sexta-feira, 28 de junho de 2024

No Metropolitano, a caminho do Primeiro de Maio

Diogo Margarido fotografou as ruas de Lisboa nos Primeiros de Maio de 1974 e de 1975.

Fotografou a mesma cidade em dois mundos diferentes.

Em 1974, registou a vertigem de um entusiasmo colectivo, a euforia que extravasava da longa pressão contida por uma rolha que a revolução uns dias antes fizera saltar. As imagens desse ano trazem-nos uma suposta unidade, um optimismo que se revelaria ingénuo.

No ano seguinte, há uma patente tensão, o pressentimento de um conflito eminente. O optimismo geral desvanecera-se, a ilusão de unidade esfumara-se.

Maio de 1975 seguira-se a meses de polarização e antagonismo. Seguira-se aos incidentes de 11 de março que haviam feito deslizar o delicado equilíbrio das forças para uma opção revolucionária. Seguira-se às difíceis e adiadas eleições de Abril, realizadas final e simbolicamente a 25, um ano após a queda do Estado Novo, e em que os partidos apologistas da via mais alinhada com a democracia liberal ganham uma clara maioria, em aparente contraciclo.

As fotografias de Margarido desses primeiros de Maio oscilam entre o registo documental (dir-se-ia quase fotojornalístico) e uma abordagem mais livre, de quem tenta capturar o fluir e o sentimento dos dias.

De 1974, vêm-nos esta imagem pouco ortodoxa, difícil, sub-exposta, contrastada e granulosa, da multidão que se dirige para a primeira manifestação do primeiro de Maio.
Parece habitar a imagem o poema que Sophia de Mello Breyner Andresen dedicou à revolução que a tornou possível. A escuridão subterrânea e a sua saída parecem citar a esperada madrugada de onde se emergiu da noite e do silêncio.

E parece habitar igualmente nela a imagem a incerteza dos tempos que se seguiriam.

Diogo Margarido, No Metropolitano, a caminho do Primeiro de Maio, Lisboa, Portugal, 1974

Diogo Margarido, 

No Metropolitano, a caminho do Primeiro de Maio, 

Lisboa, Portugal, 1974

Texto recuperado de uma publicação, de 1 de Maio de 2021, do descontinuado site Efecetera

sexta-feira, 24 de abril de 2020

O meu cromo

Em miúdo, conheci a figura de Darwin ( através duma das boas séries da BBC que a RTP passava em horário nobre ) ao mesmo tempo que a febre do cromos da bola varria a minha turma da primária.

Os cromos de eleição, à época, eram o Humberto Coelho, ou Manuel Fernandes, ou o Nené ou o Chalana.

Sinal duma estranha cromice, o meu cromo de eleição era o senhor Darwin, que fintara dogmas e crendice com observação e razão.

E com muita oportunidade, como o Chalana.

Jonathan Bailey,
Charles Darwin,
Inglaterra, cerca de 1880

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Brilhantes incorrecções

Há, por vezes, perguntas, que sendo de pertinência inquestionável, são de resposta muito difícil, quase impossível.
À questão ” O que é uma boa fotografia?”, com a qual quem ensina fotografia é incessantemente confrontado, muitos têm tentado acercar-se da resposta certa.

Uma primeira tentação é procurar a resposta pela via técnica. Dissecar imagens pela composição, pela exposição correcta, pela nitidez, pelo uso da profundidade de campo.
Mas é uma aproximação primária, de primeiro contacto. A fotografia insere-se no campo da linguagem. Tal como para escrever, é preciso saber a ortografia,a gramática e a sintaxe. Mas um texto sem erros não é necessariamente um grande texto. É somente um texto sem erros.
A poética vive muitas vezes de forçar os limites das regras, de tornar o erro um exercício significante.

Defronte de uma boa, de uma grande imagem, sabemos muitas vezes que ela está além de uma prática correcta. A forma como nos afecta ultrapassa as regras. Pode ser uma imagem tecnicamente certa, mas não é exactamente isso que a separa das demais imagens correctas e medíocres.
E, muito mais difícil de explicar, uma boa fotografia pode ser simplesmente uma imagem brilhantemente “incorrecta”.



Machiel Botman,
Morcego,
2009



terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Triste e ligeiramente feliz

O Natal, contrariamente à imagem de felicidade geral e higienizada criada para a cultura popular da sociedade de consumo, em larga medida de origem norte-americana, tem decerto variações e gradações.

No Norte da Europa, mitologias antigas, pré-cristãs, fazem aparecer (cada vez menos) um figura demoníaca que, antes do simpático Pai natal, percorre as ruas em busca daqueles que não se portaram bem. O Krampus da Alemanha, por exemplo, de aparência semelhante a um sátiro, garante uma boa noite de medo, ou terror, a todos os meninos maus, dada a possibilidade de serem levados no seu saco.

Pelo sul da Europa, o Natal era, há não muito tempo, e para a maioria da população, um contraponto de relativa abundância num quotidiano de miséria e dificuldade.

Talvez por isso nos seja tão comovedora esta imagem do Natal, triste e ligeiramente feliz, apresentado por Francesc Català-Roca, grande fotógrafo de Barcelona, e um dos melhores documentaristas da Espanha dos tempos difíceis.


Francesc Català-Roca,
Chegou o Natal,
Espanha, cerca de 1950
imagem obtida aqui

sábado, 28 de dezembro de 2019

A revelação do Mundo

Os textos de Martin Heidegger, fortemente ancorados na linguagem (leia-se: na língua alemã) têm tanto de hermético como de marcante.

Muitas vezes, beneméritos, como Gianni Vattimo, fizeram o favor de intermediar e facilitar o acesso ao difícil Heidegger. Um belíssimo texto do italiano, em tempos traduzido para Português numa edição da Relógio D’Água, apresentava-nos dois conceitos de Heidegger, traduzidos para “Terra” e “Mundo”. Terra é a realidade exterior ao Homem, que lhe é pré-existente e à qual não pode aceder na totalidade. Mundo será a abertura pela qual o ser humano se relaciona com essa realidade, limitado pela História, pela Biologia e pela Linguagem.Por vezes, os grandes autores, os grandes poetas, provocam um estiramento dessa abertura, alargando os horizontes cognitivos e perceptivos da humanidade. Cria-se mundo nesses momentos de revelação.

Esta maravilhosa e poética concepção adequa-se perfeitamente ao fotógrafo suiço-americano Robert Frank, recentemente falecido. A Fotografia de Frank, dura, áspera, verdadeira, não teve sucesso fácil e rápido. “The americans“, fotolivro e projecto fundador, totalmente fora do cânone, foi acolhido com frieza ou, mais frequentemente, com desprezo. Mas a Fotografia de Robert Frank acabaria por se afirmar como profundamente marcante, e muita da mais interessante fotografia contemporânea radica nela.

Chamar Frank para o panteão dos grandes poetas que alargam a experiência humana não é um exercício fútil. O escritor Jack Kerouac, que escreveu o texto introdutório de “The americans“, teve logo aí essa intuição : “Robert Frank, suíço, discreto, simpático, com aquela pequena câmara que ergue e dispara, e que com uma mão extraiu para a película um triste poema da América , toma o seu lugar entre os poetas trágicos do mundo”.

Robert Frank,
Paris,
França,1949
imagem obtida aqui

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A fulminante empatia de Voula Papaïoannou

Voula Papaïoannou possivelmente não será dos nomes mais falados da fotografia, mas é sem dúvida uma autora que urge conhecer.

A fotógrafa grega, que começou por uma aproximação à fotografia através da paisagem e da captura da riqueza arqueológica do seu país natal, começou com o início da segunda guerra mundial a fotografar com fulminante empatia a dureza da vida sob a ocupação alemã. Tendo registado a fome produzida pelo deliberado saque dos ocupantes, seguiria fotografando, depois da sua derrota, e já ao serviço das Nações Unidas, o sofrimento e dor dos gregos na guerra civil. Mas depois, nos anos que se seguiriam, seria também ela capaz de criar imagens de um optimismo e humanismo únicos, de um povo habituado a lidar histórica e intimamente com a dificuldade e a dureza.

Imagens com as quais os portugueses têm decerto uma natural afinidade.


Voula Papaïoannou,
Mulheres carregando pedra,
Grécia, cerca de 1945
imagem obtida
aqui

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Vestígios

Entre as culturas animistas, são frequentes as cerimónias em que se agradece aos espíritos da natureza o usufruto da sua riqueza. Os humanos alimentam-se dos frutos e dos seres do mundo, e é pertinente esta homenagem, não vão os espíritos zangarem-se e recusarem a abundância necessária. Nalguns casos, a cerimónia tem mesmo o carácter dum pedido de desculpa.

Entre a cultura cristã, esta riqueza é entendida como uma oferta do criador ao homem, mas embebidos na sua prática permanecem vestígios de festividades prévias, pagãs, em que se festeja o sucesso das colheitas, ou em que se praticam ritos sobre os animais, agradecendo a sua (involuntária) generosidade e tentando prevenir a sua futura escassez.


Tal qual os locais arqueológicos, os fenómenos culturais contêm camadas, e a naturalidade que é introduzida pela pertença cultural é apenas a superfície que oculta a riqueza subjacente.


Diogo Margarido,
Benção dos borregos,
Castelo de Vide, Portugal, 1972
imagem cedida por cortesia do autor