terça-feira, 14 de junho de 2011

ONTOS - Uma alga em tons de azul


Anna Atkins, Chordaria flagelliformis,
cianotipo,1843-53
imagem obtida aqui


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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Complexo de Napoleão

Observando-se retratos fotográficos do séc. XIX podemos ver o muito que as roupas, os penteados e os objectos mudaram. Mas podemos também, no meu caso observando alguns retratos de Nadar, ver o que os gestos e a postura mudaram.
É hoje inconcebível, a menos que se procure passar por lunático ou provocador, fazermo-nos registar serenamente com a mão enfiada, ao nível do peito ou da barriga, num casaco desabotoado. Esta pose transformou-se num sinónimo de perturbação mental, e a caricatura  e o cartoon recorrem a ela para sinalizar alguém alienado. A pose agarrou-se à figura de Napoleão Bonaparte, devido ao retrato pintado por Jacques Louis David, e apesar de não ser predominante nas representações coevas do imperador não parece descolar dele. Associamo-la a alguém que tem uma visão desmesurada de si próprio ou uma dissociação de identidade. Configura uma espécie de “Complexo de Napoleão” distinto da sua definição mais comum, aquela que é relativa ao complexo de inferioridade que atinge alguns homens de baixa estatura e que os faz ter acessos de fúria e comportamentos excessivos como estratégia de compensação.

Jacques-Louis David, Napoleão Bonaparte,
1812
imagem obtida aqui

























No entanto, em meados de século dezanove, as coisas ainda não tinha assumido esta conformação. Sérias figuras da intelectualidade e do meio artístico, como Delacroix , Victor Hugo e Baudelaire, podiam-se fazer retratar assim sem ironia nem provocação. A postura representava antes introspecção e altivez de carácter. Ainda hoje, muitos povos incorrem num gesto semelhante quando, em momentos graves, como um juramento ou o cantar do hino nacional, colocam a sua mão direita junto ao coração.


Dito tudo isto, duas coisas:

Uma, parece-me difícil o retorno desta pose ao léxico das posturas correntes e sérias. Não creio que vá ver nenhum prémio Nobel a fazer-se retratar assim com cerimonial.Outra, o nosso preconceito e a nossa estranheza actual faz-nos preferir imagens alternativas de figuras novecentistas que foram retratadas desta forma. Veja-se como a fotografia de Nadar com Baudelaire de pé e mãos nos bolsos é tão mais usada que a que o mesmo fotógrafo fez do poeta, sentado e em aparente identificação com Napoleão.
Félix Nadar, Baudelaire, 1855-58
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Félix Nadar, Eugéne Delacroix,1858
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Félix Nadar, Gioacchino Rossini,1856
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Félix Nadar, Eugène Pelletan,1855-1859
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Félix Nadar, Jules Hetzel, s/data
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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Chuva de fotógrafos

A notícia da invenção da fotografia espalhou-se muito rapidamente na primeira metade do século dezanove, e no início da segunda metade o número de profissionais e praticantes crescera exponencialmente, apesar da dificuldade que esta técnica pressupunha antes da industrialização dos suportes fotossensíveis. Em 1855, Félix Nadar, ele próprio já um fotógrafo então, ironiza com uma caricatura intitulada Chuva de fotógrafos.

Félix Nadar, Chuva de Fotógrafos, 1855
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quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Representação Certa

A historiografia da fotografia, em particular a de matriz francesa, tende a atribuir a invenção do retrato fotográfico moderno a Nadar e a Carjat, sobretudo ao primeiro.

Atribui-se-lhes a inovação de uma representação centrada no sujeito, na exposição do seu pathos, e o desligamento relativamente a convenções mais arcaicas, oriundas da pintura romântica e anterior, em que o gesto, o cenário e o adereço pesavam por vezes mais que a estrita representação (e a correcta escolha) da expressão do retratado.

Félix Nadar, Charles Baudelaire, 1862
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Étienne Carjat, Charles Baudelaire, 1863
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Curiosamente, esta demanda do essencial, e fuga ao acessório, advém precisamente de dois homens que se notabilizaram como caricaturistas. Quer Carjat ,quer Nadar, são senhores de uma assinalável obra gráfica, que aparentemente se situa nos antípodas dos seus retratos fotográficos. Na caricatura prevalece o exagero e a desproporção, que parecem faltar no relativo minimalismo da sua faceta fotográfica, tecnicamente simples, sem devaneios de foco (como amiúde se verifica, por exemplo, em Julia Margaret Cameron), sem abusos de tom e contraste, com poses descontraídas e fundos simples e neutros. Mas há na caricatura uma capacidade de capturar o esgar, a expressão exacta, e de os trabalhar para neles melhor se reconhecer o sujeito alvo, e este é um talento que é fundamental para um retratista. Descontando-se o oceano de diferenças técnicas e estilísticas que separa as caricaturas e as fotografias de Carjat e Nadar, une-as esta propensão para capturar a representação certa.
 
 
Félix Nadar, Charles Baudelaire, s/data
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Étienne Carjat, Gaetano Braga (compositor e violoncelista italiano), s/data
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Já do grande rival de Nadar e de Carjat, o bem sucedido André Disdéri, não se lhe conhece muita obra além da fotográfica. Este, com um enorme talento comercial, soube perceber o que os seus clientes, nem sempre muito elucidados, esperavam de um retrato. Com isso, conjuntamente com a utilização do formato carte de visite que popularizou, que permitia grandes séries a baixo custo, terá empurrado muitos dos fotógrafos contemporâneos para fora da actividade. Esta pulsão mercantilista, faz Disdéri perceber que mais do que uma representação serena e “verdadeira” de si próprios, os europeus de novecentos pretendem maioritariamente obter nos seus retratos a imagem do seu estatuto, real ou almejado, uma configuração segura do que esperam que os outros vejam neles. Aos fundos neutros preferem as balaustradas, os panos, o mobiliário pretensioso e as colunas falsas que Disdéri usa para povoar o estúdio e os seus retratos. À naturalidade preferem o gesto encenado. Preferem as convenções seguras, e uma validação que entendem ser trazida pelas referências clássicas.

Os retratos de Disdéri dizem-nos muito mais da época, do ar do tempo, do que dos retratados. As suas fotografias muitas vezes fazem-nos lembrar o quadro de goya “ Carlos V e a sua família”, em que o espanhol nos fez chegar a imagem (pouco lisonjeira) de uma família real que parece tão ofuscada e satisfeita com os brilhos e os fulgores dos trajes e do cenário, que não terá percebido o patético com que foram registados. Ironicamente, Disdéri, que não era um caricaturista, graças às suas opções e à oportunidade, transforma com frequência os seus clientes numa caricatura infeliz de si próprios, e da sua época.


André Disdéri, retrato de M. Duprez (actor francês), s/data
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André Disdéri, retrato de Victor Emmanuel II ( 1º rei da Itália unificada), s/data
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terça-feira, 17 de maio de 2011

A Oeste

O fotógrafo norte americano Joe Deal ( joseph Maurice Deal, de seu nome completo) , falecido em 18 de junho de 2010, procurou nos últimos anos da sua vida abordar a paisagem das grandes planícies do Midwest , nos Estados-Unidos.
Em 1975 ajudara a criar uma inflexão na abordagem tradicionalmente americana da fotografia de Paisagem, a de um fascínio lírico,reverenciador e romantizado, que tinha Ansel Adams como referência. Na George Eastman House, uma exposição comissariada por William Jenkins e intitulada "New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape", reunia Deal mais sete norte-americanos (incluindo Stephen Shore e Robert Adams, este último sem qualquer parentesco com Ansel Adams) e ainda um casal alemão, Bernd and Hilla Becher. Unia-os uma abordagem, que longe de querer apresentar uma imagem ideal de espaços naturais, se concentrava na demonstração da escala das alterações que o homem introduzia em espaços outrora selvagens. Imagens simples , com gosto pelo literal, unindo a abordagem de certa fotografia , jornalística e socialmente empenhada, com os planos alargados do género paisagístico.

Bernd e Hilla Becher, Moagem de carvão Loomis,Wilkes Barre, Pensilvânia, 1974
imagem obtida aqui

Esta exposição, cujo efeito fundador provavelmente não se adivinhava na altura, acabaria por fundar e marcar muita da Fotografia posterior, e muito do olhar dos fotógrafos. A acção dos seus participantes enquanto futuros professores de Fotografia, num enquadramento universtário, e as tendências conceptualizantes da Arte contemporânea (dominantes particularmente nos anos setenta) não foram alheias a este impacto.
Nos seus derradeiros anos, Joe Deal retornou ao Midwest natal e trabalhou uma série que intitulou “West and West ”. Nesta, as imagens centram-se sobre os vastos campos abertos, vazios, mas dotados de um potencial de mutação. Marcas de erosão deixam adivinhar destruições passadas, acidentes do relevo questionam-nos, erva queimada denuncia-nos o fogo que passou, a luz alterada por nuvens pesadas fazem-nos perceber um prenúncio. Estas imagens não se concentram directamente na alteração física introduzida pelo homem, ideia central na obra de Deal, mas antes pretendem pôr a questão historicamente. Propositadamente, a série inicia-se após os 150 anos do Kansas-Nebraska Act , de 1854, que abriu oficialmente as grandes planícies americanas ao povoamente e exploração de populações vindas do Este dos Estados-Unidos e da Europa. Ao contrário de uma idealização da paisagem, o propósito de Deal era o de incentivar uma reflexão sobre a mudança, sobre o que não mudou e o que foi mudado. À semelhança de muitas das fotografias da linhagem de "New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape" , de subúrbios e urbanizações em choque com terrenos em estado semiselvagem, em que o elemento humano se encontra ausente, é apenas presentido pelas marcas que deixa, também aqui o significante é marcado ( pelo menos no plano das intenções) pela ausência, as planícies vazias remetem-nos para o que foi nelas alterado depois de 1854. Joe Deal traçava igualmente um paralelo entre o quadrado das imagens que retalha uma porção da realidade e a grelha dos topógrafos que recortaram os novos territórios numa malha ortogonal, veja-se o espantoso mapa das fronteiras do Midwest.


Joe Deal, Sol e sombra, Planalto do Missouri, 2005
imagem obtida aqui

  Joe Deal,zona queimada, Flint Hills, 2006
imagem obtida aqui
 
 
Joe Deal, Colina, Piedmont, Colorado , 2005
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Joe Deal, Choupo americano, Flint Hills, 2006
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Um ensaio

O Mal extremo não pode, apesar das tentações, ser considerado uma invenção contemporânea. Basta uma leitura do velho testamento da bíblia, uma das fontes da cultura ocidental, para verificar que a violência brutal e gratuita, ainda que coberta pelo manto da necessidade e da fé, nos acompanha desde a raiz da História. A outra fonte principal da nossa cultura, o mundo grego romano, traz-nos um rol de deuses que carregam as virtudes e os defeitos humanos, e também nas suas histórias reside uma maldade arbitrária e dura. Estudos dos nossos parentes geneticamente mais próximos, os chimpanzés, parecem enterrar definitivamente a ilusão do bom selvagem, a crença de Rosseau num ser inicial puro que é destruído pela evolução da História e da Sociedade. A proximidade dos seus genes é-nos confirmada pela proximidade da complexidade das suas relações sociais e das suas hierarquias, bem como pela flutuação dos seus humores.

A percepção difusa de que o século que nos precede produziu um novo tipo de mal, um mal totalitário e absoluto, advém dos factos (os genocídios nazi, cambodjano e ruandês, apenas para citar três exemplos) mas deriva sobretudo da consciência de uma alternativa traída. O Iluminismo e os seus ideais de igualdade e fraternidade, o Idealismo e a ideia de uma história que avança e progride construíram a nossa perspectiva, e esta choca com estas abruptas erupções do Mal. O Mal é-nos sinónimo de irracional, e tendemos a denunciar as narrativas que o justificam.

É aliás no campo das narrativas que se poderá apontar alguma novidade no Mal do século vinte. Alguns dos seus exemplos mais gritantes de abusos da Humanidade foram feitos, já não directamente centrados em narrativas de pertença étnica e religiosa, ou de gratuita imposição da superioridade militar e em nome da usurpação de recursos, mas a coberto de uma suposta cientificidade. Os campos de morte do Cambodja dos Khmer vermelhos limpavam a sociedade dos habitantes poluídos por valores que uma nova ordem não podia tolerar, a matança era a prática de uma “ciência” social. O holocausto judeu perpetrado pelos nazis foi feito em nome duma construção teórica assente na Eugenia, que partiu delirantemente da “Evolução das Espécies” de Darwin. De certa forma, estas novas narrativas são também filhas do iluminismo e do Idealismo. Perante o enquadramento societal da Modernidade, o mal não pode ser defendido com base apenas no sentimento de pertença ao grupo, à fé ou à etnia, esse sentimento tem de ser disfarçado de razão científica, de progresso natural e necessário.

Não será necessário esperar até à segunda guerra mundial para se ver este exercício de brutalidade assente numa narrativa pseudo-científica.
A Alemanha chega tarde ao teatro colonial. Durante séculos fragmentado, o estado recentemente unificado inicia o seu processo de domínio externo apenas na década de oitenta de oitocentos, e a sua entrada em África ter-se-á de fazer praticamente nas "sobras" de um continente já dividido por outros países europeus. Um dos territórios que ocupará será o Sudoeste Africano, a actual Namíbia. O território permanecera praticamente incólume à aventura colonial. A sua costa desolada, a chamada Costa dos Esqueletos, não parecia augurar nada de positivo. Mas afastando-se um pouco do Atlântico, o território acabava por mais amigável do que se previa, com áreas de savana, com erva alta, pastagens passíveis de exploração. Em 1884, iniciou-se a ocupação e colonização alemãs. Mas o território não se encontrava deserto, para além dos San, os chamados bosquímanes, dois povos africanos disputavam já entre si a actual Namíbia. Os Herero, uma tribo de pastores de origem Bantu (em Angola, são designados como mucubais), e os Nama, também conhecidos por hotentotes ( designação que partilham frequentemente com os San), uma tribo de proveniência sul-africana. Ambos povos, mercê do contacto e de alguma miscelanização com antigos colonos holandeses, encontravam-se parcialmente cristianizados, parcialmente alfabetizados, e eram possuidores de armas de fogo. As relações entre o novo poder e os ocupantes prévios não foram pacíficas. Com as autoridades a confiscarem as melhores terras para os colonos, e o consequente empurrão dos Herero e dos Nama para o deserto, os confrontos foram inevitáveis.

O recente colonialismo germânico, para além do ímpeto nacionalista oitocentista, comum a outros poderes imperiais europeus, assentava de forma muito clara no conceito de Espaço vital, que as teorias do geógrafo alemão Friedrich Ratzel configuravam. Os povos, para garantirem a sua sobrevivência, precisam de ganhar espaço para se desenvolverem. Consequência implícita deste enunciado é a disputa de território que, aos olhos dos defensores desta corrente, será naturalmente ganha pelo povo mais forte. E partindo de um darwinismo alucinado e do seu etnocentrismo, não haverá duvidas acerca de qual o povo mais forte.

Autor não identificado, Friedrich Ratzel, s/data


O Sudoeste Africano, o menos povoado dos territórios ultramarinos alemães, será tristemente o sítio ideal para implantação desta perspectiva de substituição de populações. O governador Theodor Leutwein, que dirigiu o território de 1894 a 1804, fê-lo com uma estratégia de imposição musculada de tratados, que foram, como vimos, desapropriando os Nama e os Herero dos melhores recursos. Esta abordagem, não muito diferente do modus operandi de ingleses, franceses e portugueses, é considerada fraca e insuficiente pelos colonos e por parte significativa do contingente militar local, que entendiam que não dever ter de negociar algo que consideravam ser seu por direito. Em 1903 e 1904, ao fim de muitos anos de um lento degradar de relações dão-se as revoltas dos Nama, primeiro, e a dos Herero, depois.

O conflito faz a questão namibiana passar de uma lógica estrita de domínio para um novo patamar, o do extermínio. O comandante do destacamento militar enviado para esmagar as revoltas, general Lothar Von Trotha, assume explicitamente o objecto de aniquilar os povos revoltosos e, caso tal não fosse possível na totalidade, a expulsão dos sobreviventes para territórios vizinhos. À derrota militar dos Herero, na batalha de Waterberg, segue-se uma política de envenenamento ou controlo das fontes de água, raras num território seco, que levará à morte por sede e subnutrição. As populações capturadas, e que não são vítimas de abate imediato, são encaminhadas para campos de internamento e trabalho onde lhe estaria destinada uma morte lenta por maus tratos e fome. Quando, em 1908, se decide fechar os campos de concentração, dois terços dos Herero e metade dos Nama haviam desaparecidos. Os restantes, ou haviam conseguido escapar para territórios sob domínio inglês ou português, ou tinham sido convertidos em escravos e cedidos aos colonos alemães.

Diferentemente do que aconteceria décadas depois, nos extermínios europeus, não houve a preocupação de ocultar o extermínio em curso. Nos jornais alemães mais extremistas os africanos eram retratados como selvagens e animais para os quais não deveria haver complacência. A defesa do seu aniquilamento pelas autoridades militares era pública e os documentos que o comprovam chegaram até nós. Os aspectos mais macabros, como a venda pelos militares de crânios e cabeças decepada de Hereros e Namas para alegado estudo científico eram de tal forma conhecidos que até foram feitos postais deste comércio. Por último, os oficiais alemães, como o tenente Von Dürling, ao contrário dos seus sucessores nazis (que, anos mais tarde, proibiram a captura fotográfica de imagens dos campos de concentração) não se coibiram de fazer amplo uso das recentes câmaras Kodak de rolo. Nos seus álbuns namibianos, a par de retratos de família, não faltariam imagens de Herero e Nama esquálidos, e de planos mais ou menos alargados dos campos, nomeadamente o mais infame, o de Shark Island. Prova da ausência de auto-questionamento moral dos agentes do extermínio, foi o tratamento de parte destas imagens. Originalmente monocromáticas, foram coloridas manualmente, tratamento comum à época para valorizar as imagens mais importantes e pitorescas, as que orgulhavam os seus criadores.

Autor não identificado, Prisioneiros Herero, 1904-1908
imagem obtida aqui



Autor não identificado, Prisioneiros, 1904-1908
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Para muitos, a experiência namibiana de 1904 a 1908, é um ensaio do extermínio nazi. Assente na mesma ideologia de busca do espaço vital e de desprezo por raças consideradas inferiores, praticam-se campanhas de deslocação de populações para campos de morte, usa-se o mesmo tipo de vagões de carga para o transporte. E nos ensaios aprende-se. No seco território do Sudoeste Africano, aprendeu-se que o extermínio, mesmo que feito em nome de princípios ditos científicos, não deve ser visível, ser retratado em postais, memorabilia exótica e álbuns de família. O holocausto da Segunda Guerra Mundial será, por imposição superior, um acontecimento escondido e invisível.

Tenente Von Dürling, campo de concentração de Shark Island, c.1905
imagem obtida aqu
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Tenente Von Dürling, campo de concentração de Shark Island, c.1905
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

A Etiópia dos copiadores (2)



















Fotógrafos dos Royal Engineers, Lago Ashangi, Etiópia, 1868
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