sábado, 18 de setembro de 2010

Olhó Cárváiou

É sempre delicioso aprender como se diz Carvalho correctamente nos Estados-Estados. Num video, percebi que a forma incorrecta é Carvalou. A forma correcta é a que está descrita na imagem abaixo, um excerto do livro Photo odyssey: Solomon Carvalho's remarkable Western adventure, 1853-54 de Arlene B. Hirschfelder.


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Galeria Nacional

Embora talvez seja difícil definir estritamente Solomon Nunes Carvalho como português (não é à toa que uma das publicações que o abordam tem por título Carvalho, “artist-photographer-adventurer-patriot: portrait of a forgotten American”, escrita por Joan Sturhahn e publicada em 1976), mercê do nosso muito talento para coçar as feridas, verdadeiras ou imaginárias, o facto é que ele entrou para a galeria nacional de figuras que podiam ser, para o mundo, muito mais do que efectivamente são.
Junto a pintores que podiam ter sido dos maiores, não fora terem morrido antes do tempo- Amadeo e Santa-Rita Pintor; do descobridor que chegou ao continente americano vinte anos antes de Colombo e que, por uma estranha conspiração mundial, ninguém fala -João Vaz Corte Real; Carvalho é o homem que fotografou o Oeste americano antes de todos, e que ofuscaria hoje figuras como Mathew Brady e Edward Curtis, não fosse o simples pormenor da quase totalidade das suas imagens se ter perdido no incêndio de um armazém de Staten Island, Nova iorque. Ainda por cima, tal aconteceu muito antes de a Fotografia ter o reconhecimento institucional e popular de que hoje goza.
Compreendo este estranho gosto de invocarmos para Portugal os méritos de todos os descendentes de portugueses, mesmo aqueles que pessoalmente não se vejam como membros da nossa vasta e gloriosa comunidade ( as referências ao realizador Sam Mendes, na comunicação social portuguesa, são muitas vezes um patético exemplo desta tendência) e enquadro-o numa patologia nacional, um misto de Complexo de Inferioridade com Mania das Grandezas. Mas, do alto da minha ignorância e do facto de contar apenas com o que consigo aceder via internet, penso que no caso de Solomon Nunes Carvalho eventualmente serão aceitáveis algumas nuances em relação a este quadro.
Se é verdade que era um cidadão americano por direito e nascença, e que se definia como consciencioso, orgulhoso e zeloso dos seus deveres, o princípio jurídico de Jus sanguinis confere-lhe, dada a nacionalidade portuguesa dos ascendentes próximos, o carácter de português. Do ponto de vista cultural, sendo claro que era um membro da classe educada americana, e que se expressava publicamente em inglês, era igualmente um membro activo da comunidade judaica sefardita, predominantemente portuguesa. Uma comunidade que fazia da sua origem portuguesa um carácter distintivo e demarcador relativamente à comunidade judia com origem no Centro e Leste da Europa, maioritária e, por norma, menos qualificada. Do que consigo ter acesso, não tenho nenhuma confirmação de que falasse ou escrevesse português, embora desconfie plenamente que tal acontecesse. Tendo pais portugueses e estando inserido numa comunidade que ainda conservava alguns laços com a sua origem, o facto declarado pelo próprio de que compreendia e que conseguia comunicar em língua espanhola (que era usada como uma língua franca entre índios, comerciantes e exploradores nos Estados recém conquistados do Oeste e do Sul) é um indicador claro dessa possibilidade.
Dito isto, devo dizer que da leitura de ” Incidents of Travel and Adventure in the Far West” o que ressalta é o ponto de vista de alguém que se considera um americano empenhado. A origem portuguesa teria provavelmente importância na sua estrutura identitária, mas creio não estarmos perante alguém que se descreveria, antes de tudo, como um português.
Sabemos por prova documental e testemunhal, que Solomon Nunes Carvalho terá realizado cerca de 300 daguerreótipos durante a viagem de exploração, até ser abandonado por Frémont no Utah. Sabe-se que tinha consciência plena de que a realização de fotografias na viagem levantaria questões técnicas e logísticas complicadas, que ninguém antes enfrentara, e que foi capaz de resolver. Sabe-se que já antes se evidenciara e destacara, ao criar um processo de esmaltagem que tornava desnecessário cobrir o daguerreótipo com um vidro de protecção. Sabemos que era já antes um conceituado fotógrafo comercial, actividade que conjugava com a de pintor, e que deve ter produzido uma obra considerável em termos de retrato. Sabemo-lo um personagem plena de recursos intelectuais e técnicos, embora autodidacta. Foi ele um inventor de um sistema de funcionamento com alta pressão em motores a vapor, que a Marinha norte-americana usou até adopção dos motores de combustão interna.
Sabemos tudo isso, mas o que hoje distinguiria irrefutavelmente Carvalho seriam essas imagens dum Oeste desaparecido, que sabemos que fez , algumas descritas por ele em ” Incidents of Travel and Adventure in the Far West”, outras reproduzidas em gravuras feitas para o projectado relatório da 5ª expedição de Frémont, e utilizadas no livro Memoirs of My Life and Times, assinado pelo explorador( mas que se crê escrito pela sua mulher- Jessie Benton Fremont). E, como já aqui disse, tal não é possível devido a um incêndio no ano de 1881.
Ao deixar para trás solomon Nunes carvalho, Frémont levou consigo as fotografias já realizadas (Carvalho, no seu livro, indica apenas que o seu equipamento fotográfico tenha sido abandonado , enterrado na neve e coberto com moitas, antes da chegada a Parowan, como forma de aligeirar a carga da expedição numa altura em que temiam pela sua sorte pessoal). Isto não parece ter originado qualquer tipo de rancor em Carvalho. Numa altura em que os direitos de autor não eram, per se, propriamente um dado adquirido, a posse e controlo do seu trabalho não era algo em que um fotógrafo daguerreotípista, em particular, pensasse. Como o processo fotográfico produzia unicamente uma prova positiva, este tipo de profissional dava por adquirido que o cliente levava consigo o resultado do seu labor.
O percurso de Frémont levaria os daguerreótipos primeiro até à California e, mais tarde, aquando do seu regresso ao Leste, até Nova Iorque. Aí foram entregues a Mathew Brady, para que este fotógrafo realizasse cópias, através do processo de placas revestidas com colódio húmido, e terá sido nas suas instalações que terão sido reproduzidos por desenhadores que criariam as gravuras mais tarde usadas nas Memórias do explorador.
Em 1881, o já referido incêndio faria desaparecer aquilo que hoje seria o núcleo mais significativo do legado de Solomon Carvalho enquanto fotógrafo. Aparentente das três centenas de fotografias realizadas chegou-nos apenas um daguerreótipo, danificado, identificado por alguns como uma cópia de Brady ( identificação pouco credível dado o uso de placas húmidas de colódio que este terá feito), por outros como um original resgatado do destroços do armazém. A imagem sobrevivente encontra-se na posse da Biblioteca do Congresso dos estados-Unidos.

Solomon Nunes Carvalho, Vista de uma aldeia Cheyenne em Big Timber ( Colorado), 1853
imagem obtida aqui

Nela observa-se parte de uma aldeia índia Cheyenne, provavelmente a de Big Timber. Poderá ser um dos daguerreótipos que Carvalho descreve ter realizado no décimo capítulo de seu livro, e a assim ser, resulta algo irónico que a imagem sobrevivente não seja uma de particular investimento, mas uma realização com fins mais instrumentais. Descreve solomon Nunes Carvalho que perante enormes dificuldades em convencer os Cheyenne em manterem-se imóveis, ou tão simplesmente em deixarem-se fotografar, optou por fotografar primeiro algumas tendas. Ao mostrar este daguerreótipo conseguiu então a atenção e abertura pretendidas, conseguindo fotografar uma idosa acompanhada de uma criança, e depois as figuras mais notáveis que se prontificaram para o registo, nomeadamente o chefe da aldeia e a sua filha, que Carvalho apresenta como princesa.

Temos assim que, além de apenas sobreviver apenas uma imagem, não é uma das foram realizadas com maior investimento e interesse. Não é de uma fotografia de espantosas paisagens ou fenómenos que Carvalho realizou, nem um dos retratos das figuras de um território em mutação acelerada. Sobreviveu provavelmente uma imagem feita com o fim de facilitar outras, numa disposição em figuram tendas, peles a secar e duas figuras que observam à distância, com curiosidade e desconfiança eventualmente em doses iguais. Para desgraça da Fotografia e, no ver de alguns, para desfeita nacional.

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

SPECIMEN - Rícino

Não sei precisar a data, mas creio que terá sido aí por volta de 1989 que vi na televisão um filme que me deliciou absolutamente- "Amarcord" de Fellini. É um filme pleno de cenas antológicas,mas interessa-me aqui recordar uma em particular, em que uma das personagens é questionada por agentes da polícia política de Mussolini. Em causa estava a desconfiança que revelara ter em relação ao líder fascista. Para o "libertar" de tais pruridos, os esbirros fazem-no engolir alguns frascos de óleo de rícino. Retrato grotesco de uma ditadura e de uma sociedade povoada de características patéticas, esta cena faz combinar o cómico de uma espécie de tortura ligeira, se é que posso classificar assim, com o efeito de profunda humilhação e de diminuição humana da personagem em causa, um chefe de família impotente perante tais sevícias.
A palavra rícino entrou aí para o meu imaginário, embora sem que a pudesse verdadeiramente visualizar como algo concreto. O óleo de ricino era para mim um instrumento de Fellini para uma cena fabulosa de um filme fabuloso, e em menor grau, era também algo que a minha mãe fora obrigada a engolir em criança para agilizar os intestinos e que, entretanto e por bons motivos, deixara de ser usado como laxante (de forma corrente, pelo menos).
Na sequência do meu trabalho com a série SPECIMEN acabei por descobrir que o rícino me era perfeitamente familiar. Trata-se do fruto dum arbusto comum. A Figueira-do-Inferno cresce espontaneamente no Algarve, sendo vulgar ,por exemplo, nas bordas das estradas. O nome deriva da folha que é semelhante à da figueira. O seu fruto tem um aspecto algo esférico, e é caracterizado por protuberâncias semelhantes a espinhos. Varia a sua cor de um laranja claro acastanhado a um espantoso vermelho vivo.


Júlio Assis Ribeiro,
SP_V_RCN-01
Rícino, Fruto da Figueira-do-Inferno(Ricinus communis),2010

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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SPECIMEN

Desculpem-me por insistir, mas publico agora o pequeno texto que redigi para apresentação da exposição SPECIMEN, e que constará numa brochura:

"Gosto há muito de fotografia, e exerço-a a espaços, como um desafio pessoal. E desde uma idade muito precoce, tenho também alguma fixação relativamente ao processo científico, aos seus desenvolvimentos, às suas figuras e à sua história.
Dois interesses concomitantes, conexos. A fotografia nasce, enquanto prática viável, de duas pulsões - uma artística, capturar a imagem; outra científica, fazê-lo com a ajuda da Física e da Química. Os seus dois pais reconhecidos, Daguerre e Fox Talbot, geraram-na por processos diferentes, em tempo quase síncrono. O francês era um antigo pintor que se dedicou à Química, e o inglês era um homem de ciência que se recusou a aceitar a sua incapacidade de registar, num desenho aceitável, aquilo que via.
No início, a Fotografia era distante, complexa, difícil. Antes de se industrializar, exigia recursos, técnica e talento inacessíveis a quase todos. Poucos podiam manipular materiais perigosos, vapor de mercúrio ou algodão-pólvora, e carregar câmaras pesadas de madeira e caixas com chapas de cobre ou vidro. Poucos tinham tempo e dinheiro para tal.
Não estranhamente, muitos dos seus primeiros cultores eram cientistas. Dominavam já parte das ferramentas do ofício que a fotografia exigia. E a par das imagens dos géneros consagrados da pintura, paisagem e retrato, que os pioneiros emulavam na sua prática fotográfica, nascem outras, derivadas dos seus interesses naturais. Fabulosas fotografias dos objectos dos estudos científicos – amostras provenientes do trabalho de campo, rochas, cristais, fósseis, ossadas; objectos de estudo catalogados, etiquetados e expostos em Museus; fragmentos e peças arqueológicas.
Este trabalho, não artístico nas suas intenções, surpreende-nos. A fotografia, processo mecânico e químico, transmite-nos um olhar pessoal, uma perspectiva única. Há na fotografia como que uma intensificação da experiência sensorial. O quotidiano e o banal, são-nos atirados à cara com uma consistência e uma singularidade reveladoras. As amostras são frequentemente escolhidas para representar universalmente algo, uma espiga representa todas as espigas. Mas a fotografia, ao contrário do desenho, tende a acentuar a sua individualidade, aquela espiga é aquela espiga.
Comecei, em 2002, a registar digitalmente objectos orgânicos vulgares, fruto de uma recolha aleatória, casual, ocasional. Nada de exótico, objectos com que nos cruzamos sem que estes se destaquem, sem que se apartem do ruído visual. Pretendi de alguma forma, simular o olhar científico, que questiona o que é tido por certo. Criar fictícias imagens dum catálogo de Museu de Ciências Naturais, de especímenes apresentados no interior de caixas forradas com veludo negro. Imagens simultaneamente nítidas e com pouca profundidade de campo, metáfora da proximidade e do entendimento íntimo destes objectos que julgamos conhecer, mas para os quais não olhamos verdadeiramente. Imagens digitais acabadas sem manipulações, além das que são possíveis com a fotografia analógica, alguns ajustes em termos tonais e repicagem."

Júlio Assis Ribeiro
SP_V_SRLH_01,
 Serralha (Sonchus oleraceus),2004

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Falta de Vergonha

Existem aqueles que desenvolvem trabalho de qualidade excepcional e que, por pudor, jamais o revelam ao olhar público. E existem aqueles que, por falta de vergonha ou por simples inconsciência,  se põem em bicos de pés e insistem em expôr a sua pouca competência técnica, o seu desconhecimento e a sua inépcia estética.
Cabe-me dizer, com orgulho e vaidade, que passarei fazer parte deste último grupo.

Com a muito simpática colaboração da Casa Azul, em Cacela Velha, e o apoio da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, será inaugurada dia 8 de Setembro deste ano, a exposição SPECIMEN, onde estarão patentes fotografias de uma série que tenho insistido em fazer desde 2002.
Esta provação durará até ao dia 1 de Novembro de 2010.

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Peregrinação de Solomon Nunes Carvalho

Quem, como eu, cresceu e se escolarizou nos anos oitenta foi bombardeado com um discurso vago, mas constante, sobre a expansão portuguesa. Já não era o discurso gongórico e instrumental do Estado Novo, era uma narrativa com poucos factos, difusa, mas que nem por isso deixou de ser omnipresente. Quase todas as terras deste canto europeu tiveram nessa altura um monumento às descobertas, uma avenida das descobertas, uma ponte das descobertas. Depois do PREC, da descolonização atabalhoada, de um período em que a presença portuguesa em territórios além desta pequena parcela da Península Ibérica, e dos apêndices insulares, foi um anátema ideológico, reconstruiu-se uma identidade histórica. Algo envergonhada é certo, que omitia a palavra império, mas que recorria a torto e a direito, sem medo de redundância, a expressões como vocação e desígnio nacional. O interessante é que esta versão leve dum velho discurso, começado a desenvolver pelo republicanismo, apesar de desestruturada, e de limitada nas referências, se revelou eficaz. Ao contrário da verborreia Imperial da ditadura, penetrou sem picar, não fez mossa aparente e não criou anticorpos. Subliminarmente, a minha geração sente que houve uma altura em que neste país se fizeram coisas com propósito, organização e glória. Houve uma altura em que o país funcionou. Depois, estragou-se.

Esta percepção entranhou-se através da constante referência à mítica Escola de Sagres, aos resumos dos Lusíadas com que os alunos se furtavam à leitura do original, às ligeiríssimas referências a Tordesilhas e a Afonso de Albuquerque nalguns manuais, e à repetição constante em noticiários, programas televisivos e discursos políticos, de lugares comuns acerca da singularidade e grandeza do Portugal de quinhentos.
A complexidade de motivos e as causas estruturais que levaram à expansão portuguesa, parecem-me hoje terem estado arredadas desses anos, curiosamente quando o Estruturalismo era tardiamente uma moda. E da literatura portuguesa do período pouco nos falaram, para além dos não lidos, e panegíricos, Lusíadas. Da fabulosa Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, desse retrato de um Portugal expansionista ora corsário, ora mercador, ora missionário, ora guerreiro, ou tudo junto ao mesmo tempo, pouco ou nada além do Fernão Mentes Minto me lembro de ter ouvido. O mesmo se passou quanto à História Trágico-Maritíma , e à sua descrição de uma expansão feita com naus mal construídas, sem equipamento, com excesso de gente e tripulação inexperiente e ignorante.
A descoberta do imenso mar de quatrocentos e quinhentos, e a expansão militar e comercial de então, parecem-me ter sido feitas com a típica, e actual, mistura de peso estatal e informalidade, de projecto e improvisação, de génio pessoal e tolerância colectiva com a incompetência e a ganância, de amoralidade e compaixão,de razões de Estado e propósitos pessoais. Não herdámos um Portugal estragado, o pais sempre foi uma fabulosa construção clandestina.
Aquilo que as narrativas oficiais tentam encobrir e mascarar por, em termos de discurso identitário nacional, ser tido como defeito, é possivelmente a verdadeira face do nosso ser nacional, caso exista tal coisa. Estes traços não são um exclusivo pátrio, mas serão em nós estatisticamente mais relevantes.
Outros povos têm a sua quota-parte de ignorantes ambiciosos, de derrotados gloriosos, de coisas que poderiam ter sido grande coisa, mas que não passaram de uma coisa qualquer. Mas creio que não constroem a sua mitologia em torno ou em fuga de tal.

À semelhança dos portugueses antigos, os norte-americanos , a seguir à independência e à estabilização do edifício institucional, também levaram a cabo a uma expansão, adquirindo território quer por via de compra, quer por via da guerra. E em meados do século dezanove viram-se perante o facto de existir um verdadeiro mar de terra inexplorada, largamente desconhecida, entre os estados do leste e os territórios da costa Oeste. Inversamente à dita expansão portuguesa, conheciam os caminhos marítimos mas faltava-lhes saber o que existia entre os portos, para os ligar. Realizar expedições com propósitos mistos- comerciais, militares e científicos- foi algo que o estado nascente se viu na necessidade de fazer, quer por iniciativa e financiamento directos do Congresso , quer com a sua tolerância relativamente a diligências de carácter mais privado ou pessoal.
Os períodos de expansão, e os de guerra, parecem ser propícias a figuras ambiciosas e de ego desmesurado. Nos Estados-Unidos de meados de novecentos, organizar, liderar e participar em expedições era uma forma de auto-promoção política eficaz. A realização e a publicitação destes feitos revelavam-se um veículo de singularidade e de distinção nacional.
John Charles Frémont foi uma das figuras que seguiu esta via. Personagem controverso, ambicioso, impetuoso e contraditório, nasceu de uma relação extraconjugal entre uma jovem pertencente às famílias terratenentes da Virginia e um professor francês, contratado para ela pelo sexagenário marido. A fuga de Anne Beverley Whiting com Charles Fremon para Savannah, escandalizou a cidade de Richmond , e o nascimento de John Frémont dá-se num contexto de ilegitimidade e desaprovação social, a que alguns atribuem a origem da ambição e ânsia de protagonismo posteriores. Após concluir os estudos, o jovem Frémont inicia actividade militar, primeiro no navio USS Natchez, como instrutor de matemática, e mais tarde no Corps of Topographical Engineers. De 1842 a 1846, chefiará três expedições em território não cartografado do interior norte-americano.


Mathew Brady, Jonh C. Fremont, cerca de 1860
imagem obtida aqui

Em 1846, enquanto tenente-coronel participará na guerra com o México. Em resultado desta partipação será, por um curto período e erroneamente, nomeado governador da California. Nomeado pelo comodoro Stockton, veio a verificar-se que este não possuía tal competência. Esta pertencia ao presidente , que teria atribuído para o cargo o brigadeiro Stephen Watts Kearny. Perante a recusa de renunciar ao cargo, John Charles Frémont foi preso e levado a tribunal marcial, onde foi condenado por motim e desobediência, tendo sido afastado do exército.
Como forma de recuperar a sua imagem pública, com o apoio do sogro, o influente senador Benton, em 1848, Frémont irá iniciar uma quarta expedição com o intuito de definir uma rota para o caminho-de-ferro ao longo do 38º paralelo. Esta acabará tragicamente com a morte de cerca de um terço dos seus membros , resultado de más opções perante a dureza do inverno.
Em 1853, empreenderá um quinta e última expedição igualmente destinada a estabelecer um percurso para o caminho-de-ferro. Será nesta que participará Solomon Nunes Carvalho como fotógrafo. John Charles Frémont, terá contactado Solomon com o intuito de documentar o percurso e, desta forma, garantir credibilidade às descrições dos relatório que pretendia realizar posteriormente. Era prática corrente as expedições fazerem-se documentar com o trabalho de artistas que desenhavam as paisagens percorridas e os povos encontrados, mas esta documentação era por vezes alvo de desconfiança, atribuindo-se muito do desenhado à fantasia dos artistas. Frémont tentara ele próprio realizar daguerreótipos, mas fora incapaz de obter resultados aceitáveis. O recurso a Solomon acabou por ser uma opção mais fiável. Já o que levou Solomon, um estabelecido fotógrafo e artista, homem casado e pai, a aceitar tal proposta, arriscada e sem grande proveito aparente, não é claro nem para o próprio, que atribui a aceitação a um ímpeto não particularmente reflectido.
Solomon Nunes Carvalho, para além de fotógrafo da expedição, acabará por ser o verdadeiro cronista da mesma, dado que o projectado relatório de Frémont nunca chegará a ser concluído. Ao longo da expedição, no Outono de 1853 e inverno de 1854, tomará notas e registos até ser finalmente deixado no povoado Mórmon de Parowan, no Utah, bastante debilitado e em risco de vida. Destas anotações e das que tomará até finalmente atingir a Califórnia, já por sua conta, nascerá o livro” Incidents of Travel and Adventure in the Far West”, com o subtítulo” With Col. Fremont's Last Expedition”, concluído em 1856 e publicado no ano seguinte.
Esta obra é uma narração, na primeira pessoa, das ocorrências, dos lugares e dos pensamentos vividos. Oscila entre a enumeração e o picaresco, e é um fabuloso manancial de informação para que investiga a História norte-americana. O simples facto de percorrer o território de um país em construção permitiu a Carvalho, um burguês citadino e judeu praticante, ser testemunha de momentos iniciais e derradeiros, transitar em alguns dias apenas de provações quase fatais para o convívio e o apreço das elites, conhecer povos e culturas que definhavam e se extinguiam, e outros que se edificavam ou se redefiniam.
De John Charles Frémont, Solomon transmitirá uma descrição permanentemente elogiosa, não hesitando em apontá-lo como um dos homens mais merecedores de ascender à presidência dos Estados-Unidos (crê-se que a publicação se deu num quadro de apoio à candidatura do explorador, e a obra é mesmo dedicada à sua esposa, Jessie Benton Fremont). Mas este tom  é contradito pela própria natureza dos factos descritos. Frémont, revela-se neles um homem distante, inquestionável, que se vê superior, mas que em boa medida é incapaz de disciplinar os membros da expedição, de planear eficazmente, e de conduzir com segurança os que o acompanham. É impetuoso, arrisca desnecessariamente e decide sem consultar. Lembra, de certa forma, a figura de António de faria, da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto- venerado e respeitado além do seu real valor, arrisca quem o acompanha.
O livro inicia-se com o convite a Solomon, a aceitação deste e a partida à pressa, com equipamento impróprio e improvisado pelo próprio fotografo. Descreve Carvalho a resistência dos muleteiros ao seu trabalho que, para eles, atrasava a expedição. Descreve sabotagens e roubos. Não esconde a profunda admiração pelos guias índios Lenape, ou Delaware. Observa a espantosa resistência das mulas mexicanas, perante a fragilidade revelada pelos cavalos que acabará por o fazer percorrer boa parte do percurso a pé, ao ponto do seu calçado se desfazer. Regista a profunda diversidade e complexidade das Nações índias, do orgulho e poder dos Cheyenes, em plena guerra com os Pawnees, à miséria extrema dos Piede, que sobreviviam semi-nus tentando trocar cobras e lagartos por vestuário e outros artigos. Testemunha a conferência entre o governador do Utah,Bringham Young, e o chefe Wakara, dos índios Ute, com vista a acabar com uma confusa guerra entre mórmones, mericats ( aventureiros americanos não mormons, que percorriam o Utah) e os Ute.
Vive e descreve realidades extremas e novas. Observa as imensas manadas de bisontes e fotografa-as. Percorre montanhas cobertas de neve, sob temperaturas negativas. Sobrevive dois meses comendo a carne das mulas e dos cavalos sacrificados, e de porcos-espinho abatidos pelos guias. Quase morre de disenteria e de exposição ao frio. É deixado para trás a convalescer, sem o equipamento fotográfico, levado por Frémont, no meio de colonos mórmones. Observa e discorda do sistema de esposas espirituais, nesse tempo em que a poligamia era doutrinária na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Com equipamento cedido pinta retratos de governadores, e de outras figuras influentes, dos estados do Oeste. Atravessa desertos e lagos secos. Encontra figuras rupestres e ossos fossilizados de animais pré-históricos. Cruza-se com pesquisadores de ouro. Permanece em Oásis, encontra fontes envenenadas com animais mortos e aflorações de água densa que não permitem a imersão. Conhece as nascentes cidades de Los Angeles e San Francisco, onde assiste à omnipresença do Jogo como força destrutiva, e a uma criminalidade assustadoramente alta, ceifando maioritariamente índios e mexicanos. Bebe o vinho branco da Califórnia, feito pelas famílias ricas de origem espanhola que transitam da soberania mexicana para América sem perder privilégios e poder.
Nas suas peregrinações ( a palavra é dele, usa-o no livro) encontra e relata um Oeste bem mais complexo e rico do que aquele que nos chegou mastigado pelo cinema norte-americano (a mitificação opera simplificando, e o Oeste dos filmes é geralmente tão mítico quanto o glorioso Portugal das Descobertas). Depois, retorna ao Leste com a ajuda dos irmãos Labatt, da diminuta comunidade judia de Los Angeles, e remete-se nova e permanentemente para a sua condição urbana e recatada, deixando-nos a espantosa aventura de um judeu de origem portuguesa, que antes de saber montar a cavalo, aceitou atravessar um continente para fotografar o que não se conhecia.

Autor desconhecido,Solomon Nunes Carvalho e o seu filho David Nunes ,1872
imagem obtida aqui

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domingo, 11 de julho de 2010

Faroeste

Não que daí advenha grande mal ao mundo, mas creio pertencer à última geração que brincou aos cowboys e aos índios. O primeiro filme que vi num cinema, vi-o num cinema a sério (daqueles com plateia e balcão, e várias centenas de lugares) e foi uma obra inenarrável e boçal, exemplo típico da agonia do western. Tratava-se de “Trinitá, o cowboy insolente”.
Adorei! Eu, o meu irmão mais novo e o meu avô, que nos levou! Nós e a torrente de gente que encheu o cinema nessa noite! Uma torrente que comia pipas (sementes de girassol) e não pipocas. Que assobiava, gritava e aplaudia a cada murro, salto e pirueta de Bud Spencer e terence Hill, e que, no entretanto, provocava os vizinhos do lado e de baixo, atirando as cascas das pipas. A saída do cinema deu-se em apoteose, com profunda satisfação e imersos numa maralha que dispersou a pé, ou montada em motorizadas de escape livre e de outra artilharia. Tudo num enorme banzé, próprio do Portugal pós-PREC e ainda pré-CEE e pré-ASAE .
Mas os "Cóbois" há muito que haviam entrado no meu vocabulário e imaginário. Creio que mesmo antes de os meus pais comprarem a primeira televisão, e de eu começar aí a ver os filmes do John Wayne e companhia, já brincaria com o meu irmão mais velho, com pistolas idealizadas a partir de ramos secos, e arcos e setas manhosas criadas por nós.
O que nos levaria a nós, moçanhada mais ou menos europeia, em fins do século vinte, a imaginarmo-nos no imensamente distante Faroeste norte-americano? O nosso século dezanove não foi livre de peripécias e de foras-da-lei. Também tivemos uma guerra civil, então. E bandidos que assaltavam carruagens. Mas o facto é que ninguém, que eu me lembre, teve a ideia de brincar aos liberais e miguelistas (de que aliás nunca ouvíramos falar), nem ao Zé-do-telhado. Só o facto de não termos, na serra algarvia, índios e de o nosso Cinema ser incapaz de fazer filmes que nos empolgassem, poderia explicar a capacidade de nos imaginarmos numa envoltura que nos era totalmente alheia, pensei durante muito tempo.
Foi com grande divertimento que, há uns anos, quando via um documentário sobre a diáspora açoriana, descobri que afinal o Faroeste até tinha qualquer coisa a ver connosco. Para meu espanto descobri que o criador de gado do Novo México que denunciou a localização de Billy "The Kid" ao xerife Pat Garrett era português. Que um tal John Phillips, batedor do exército da União (que conseguiu furar o cerco que dois mil índios Sioux, Cheyenne e Arapahos mantinham a Fort Phil Kearny, e garantir a ajuda que salvou noventa soldados) era na realidade Manuel Filipe Cardoso, nascido no lugar de Terras, Lajes do Pico, a 28 de Abril de 1832. Descobri que outros nomes, como John Vey ou John Enos, não eram senão a denominação americana de João da Cunha Veiga e João Ignácio d’Oliveira. O distante Oeste não tinha sido distante o suficiente para impedir que muitos portugueses, açorianos na sua maioria, lá chegassem fugidos da miséria nacional e em busca do ouro e do sucesso. Fizeram-no à sua maneira, no nosso modo Low Profile. San Francisco desenvolveu-se alimentado por hortelões portugueses.

Mais recentemente, navegando no sítio da Biblioteca do congresso dos Estados-Unidos, deparei-me com um nome estranhamente português - Solomon Nunes Carvalho.
Pesquisei um pouco. O nome era, de facto, português. Homem de negócios, pintor, fotógrafo e inventor, Nunes carvalho nasceu na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, com direito e deveres de cidadania. Descrevia-se como um republicano ( enquanto ideal de governo, não enquanto opção partidária). Pertencia porém a uma comunidade que sempre definiu como portuguesa, e que dessa definição estranhamente não abdicou, apesar da forma como a nação de origem a tratou. Nunes Carvalho provinha de uma família da elite cultural, comercial e técnica judaica portuguesa, das que, em vagas sucessivas, foram sendo forçadas ao exílio e ao desterro em lugares tão variados quanto Amesterdão, Londres, Salónica, Istambul ou o Caribe.
É o facto de pertencer a uma comunidade com peso cultural, e económico, que explica a capacidade de fazer prevalecer um nome tão impronunciável para um americano, como é o apelido Carvalho ( é relevantemente divertido ver como, em vários textos de língua inglesa, os autores se sentem na obrigação de colocar, entre parêntesis, a forma correcta de o pronunciar- a qual, segundo eles, será qualquer coisa como cárvaio). Ao contrário do grosso da restante diáspora portuguesa, a família de carvalho não era analfabeta , nem fugia da miséria e da fome. Não estivera, como muitos milhares de emigrantes, à mercê da ignorância e prepotência de funcionários que anglicizavam a eito nomes portugueses, italianos, polacos ou gregos.
Solomon Nunes Carvalho notabilizou-se como fotógrafo daguerreótipista , e foi, tão somente, o primeiro homem a fotografar os imensos espaços, as fabulosas paisagens, e as figuras do Oeste Americano.



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Solomon Nunes Carvalho, auto-retrato, cerca de 1850
imagem obtida aqui

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