terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Contrabando de Taryn Simon

Através do Photojournal fiquei a conhecer a série fotográfica Contraband, de 2010,  da norte-americana Taryn Simon, onde regista objectos retidos pela alfandega dos Estados Unidos, no aeroporto internacional JFK, em Nova Iorque, a sua cidade natal.
Dela conhecia a série The Innocents, mais antiga, e que partilha com Contraband a temática da relação entre a Fotografia e os processos de investigação criminal. Formalmente  simples, as imagens de Contraband apresentam toda uma panoplia de artigos apreendidos a passageiros ou retirados do interior de correspondência. Isolados, ou agrupados em conjuntos de objectos iguais ou semelhantes, foram fotografados cuidadosamente num fundo neutro claro.
Estas imagens parecem querer evitar associações, ser literais, ser de uma clareza fria e científica.
Não o podem conseguir plenamente. Observando-se muitas delas, saltam questões. O porquê de transportar gordura animal, e de tal ser ilegal. Qual a eficàcia de uma pasta de dentes feita a partir de esterco de cabra. O porquê de transportar partes de animais mortos, muitas vezes orgãos sexuais. O porquê de transportar pós não identificáveis.
Tanto quanto evidenciar actuações ilícitas, como contrafacções e tráfico de substâncias ilegais, esta série centrada nas apreensões registadas em 2009 no JFK demonstra o tremendo choque entre a cultura americana e os hábitos e crenças de muitos dos que procuram sediar-se em solo dos Estados Unidos.

Taryn Simon, Gordura, série Contraband, 2010
Imagem obtida aqui


Taryn Simon, Toucinho proveniente da Ucrânia,
série Contraband, 2010
Imagem obtida aqui





___________________________________________________________

domingo, 18 de setembro de 2011

Olha o boneco!

Entre a interessante quantidade de coisas que Félix Nadar e os seus ajudantes levaram para o subsolo parisiense nos Outonos de 1861 e 1864, e nos Invernos de 1862 e 1865, encontravam-se manequins. A razão da presença destes fracos substitutos de gente, entre os recursos técnicos que o fotógrafo fez transportar pelas catacumbas e pelos esgotos, prendia-se com o seu desejo de colmatar uma falha que detectara - em muitos dos registos fotográficos com que os exploradores novecentistas apresentavam outros espaços de espanto verificava-se a ausência de uma noção de escala.
Para os desenhadores e pintores, a resolução deste problema não oferecia grande dificuldade. Junto ao monumento e à ruína pitoresca, num recanto da paisagem desafiadora, colocava-se a representação de algo familiar, normalmente uma figura humana. Este recurso técnico esclarecia todos acerca da dimensão da coisa representada. Nadar, agente de uma disciplina nascente, a Fotografia, socorre-se do saber acumulado da Arte Ocidental e tenta reproduzir a solução nas catacumbas e nos esgotos de Paris. Contra si tem as limitações técnicas de então: emulsões pouco sensíveis e iluminação artificial muito limitada. Com exposições de dezoito minutos, está fora de questão obter um retrato de figura humana com a qualidade que o caracteriza. Mesmo com muita boa vontade e com as ferramentas de estabilização do modelo, comuns na época, objectos metálicos que constrangem os movimentos segurando o retratado pelas costas e pelo pescoço, o resultado final é necessariamente um figura tremida. A solução de nadar é fazer uso de manequins realistas, com roupas verdadeiras e em poses verosímeis. Espera assim obter uma justa representação documental dos espaços subterrâneos.
Olhando agora estas imagens, com o olhar de mais de quase duas centenas de anos de Fotografia (um olhar muito menos ingénuo que o dos contemporâneos de Nadar), o resultado distancia-se bastante dos propósitos do fotógrafo. A colocação do manequim dá às imagens um carácter de farsa, de falsificação, que corrói as suas intenções documentais. Gera um ruído que perturba a leitura, afasta as imagens do campo da representação da verdade. Embora verdadeiras imagens das catacumbas e dos esgotos, estas fotografias tendem a ser lidas muito mais como reconstituições, sejam didácticas (como as dos museus), sejam lúdicas (como as dos parques de diversões e feiras, veja-se a título de exemplo, imagens de figuras dos túneis do horror ). Enquanto documento, estes trabalhos são imensamente mais fracos que outras fotografias de Nadar, dos mesmos espaços mas sem o recurso a manequins.

Félix Nadar, Catacumbas de Paris, 1861/1862
imagem obtida aqui

Félix Nadar, Esgotos de Paris, 1864/1865
imagem obtida aqui

Radicalmente diferente nos resultados e na experiência é trabalho de Hiroshi Sugimoto, na série Portraits. Realizada nos finais da década de noventa do século passado, esta série do fotógrafo japonês parte da possibilidade de fotografar a figura de cera de Henrique VIII de Inglaterra, criada pelos artesão do Museu de cera da Madame Tussaud, em Londres. Trabalhada com enorme profundidade e detalhe a partir das pinturas de Hans Holbein, o Novo, a escultura traz-nos com realismo o polémico rei. E permitiu a Sugimoto iniciar uma série em que trabalha alguns dos seus temas de eleição - a natureza da Fotografia e os seus limites, a realidade e a sua percepção, a apreensão dos conceitos de vivo e morto. Partindo de Henrique VIII, utilizando técnicas de iluminação que reproduzem a luz com que Hans Holbein terá trabalhado, fotografou outras figuras do passado anterior à Fotografia, recuperadas da pintura europeia pelos artesãos do Madame Tussaud, e por fim, as estátuas de cera de personalidades contemporâneas de Sugimoto, como Fidel Castro e o imperador Hirohito.
O resultado é perturbador. Trabalhando com o mesmo material de Nadar, simulacros da figura humana, o produto e os objectivos são diametralmente opostos. Ao passo que nadar pretendia fornecer uma melhor percepção da realidade que assistia, Sugimoto parece querer confrontar-nos com a nossa propensão para sermos iludidos, mesmo sabendo da impossibilidade do que nos é oferecido à vista. Vemos Henrique VIII fotografado, sabemo-lo morto muito antes do tempo da Fotografia, mas tendemos a vê-lo como verdadeiro. Oscila-se entre a percepção de um retrato fotográfico verdadeiro e a percepção de uma reprodução preto e branco de uma pintura (talvez por isso as imagens das estátuas de figuras históricas sejam as mais fortes da série). Ao contrário das imagens dos esgotos e das catacumbas, que apesar de verdadeiras nos soam falsas de imediato, os retratos de Sugimoto, apesar de os sabermos improváveis, parecem-nos verdadeiros.

Hiroshi Sugimoto, Henrique VIII,
série Portraits, 1999
imagem obtida aqui
___________________________________________________________ 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Uma outra cidade

Paris tem uma notável relação com a Fotografia, começando pelo cognome de cidade luz. Este terá começado por ser uma associação figurativa (a capital francesa era o centro da revolução cultural do Iluminismo) no séc. XVIII, e que terá passado a uma asserção literal quando foi aí instalada a primeira grande rede de iluminação pública a gás. Há que ter depois em conta o facto de nela se terem passado alguns dos episódios mais marcantes da invenção do processo fotográfico, estando sediados aí (ou ao seu redor) alguns dos pioneiros mais marcantes, como Louis-Jacques Mandé Daguerre, Hippolyte Bayard e Abel Niepce de Saint-Victor. Por último, muitas são as imagens de Paris que entraram no imaginário popular por via fotográfica, cujo exemplo máximo será talvez “Le baiser de l'hôtel de ville” de Robert Doisneau, imagem de 1950 em que um casal se beija numa larga e movimentada via parisiense.
Porém, a Paris dos pioneiros da Fotografia era uma cidade bastante diferente daquela que temos em mente hoje. As ruas que Daguerre e Bayard percorriam enquanto matutavam nos sais de prata, eram as de uma pólis de raiz medieval que até ao século doze se fora improvisando e construindo, consumindo a pedra das construções da cidade romana que a precedeu. E que partir de então se continuará a expandir, movida sobretudo por inércia e não tanto por planos, e de uma forma estranhamente autofágica. Esgotada a fonte das construções romanas, os parisienses escavam as entranhas da cidade, em pedreiras subterrâneas que alimentarão com gesso e calcário, durante séculos, o fulgor construtivo da capital francesa. Sem controlo e sem projecto, as galerias alastram-se por quilómetros, criando uma verdadeira cidade debaixo da cidade.
Nem sempre seguros, nem sempre cuidados, os subterrâneos revelaram-se por vezes uma fonte de catástrofe. Pequenos desabamentos prenunciaram o enorme colapso de 27 de Julho de 1778, em a rua Boyer foi engolida pelo próprio solo. Perante o sucedido, Luís XVI (exacto, o que mais tarde perderá a cabeça na guilhotina) ordena a criação do corpo de inspectores das pedreiras liderado pelo arquitecto do rei, Charles Axel Guillaumot. É iniciado então um trabalho gigantesco, que incluirá a inspecção, inventariação e cartografia das galerias, o escoramento das instáveis pedreiras e a criação de acessos adicionais para facilitar as vistorias e a conservação. Para facilitar a orientação, Guillaumot ordena a identificação das galerias e túneis mandando gravar nos seus extremos o nome da rua correspondente no plano superior.
A Paris subterrânea torna-se um espelho viário da paris das Luzes. E será assim até que, aquando da instauração do Segundo Império, se reunem as condições políticas e as ambições do rei e do prefeito do Sena, o Barão Georges-Eugène Haussmann, que levarão a cabo o que por várias vezes havia sido antes defendido – a construção de uma nova Paris. A velha Paris, de ruas caóticas e estreitas, insalubre, não era aceitável para os que defendiam que a capital deveria reflectir no seu traçado e construção a racionalidade da Modernidade. Pesou também a velha rivalidade com os ingleses, que por essa altura já haviam dotado Londres de um conjunto de Parques Públicos e de um amplo sistema de esgotos. Assim, de 1853 em diante iniciar-se-á a destruição e o renascimento da capital, trabalho que verdadeiramente só será concluído no final desse século, bem depois do estertor do segundo Império e do afastamento do barão.
Na década de 60 de oitocentos, quando os trabalhos estavam verdadeiramente a começar, foi contratado o fotógrafo Charles Marville para registar, para memória futura, a Paris em vias de desaparecer. Charles Marville, pseudónimo de Charles François Bossu, um pintor, gravador e ilustrador nascido em 1813, que mudara de mister aquando do aparecimento da fotografia, havia-se destacado da grande quantidade de fotógrafos da época ao se ter especializado na fotografia de obras de Arte e de Arquitectura, primeiro utilizando a técnica de negativos em papel salgado, depois chapas de vidro com colódio húmido.
Em 1858, inicia uma ligação formal com o município de Paris, fotografando o Bois de Boulogne, o recentemente renovado parque real, que se tornara um dos locais preferidos da burguesia parisiense. Este trabalho é, na prática, o início da enorme série de fotografias relacionada com a renovação da cidade, e como vimos, durante a década seguinte realizará cerca de 400 fotografias das ruas e becos que serão arrasados pela programada acção de Haussmann (que aliás lhe encomendará igualmente o retrato da nova cidade, numa outra sequência de imagens, que incluirão desde as novas igrejas e avenidas aos pitorescos urinóis).
O fotógrafo oficial de Paris fará assim uma abrangente recolha visual da Paris mutante do segundo império, mas o que mais nos impressiona é o corpo de imagens da cidade condenada. A ele devemos a fonte que permite as reconstruções cinematográficas realistas da cidade, em séries ou filmes. Graças a ele podemos, com propriedade, imaginar as ruas de Les misérables, de Vitor Hugo, onde Jean Valjean deambula ( no meu caso, por falta de imaginação, valjean parece-se sempre com Gérard Depardieu).

Charles Marville, paris; 1860/1870
Prova de albumina
imagem obtida aqui

Charles Marville,
Beco junto ao Mercado dos cavalos,Paris, 1860/1870
Prova de albumina
imagem obtida aqui

Uma das inesperadas consequências da renovação de Paris foi a de refocar a atenção dos parisienses, pelo menos de alguns, na cidade do Subsolo. Estranhamente para nós, criaturas do conforto e da higiene, a rede de esgotos criada então era para muitos dos burgueses citadinos uma atracção a visitar. Uma outra secção da Paris subterrânea ganha então renovada atenção, as catacumbas. No último quartel do séc. XVIII, tornou-se inadiável e imperativo resolver a situação dos sobrelotados cemitérios parisienses, que se tornavam um sério problema de saúde pública, tal era a quantidade de matéria em decomposição. Inseridos maioritariamente no espaço de igrejas, revelavam-se impossíveis de ampliar e impróprios de uma metrópole que crescia incessantemente. É decidida a criação de três enormes cemitérios nos arredores, e eliminação das pequenas necrópoles citadinas. Uma vez tomada a decisão, impõe-se decidir o que fazer dos restos mortais nelas existentes. Alexandre Lenoir, responsável policial parisiense, pensa nas pedreiras. Será o seu sucessor, Thiroux de Crosne, quem escolherá o local exacto e quem porá em acção o plano de transladação em 1786, com o apoio do corpo de inspectores das pedreiras. Até 1810, as pedreiras e galerias serão usadas como mero depósito até que Louis-Étienne Héricart de Thury, o sucessor de Guillaumot na chefia dos inspectores, decide dar maior dignidade à tarefa e tornar visitáveis os ossários. Inicia-se então a actual disposição das catacumbas, com as ossadas compostas e guarnecidas com as pedras das campas que foi possível recuperar.


Em 1861, Gaspard-Felix Tournachon, mais conhecido pelo seu pseudónimo Félix Nadar, visita os novos esgotos e decide, num impulso sem grande interesse comercial, fotografar o que solo de Paris escondia. Este arrojo era um óbvio desafio, dada a infância da técnica. Apesar de usar a técnica do colódio seco, mais propícia a aventuras no exterior, arrastar o equipamento e fazer imagens dos subterrâneos era estava que estava longe de ser fácil. E a menor das dificuldades não era, sem dúvida, a falta de Luz. Encontra-se, por vezes, a informação de que para resolver esta questão, Nadar terá sido um dos pioneiros do uso da ignição combinada de magnésio e cloreto de potássio, antepassada dos flashes actuais, para produzir os clarões necessários à iluminação destes motivos. Mas tal não foi, de facto, a sua solução. Homem habituado a pensar em termos de iluminação no seu estúdio especialmente construído com grandes vidraças, a sua resposta foi mais complicada de transportar e de usar. Mas permitiu um outro tipo de abordagem, com exposições mais longas e controladas. O fotógrafo fez-se acompanhar de bastantes ajudantes, e carregou-os com cabos e baterias, e com a rudimentar iluminação eléctrica da época anterior a Edison. Fotografou assim o grosso das suas imagens subterrâneas, dispondo iluminação a gosto e usando exposições, por vezes, a rondar os vinte minutos. A reportagem de exterior de Nadar era um laborioso trabalho de estúdio.
Ao eventual propósito inicial de retratar a maravilha técnica que eram os novos esgotos, Nadar sobrepõe depois o ensejo de registar uma secção mais antiga do subsolo, precisamente a parte das galerias e pedreiras que recebera os mais de sete milhões de esqueletos dos ancestrais cemitérios parisienses. Será aí que, no Outono de 1861 e no Inverno de 1862, fará a maior parte das mais de cem fotografias subterrâneas que realizou. As suas motivações e a sua insistência não particularmente claras. Ao contrário de muitos fotógrafos seus contemporâneos, realizou muito poucos retratos em leito de morte, e nas suas memórias “Quand j'étais photographe”, de 1900, afirmou que as catacumbas enquanto motivo eram algo monótonas, o seu pitoresco esgotava-se rapidamente. O apelo dos ossários é eminentemente literário e não tanto visual, e o desafio do fotógrafo, induz-nos Nadar, é sobretudo técnico. Mas não nos esclarece acerca da predominância quantitativa das imagens das catacumbas em relação às dos esgotos, menos de três dezenas e mais tardias (datam de 1864 e 1865).

Félix Nadar, Catacumbas, Paris, 1861-1862
imagem obtida aqui


Félix Nadar, Catacumbas, Paris, 1861-1862
imagem obtida aqui
Félix Nadar, Esgotos, Paris, 1864-1865
imagem obtida aqui


Nadar parece aqui funcionar como exemplo da estranha dualidade do séc. XIX. A par de um enorme interesse na técnica, na era da Máquina, o espírito novecentista procura um contraponto na idealização da Natureza, da História e do misterioso. O fotógrafo parisiense, intimo das elites progressistas, agente do desenvolvimento da técnica fotográfica, ao se dirigir para o subsolo, prefere lutar com impossibilidade de retratar o enigma da morte a fazer um hino fotográfico ao progresso da higiene urbana. Aos esgotos de Haussmann prefere a Paris subterrânea antiga, espelho de uma cidade que morria na superfície à mercê do Progresso.
Charles Marville e Félix Nadar, trabalhando na mesma década, deixam-nos um retrato particular da capital parisiense num momento decisivo. Marville captura o estertor das ruas e becos condenados e Nadar leva-nos para as trevas da cidade que perdurará com a configuração e os nomes das ruas pré-Haussmann. Deixam-nos um retrato de paris, mas neste esta é uma outra cidade.
___________________________________________________________ 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

SPECIMEN - Comedoras de pedra

Sendo alguém com interesse nos bivalves marinhos, mais não seja por motivos gastronómicos, considerava-me um bom conhecedor das espécies da costa portuguesa. Por isso, quando ajudava alunos de um colega no registo fotográfico de exemplares recolhidos numa saída de campo, fui surpreendido por uma espécie invulgar a que não pusera a vista antes.
Sossegou-me o colega. Era natural o meu desconhecimento. Não vira antes esta espécie por dois motivos que não se prendiam com falta de atenção: primeiro, sou de uma zona de ilhas-barreira, território de areias limpas na costa oceânica e de lodo nas águas da ria, e a espécie em causa desenvolve-se nas praias de arribas de rochas carbonatadas do Algarve central e de barlavento, que pouco frequento; segundo, não vira esta espécie porque, por norma, ninguém a vê - vive encerrada no interior das rochas, protegida e contactando com o exterior por um pequeno oríficio. A espécie responde pelo nome de Lithophaga aristata, e o nome inicial significa comedora de pedra. Apesar do nome, o bicho não sofre de nenhum distúrbio alimentar e não se alimenta verdadeiramente de pedra. Na realidade, a sua dieta é igual à da generalidade dos bivalves marinhos e o que se passa de facto é que desenvolveu, para sua defesa, a capacidade de corroer as rochas e criar para si um seguro lar de pedra. O nome aristata advém das estremidades pontiagudas e sobre isso soube de duas versões: uma, de que derivaria de ariete, por se ter imaginado inicialmente que usaria as suas pontas arrematando de encontro às paredes rochosas para perfurar o seu refúgio; outra, a de que aristata derivaria das extremidades se parecerem com as pontas das espigas. A primeira versão parece-me pouco credível, a começar pela questão línguistica ( ariete em grego, segundo o pouco que pude aferir, não é nada semelhante a aristata, e áries, donde deriva ariete é uma palavra latina), passando pela incongruência das designações (ou come a pedra, ou a desfaz, martelando-a), até chegarmos à pouca credibilidade da história dos primeiros classificadores imaginarem o uso referido para as extremidades, quando terão provavelmente encontrado indíviduos muito jovens já encerrados na rochas, e verificado que a forma do oríficio onde residem não se coaduna com uma escavação a partir do exterior. Além do mais, a designação aristata é muito comum na taxonomia da flora e rara na da fauna.
Do bicho, não conhecia o meu colega o nome comum. Encontrei num sítio de internet a informação de que popularmente se lhe chamaria olhos-de-água, mas fiquei de pé atrás porque encontrei à venda, também na internet, exemplares das suas conchas colhidos na praia de Olhos-de-água, em Albufeira. Como o nome da praia vem de nascentes de água doce aí existentes e não, tanto quanto eu saiba, de moluscos que a maior parte das pessoas nunca viu, desconfio.
A espécie encontra-se bastante distribuída no hemisfério norte, com populações na América do Norte, na costa atlântica europeia e norte-africana, e no Mediterrâneo. Verifica-se actualmente um alargamento da sua distribuição para o hemisfério sul, nomeadamente para a costa brasileira. E aí há relatos de um fenómeno não particularmente positivo. Em situações de ausência de uma costa rochosa, constata-se que a Lithophaga aristata se adaptou e inovou. Passou a instalar-se nas conchas de espécies de maior porte, como as vieiras, cuja composição química e natureza não é muito diferente das rochas. E não sendo muito esquisitas, as criaturas não distinguem entre hospedeiras naturais e hospedeiras instaladas em viveiros de exploração comercial.
A comedora de pedra passou de uma curiosidade zoológica a um problema económico.

Júlio Assis Ribeiro, SP_A_LTPGRSTT_01, 2010

___________________________________________________________

sábado, 30 de julho de 2011

Os afloramentos do Mal

Vivemos, de certa forma, uma existência plastificada no chamado primeiro mundo. Somos protegidos e afastados de infecções, malnutrição e arbitrariedade militar. A morte entra-nos raramente pelo quotidiano e o Mal é-nos maioritariamente longínquo, desenrola-se em cenários selvagens e agrestes que não visitamos.
Por isso, quando de súbito somos informados de um afloramento do Mal num contexto mais próximo sentimo-nos profundamente afectados. Toponímias antes desconhecidas gravam-se para sempre na memória – Srebrenica, Columbine e agora Utoya. 
O inesperado do facto retém-nos o acontecimento, o local. Choca-nos o acontecido, é-nos intolerável(estranhamente, quando lidamos apenas com vago interesse, diariamente e nos noticiários, com nomes como Goma, Nyange, Sulawesi, Homs). Indignamo-nos por ninguém ter visto que aconteceria aquilo que ninguém espera. Esforçamo-nos para encontrar os sinais de que era óbvio o mal que tentava irromper. Não raramente, descobrimos que os súbitos agentes do mal são seres preocupados com a sua imagem, são construtores da sua representação. Registam-se em vídeos e fotografias, escrevem manifestos e ameaças.
Insatifaz-nos esta estranha evidência: os vídeos premonitórios, os manifestos coléricos, os sinais óbvios de um mal que irrompe são boçais, e não se distinguem do ruído imenso da estupidez humana. A estupidez é um facto da vida, que não controlamos, que aprendemos a tolerar. E é, de uma maneira geral, relativamente inconsequente.
Este adormecimento, e a ideia de que tudo está controlado entre nós, permitem a facilidade com que pontuais explosões de violência extrema e arbitrária se desenrolam.
Tanto quanto as mortes e a dor resultante, o que nos dói é a súbita consciência de que não controlamos, ou não sabemos controlar, o mal que se pensa erradicado pela Educação, pelo condicionamento social, pela Razão.
O olhar indignado sobre as provas que anunciam o horror acontecido é o reflexo do sentimento de impotência advindo daquilo que não controlamos. Olhando-se para a fotografia de cadastro policial do jovem Benito Mussolini, feita na suíça em 1903, o nosso olhar tenderá a ver aquilo que sabemos. Registado premonitoriamente como um criminoso, está ali o homem que porá os comboios a chegar a horas em Itália, e que levará à morte cerca de meio milhão de etíopes. O homem que bombardeará populações com armas químicas e que acabará morto e profanado, pendurado pelos pés, com os seus companheiros de fuga e de morte, num posto de combustíveis em Milão. Vemos na imagem os sinais dos crimes posteriores do ditador. Mas em rigor, o que foi fotografado em Berna, em 1903, é um jovem de 19 anos, filho dum alcoólico e de uma professora primária, que fugira ao serviço militar em Itália, trabalhando ilegalmente como pedreiro na Suíça de onde será deportado.


Autor não determinado, Benito Mussolini, Berna, Suiça, 1903
imagem obtida aqui


Os vídeos que vemos dos perpetradores de crimes insanos, as fotografias que eles encenam, os escritos ameaçadores que publicam, são sinais de uma patologia subjacente. Mas não sabemos hoje verdadeiramente o que transforma um sujeito, entre a multidão que dispara impropérios ao mundo, num assassino real, tal como não se sabia nos inícios de novecentos que, de entre os milhares de agitadores políticos europeus, aquele jovem preso em Berna se destacaria levando o seu país a um devaneio megalómano e violento. A indignação que nos atinge depois de Utoya, de Columbine e outros acontecimentos análogos rompe o adormecimento, aumenta a vigília, alerta, apura os mecanismos que analisam as ameaças. Porém, sobre estes efeitos paira uma sombra, a ideia de se saber que por muito apurados que estejam os procedimentos preventivos, quase certamente e em última instância, não conseguiremos evitar que o Mal aflore abruptamente rasgando a protecção plastificada da vida ocidental.

___________________________________________________________

terça-feira, 5 de julho de 2011

Imagens da República - Barricados

No âmbito das comemorações do centenário da implantação da república portuguesa, desenvolveu-se o projecto As Imagens da República, resultante de uma parceria institucional entre a Comissão para as Comemorações do Centenário da Republica e o Curso Superior de Fotografia do Instituto Politécnico de Tomar.
"Este Projecto, com os seus workshops e conferências, organizados em todo o território nacional, propôs-se agir criativamente, através da reflexão e produção fotográficas, pretendendo também promover um pensamento crítico sobre os ideais Republicanos, que afinal se podem resumir no conceito, sempre contemporâneo, que é o da Cidadania", diz-nos a a página inicial do portal do projecto.
No distrito de Faro, o workshop realizou-se a 26, 27 e 28 de Novembro com o título A barricada fecha a rua mas abre o caminho, sob a orientação de José Nuno Lamas e Valter Ventura.

José Nuno Lamas e Valter Ventura tem desenvolvido conjuntamente um corpo de trabalhos que, usando a fotografia como meio, regista acções e circunstâncias encenadas, num equilíbrio bem disposto entre o irónico, o documental e o conceptual. Fazem-no sem abdicar da qualidade formal das imagens, que devem funcionar por si, isoladas, sem a necessidade de amparo de uma explicação ou do acompanhamento de outras imagens.
No workshop que decorreu em Tavira, na Casa das Artes, decidiram carregar sobre o imaginário das barricadas, fortificações provisórias e instáveis que se colaram ao nosso imaginário das revoluções. Mais que verdadeiros obstáculos militares, as barricadas definiam uma separação de águas, eram uma mediatriz que esclarecia acerca da natureza dos que se posicionavam nos seus lados opostos.
Em três dias de trabalho, boa disposição e uma acumulação invulgar de situações caricatas, os participantes no workshop desenvolveram a sua versão pessoal de um trabalho de busca e decisão colectivo. Enfim, a sua versão pessoal de um fim-de-semana em que se barricaram no Algarve.

José Nuno Lamas e Valter Ventura,
(com Bertílio Martins, Daniel Novais,
Ilda Silvério, João Pedro Lomelino,
Júlio Assis Ribeiro, Miguel Proença,
Miguel Simões, Paula Ferro e Vasco Célio),
A barricada fecha a rua mas abre o caminho, 2010
imagem obtida aqui

Vasco Célio
(com José Nuno Lamas e Valter Ventura,
Bertílio Martins, Daniel Novais, Ilda Silvério,
João Pedro Lomelino, Júlio Assis Ribeiro,
Miguel Proença, Miguel Simões e Paula Ferro),
A barricada fecha a rua mas abre o caminho, 2010
imagem obtida aqui


Júlio Assis Ribeiro
(com José Nuno Lamas e Valter Ventura,
Bertílio Martins, Daniel Novais, Ilda Silvério,
João Pedro Lomelino,, Miguel Proença,
Miguel Simões, Paula Ferro e Vasco Célio),
A barricada fecha a rua mas abre o caminho, 2010
imagem obtida aqui


Paula ferro
(com José Nuno Lamas e Valter Ventura,
Bertílio Martins, Daniel Novais, Ilda silvério,
João Pedro Lomelino,Júlio Assis Ribeiro,
Miguel Proença, Miguel Simões e Vasco Célio),
A barricada fecha a rua mas abre o caminho, 2010
imagem obtida aqui

Miguel Simões
(com José Nuno Lamas e Valter Ventura,
Bertílio Martins, Daniel Novais, Ilda silvério,
João Pedro Lomelino,Júlio Assis Ribeiro,
Miguel Proença, Paula ferro e Vasco Célio),
A barricada fecha a rua mas abre o caminho, 2010
imagem obtida aqui

Miguel Proença
(com José Nuno Lamas e Valter Ventura,
Bertílio Martins, Daniel Novais, Ilda silvério,
João Pedro Lomelino,Júlio Assis Ribeiro,
Miguel Simões, Paula ferro e Vasco Célio),
A barricada fecha a rua mas abre o caminho, 2010
imagem obtida aqui

__________________________________________________________

quinta-feira, 23 de junho de 2011

ONTOS - Orchis Ustulata


Pietro Guidi, Orchis ustulata,cerca de 1870
Prova de albumina, pintada manualmente
imagem obtida aqui




__________________________________________________________