte em idade muito precoce.  Nessa cadeia de sublimações duma vida sem afectos duradouros e serenos, talvez o único facto positivo, e conhecido, fosse  a sua adoração por cães.  Durante a sua vida adulta fez-se sempre acompanhar por um, e a sua dedicação a eles era indesmentível. Dizia-se que a sua lista de compras diárias consistia em três coisas: Cigarros, Gin e comida para cão.

Quando tal comportamento era totalmente incomum, ao contrário do mundo das celebridades actual, levava-os consigo onde quer que fosse. Trazia-os para as salas e clubes onde cantava, para os seus camarins, para os bares onde continuava a noite.

Foi por aí que Gottlieb se cruzou com Mister, o boxer que partilhou a vida de Holiday  nos anos quarenta do século passado. Animal nervoso, de feitio difícil e dentada fácil, todos o conheciam pelo nome. Habituado à vida conturbada da  dona, instituíra-se como seu defensor. Tenso, apenas relaxava junto à dona. Especulava-se que se atirara, por mais que uma vez, aos nada recomendáveis companheiros da cantora. Era o seu baluarte.

William Gottlieb, Mister, o cão de Billie Holiday,
Nova Iorque, E.U.A., 1940-48
imagem obtida aqui




Gottlieb fez cinco fotografias de Mister. Quatro junto a Billie Holliday. Na restante, o cão teve honras de modelo único, tratamento de vedeta. Com trela, sentado numa mala (de chapéus?), em estado de prontidão aparente.
Eu sei que os boxers são cães de olhar melancólico, mas vendo a fotografia, eu juraria que dá para perceber que este era um animal que carregava demasiadas responsabilidades.

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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Os improváveis

Por vezes, numa imagem reúnem-se vários improváveis.

William P. Gottlieb foi um fotógrafo improvável. Nada, à sua nascença, o parecia encaminhar para tal destino. Nascido numa família empresarial, ligada à construção e à industria madeireira, tudo indicava que estava reservado para ele um lugar no mundo dos negócio. Mas um grave problema de saúde quando estudava economia na Universidade, acabaria por o forçar a uma convalescença longa. Uma convalescença  tornada suportável pela música, em particular o Jazz, que se tornou interesse avassalador e que o levaria optar pela crítica musical e pelo jornalismo como modo de vida.
Foi por falta de verba para fotógrafos que se viu forçado a pegar numa pesada Speed Graphic, uma câmara típica dos repórteres de então,  que lhe custou parte significativa da sua colecção de discos. E nos intervalos em que largava os seus blocos de notas, e a sua função maior de jornalista de textos, o autodidacta fotógrafo revelou-se melhor que a encomenda. Criou um dos mais impressionantes conjuntos de imagens daquela que alguns chamam a "Era dourada do jazz" - o período em que as "big bands" levaram o jazz de música duma vida nocturna mais ou menos duvidosa a grande fenómeno popular, e em que depois, com o declínio destas, a espantosa revolução do Bebop o levou de popular a género de culto.

William P. Gottlieb, Lead Belly no National Press Club,
Washington, 1938-48
imagem obtida aqui

Também para Lead Belly (alcunha de Huddie William Ledbetter) à nascença, em data não muito bem definida, não parecia estar reservado o destaque em importante publicações, nem os palcos mais notáveis das grandes cidades americanas.
Negro, nascido numa plantação do Louisiana em fins do século XIX, tudo apontava que, mesmo sendo um notável autodidacta e poli-instrumentista, enquanto músico não passasse das estreitas margens da sua comunidade ou, quando muito, que singrasse na única carreira possível para os seus, o abrilhantamento do submundo nocturno, como músico de bares duvidosos e bordéis.
E depois, a sua personalidade explosiva, que o tornava quase uma personificação dos piores estereótipos que caricaturizavam os negros americanos, parecia arredá-lo definitivamente do interesse da América mainstream. Bebia, tinha uma vida amorosa atribulada, envolvia-se em zaragatas, usava armas sem grandes pruridos, foi preso e condenado por várias vezes, inclusivamente por homicídio.
Seria porém a cadeia que que o resgataria do desconhecimento. Em 1933, num dos seus retornos à cadeia, (depois de ter conseguido obtido um inusitado perdão dum governador, que era conhecido por os não darmas que frequentava estranhos picnics na penitenciária onde o músico actuava para deleite de guardas e convidados) foi descoberto na gigantesca prisão agrícola de Angola, no Louisiana natal, pelo etnomusicólogo Jonh Lomax. Este esforçar-se-ia para conseguir a sua libertação e trataria de o apresentar à sociedade americana, abrindo-lhe o caminho para um percurso que, embora cheio de percalços, o levaria ao reconhecimento público, com um repertório espantoso de blues, gospel, canções de cowboys e até cantigas infantis.

O encontro destes dois improváveis deu-se por mais que uma vez. A predilecção musical de Gottlieb era o jazz, mas este era por natureza local de encontros. Abria-se sem complexos à musica latino-americana e ao blues, por exemplo. E Lead belly não era exactamente um homem que pecasse por falta de versatilidade. Das imagens produzidas nos encontro,s gosto particularmente da acima apresentada. É a mais sub-exposta, quase uma metáfora da dificuldade de chegar à visibilidade de um notável e complexo músico. Da vitória sobre a improbabilidade.

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Augusto Mayer (1926-2012)

Existe uma relação amorosa (muitas vezes consumada) entre a fotografia e o Jazz. Para prová-lo basta citar o caso de William Gottlieb e das fotografias que fez nos anos trinta e quarenta de novecentos, quando o Jazz tansitou das big bands e do swing para a sua fase de "câmara", o BeBop, em clubes fumarentos dos Estados-Unidos.

William P. Gottlieb, Charlie Parker e Tommy Potter,
Nova Iorque, Agosto de 1947
imagem obtida aqui

Em Portugal, salvaguardadas as devidas distâncias, o papel de cronista fotográfico desses tempos heróicos terá cabido a Augusto Mayer, que cobriu as jam sessions que tentaram abanar o status quo da cena musical do Portugal dos anos quarenta, e a actividade do Hot Club, em Lisboa.

Augusto Mayer, 1ª jam session no Café Chave d'Ouro,
Lisboa, Fevereiro de 1948
imagem obtida aqui


Augusto Mayer faleceu recentemente, a 22 de Dezenbro de 2012, com 86 anos.

João Moreira dos Santos, autor de vários livros sobre Jazz em Portugal, encontrava-se a preparar uma obra centrada no espólio do fotógrafo. Obra essa que ganha agora uma nova premência.

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