segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Discurso sobre a Coerência

Joel Meyerowitz,
Times Square, Nova Iorque, EUA, 1963
imagem obtida aqui
Por vezes, acredito piamente que o recurso ao efeito anedótico é uma opção que se esgota rapidamente. Que a prazo se torna desengraçada e desinteressante.
Outras vezes, estranhamente, o caricato diverte-me solenemente e elevo-o ao meu Olimpo.

Algumas vezes, acho que a Coerência é uma qualidade altamente sobrevalorizada.
Outras porém, penso exactamente o contrário...

Joel Meyerowitz,
Times Square, Nova Iorque, EUA, 1965
imagem obtida aqui

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terça-feira, 19 de novembro de 2013

ONTOS : Um mundo num salpico de água

Há gente que compara o mundo do infinitamente grande ao mundo infinitamente pequeno. Quem especule que o nosso universo poderá ser algo como um átomo num outro universo infinitamente maior. Que na ponta dum alfinete poderá residir uma outra existência que nos escapa.

Mas mesmo quem não é dado a estas divagações pode sentir-se tentado a concordar, olhando para as fotos de David Liittschwager. Sim, parece existir um mundo inteiro num salpico de água marinha.

David Liittschwager,
Salpico de água marinha,
Havai, E.U.A., 2006
imagem obtida aqui

David Liittschwager,
Salpico de água marinha (pormenor),
Havai, E.U.A., 2006
imagem obtida aqui

David Liittschwager,
Salpico de água marinha (pormenor),
Havai, E.U.A., 2006
imagem obtida aqui

David Liittschwager,
Salpico de água marinha (pormenor),
Havai, E.U.A., 2006
imagem obtida aqui

David Liittschwager,
Salpico de água marinha (pormenor),
Havai, E.U.A., 2006
imagem obtida aqui

David Liittschwager,
Salpico de água marinha (pormenor),
Havai, E.U.A., 2006
imagem obtida aqui


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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Graça nenhuma

Buster Keaton, figura maior da comédia e do cinema mudo americanos, esteve durante muitos anos, por contrato, proibido de rir nas fotografias.
Mas, mesmo muitos anos depois de se ver livre de tais cláusulas, os fotógrafos não lhe pediam que sorrisse.
O seu sorriso, aparentemente, não tinha graça nenhuma...



Bert Stern, Buster Keaton, 1958
imagem obtida aqui


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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A prova

Desde o seu momento inicial, a Fotografia carregou em si um paradoxo. Apesar de resultar duma marca do real num suporte bidimensional, registada e fixada por um processo físico-químico, não mantinha uma relação inequívoca com a nossa percepção da realidade. Em larga medida, continuava a ser representação, não era necessariamente um veículo da Verdade.
Porém esse equívoco existiu sempre. Por serem imagens obtidas cientificamente, cedo se assumiu que podiam ser usadas como provas, fosse na ciência, fosse na justiça, fosse no jornalismo.

Mesmo hoje, quando o nosso olhar não é tão ingénuo em relação ao meio fotográfico, continua a ser fácil, muito fácil, confundir registo fotográfico com prova. E, por vezes, de forma grosseira e absurda.

Solomon Butcher foi um pioneiro americano. Quando o governo decidiu conceder concessões de terreno nas grandes planícies do Midwest, Butcher abandonou um emprego de vendedor e, com o pai e os irmãos, dirigiu-se para lá. Mas, duas semanas depois apenas, apercebeu-se que não estava talhado para ser um agricultor naquelas paragens agrestes e regressou ao Leste para estudar Medicina. Não chegaria porém ao fim do curso. Pouco depois, já casado, retornaria ao Nebraska e à casa do pai, onde após algum tempo se tornaria no fotógrafo local da região de Custer.
Sempre lutando com a ruína financeira, movendo-se de localidade em localidade, Solomon Custer acabaria por desenvolver um estranho empreendimento, anos a fio. Um projecto que ele acreditava que o resgataria da pobreza: fazer o retrato das grandes planícies durante o processo de povoamento e publicá-lo.

Solomon Butcher,
A família de Sylvester Rawding
defronte da sua casa de terra,
Nebraska, E.U.A.,1886
imagem obtida aqui

Durante décadas, calcorreou as planícies fotografando os seus habitantes com ímpeto documental assinalável. Muitos anos antes da ideia de série fotográfica se tornar incontornável, Solomon Custer, produziu de forma sistemática imagens, sem  veleidades "literárias", que expunham numa mesma lógica os colonos e os seus pertences.
Se a sua empresa não o libertou da ruína financeira, levando-o mesmo a acreditar em leito de morte que a sua vida fora um falhanço, a verdade é graças a ela existe hoje um registo extenso único, sereno e desapaixonado, desse momento da expansão americana.

Habituados a esse tom objectivo, alguns historiadores americanos usaram uma das suas imagens como evidência histórica do antagonismo e conflito entre os novos colonos e os rancheiros que se procuravam impor no uso das vastas planícies.

Solomon Butcher,

Colonos a tomarem a lei nas suas mãos,
Nebraska, E.U.A., cerca de 1900
imagem obtida aqui

Nela, um grupo de colonos de rosto tapado corta a vedação de arame, tomando a lei nas suas próprias mãos. Para tornar a coisa clara, o próprio Butcher inscreveu na imagem uma legenda descrevendo a sua natureza , a localização e a sua propriedade intelectual.

Ora, o interessante disto é que, pese embora o reconhecido carácter documental de Solomon Butcher, esta imagem em particular é uma encenação. E mais, é uma encenação grosseira e óbvia, feita por um fotógrafo sem meios. Um olhar atento, aproximado, detecta o que terá escapado a alguns historiadores: os colonos mascarados de Butcher tentam cortar o arame com tesouras falsas de madeira.

Solomon Butcher,

Colonos a tomarem a lei nas suas mãos, pormenor
Nebraska, E.U.A., cerca de 1900
imagem obtida aqui


Solomon Butcher,

Colonos a tomarem a lei nas suas mãos, pormenor
Nebraska, E.U.A., cerca de 1900
imagem obtida aqui


O homem que nos deixou o melhor registo factual da colonização do Midwest, deixou-nos também a prova de que a relação da Fotografia com a Verdade é complexa e sinuosa.
Há que sempre desconfiar.


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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Em busca do sono

A americana Emma Powell sempre teve dificuldade em adormecer. 
Quando era pequena, para a embalar, o pai contava-lhe longas histórias que inventava, partindo de lugares familiares e terminando num universo onírico de cavernas, florestas e estranhos oceanos.
Na sua série "In Search of Sleep", Powell trabalha essa sua difícil relação com o sono, recriando o mundo fantástico e difuso dessas histórias.
Fá-lo usando a arcaica técnica do cianótipo, que permite um aspecto texturado e pouco definido. Os azuis com que este processo fotográfico produz as imagens são depois trabalhados com banhos de chá e vinho (substâncias que têm uma relação particular com o sono) para os esbater e obter tonalidades mais quentes.


Emma Powell, Urso,
da série In Search of Sleep, sem data
imagem obtida aqui

Emma Powell, A chave,
da série In Search of Sleep, sem data
imagem obtida aqui

Emma Powell, Contra a tempestade,
da série In Search of Sleep, sem data
imagem obtida aqui

Emma Powell, Seca,
da série In Search of Sleep, sem data
imagem obtida aqui

Emma Powell, Subir,
da série In Search of Sleep, sem data
imagem obtida aqui


Emma Powell, Ladrão,
da série In Search of Sleep, sem data
imagem obtida aqui

Emma Powell, Vazio,
da série In Search of Sleep, sem data
imagem obtida aqui

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domingo, 20 de outubro de 2013

A Lisboa nocturna dos irmãos Novais

O Estado Novo português não nutria grande afeição pela noite. A sua natureza antidemocrática, conservadora e censória fazia com que a visse como um local de transgressões, logo como não particularmente digna de visibilidade.
É neste contexto que as imagens de dois irmãos, Mário e Horácio Novais, fotógrafos comerciais, se revelam particularmente interessantes, facultando a possibilidade de olhar para uma rara Lisboa nocturna, capital de um país que se queria diurno, claro e bem-comportado.

Leia mais na OBVIOUS.

Estúdio Mário Novais,
Rua Augusta, Lisboa, sem data
imagem obtida aqui

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domingo, 6 de outubro de 2013

A modelo do senhor Steinberg



Muitas vezes, um mistério quase sem detalhes é bem mais interessante que uma história bem esclarecida.

Os Tyne&Wear Archives&Museums são uma instituição pública local inglesa que tem como missão cuidar e expor o património da área metropolitana de Newcastle. No âmbito das suas responsabilidades coube-lhes receber o espólio de um comum estúdio de fotografia, "Turners Photography Ltd", outrora estabelecido nos números 7 a 15 de Pink Lane, uma artéria desta cidade britânica.

No meio do mais corrente trabalho que um estúdio com estas característica é suposto produzir, encontrou-se um misterioso e pequeno conjunto de imagens intituladas "A Modelo do sr. Steinberg". Sobre as imagens, de 1949 e de inesperado conteúdo , nada mais se sabe.

Mas tudo se pode especular, e imaginar um estranho mundo subterrâneo, alternativo, fora do padrão, na muito formal sociedade britânica do imediato segundo pós-guerra, não é certamente das coisas mais descabidas que se podem fazer. E é definitivamente uma mais divertidas...

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui

Turners Photography Ltd,
A modelo do senhor Steinberg,
Newcastle, Inglaterra,
22 de Janeiro de 1949
imagem obtida aqui
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