terça-feira, 17 de maio de 2011

A Oeste

O fotógrafo norte americano Joe Deal ( joseph Maurice Deal, de seu nome completo) , falecido em 18 de junho de 2010, procurou nos últimos anos da sua vida abordar a paisagem das grandes planícies do Midwest , nos Estados-Unidos.
Em 1975 ajudara a criar uma inflexão na abordagem tradicionalmente americana da fotografia de Paisagem, a de um fascínio lírico,reverenciador e romantizado, que tinha Ansel Adams como referência. Na George Eastman House, uma exposição comissariada por William Jenkins e intitulada "New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape", reunia Deal mais sete norte-americanos (incluindo Stephen Shore e Robert Adams, este último sem qualquer parentesco com Ansel Adams) e ainda um casal alemão, Bernd and Hilla Becher. Unia-os uma abordagem, que longe de querer apresentar uma imagem ideal de espaços naturais, se concentrava na demonstração da escala das alterações que o homem introduzia em espaços outrora selvagens. Imagens simples , com gosto pelo literal, unindo a abordagem de certa fotografia , jornalística e socialmente empenhada, com os planos alargados do género paisagístico.

Bernd e Hilla Becher, Moagem de carvão Loomis,Wilkes Barre, Pensilvânia, 1974
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Esta exposição, cujo efeito fundador provavelmente não se adivinhava na altura, acabaria por fundar e marcar muita da Fotografia posterior, e muito do olhar dos fotógrafos. A acção dos seus participantes enquanto futuros professores de Fotografia, num enquadramento universtário, e as tendências conceptualizantes da Arte contemporânea (dominantes particularmente nos anos setenta) não foram alheias a este impacto.
Nos seus derradeiros anos, Joe Deal retornou ao Midwest natal e trabalhou uma série que intitulou “West and West ”. Nesta, as imagens centram-se sobre os vastos campos abertos, vazios, mas dotados de um potencial de mutação. Marcas de erosão deixam adivinhar destruições passadas, acidentes do relevo questionam-nos, erva queimada denuncia-nos o fogo que passou, a luz alterada por nuvens pesadas fazem-nos perceber um prenúncio. Estas imagens não se concentram directamente na alteração física introduzida pelo homem, ideia central na obra de Deal, mas antes pretendem pôr a questão historicamente. Propositadamente, a série inicia-se após os 150 anos do Kansas-Nebraska Act , de 1854, que abriu oficialmente as grandes planícies americanas ao povoamente e exploração de populações vindas do Este dos Estados-Unidos e da Europa. Ao contrário de uma idealização da paisagem, o propósito de Deal era o de incentivar uma reflexão sobre a mudança, sobre o que não mudou e o que foi mudado. À semelhança de muitas das fotografias da linhagem de "New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape" , de subúrbios e urbanizações em choque com terrenos em estado semiselvagem, em que o elemento humano se encontra ausente, é apenas presentido pelas marcas que deixa, também aqui o significante é marcado ( pelo menos no plano das intenções) pela ausência, as planícies vazias remetem-nos para o que foi nelas alterado depois de 1854. Joe Deal traçava igualmente um paralelo entre o quadrado das imagens que retalha uma porção da realidade e a grelha dos topógrafos que recortaram os novos territórios numa malha ortogonal, veja-se o espantoso mapa das fronteiras do Midwest.


Joe Deal, Sol e sombra, Planalto do Missouri, 2005
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  Joe Deal,zona queimada, Flint Hills, 2006
imagem obtida aqui
 
 
Joe Deal, Colina, Piedmont, Colorado , 2005
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Joe Deal, Choupo americano, Flint Hills, 2006
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Um ensaio

O Mal extremo não pode, apesar das tentações, ser considerado uma invenção contemporânea. Basta uma leitura do velho testamento da bíblia, uma das fontes da cultura ocidental, para verificar que a violência brutal e gratuita, ainda que coberta pelo manto da necessidade e da fé, nos acompanha desde a raiz da História. A outra fonte principal da nossa cultura, o mundo grego romano, traz-nos um rol de deuses que carregam as virtudes e os defeitos humanos, e também nas suas histórias reside uma maldade arbitrária e dura. Estudos dos nossos parentes geneticamente mais próximos, os chimpanzés, parecem enterrar definitivamente a ilusão do bom selvagem, a crença de Rosseau num ser inicial puro que é destruído pela evolução da História e da Sociedade. A proximidade dos seus genes é-nos confirmada pela proximidade da complexidade das suas relações sociais e das suas hierarquias, bem como pela flutuação dos seus humores.

A percepção difusa de que o século que nos precede produziu um novo tipo de mal, um mal totalitário e absoluto, advém dos factos (os genocídios nazi, cambodjano e ruandês, apenas para citar três exemplos) mas deriva sobretudo da consciência de uma alternativa traída. O Iluminismo e os seus ideais de igualdade e fraternidade, o Idealismo e a ideia de uma história que avança e progride construíram a nossa perspectiva, e esta choca com estas abruptas erupções do Mal. O Mal é-nos sinónimo de irracional, e tendemos a denunciar as narrativas que o justificam.

É aliás no campo das narrativas que se poderá apontar alguma novidade no Mal do século vinte. Alguns dos seus exemplos mais gritantes de abusos da Humanidade foram feitos, já não directamente centrados em narrativas de pertença étnica e religiosa, ou de gratuita imposição da superioridade militar e em nome da usurpação de recursos, mas a coberto de uma suposta cientificidade. Os campos de morte do Cambodja dos Khmer vermelhos limpavam a sociedade dos habitantes poluídos por valores que uma nova ordem não podia tolerar, a matança era a prática de uma “ciência” social. O holocausto judeu perpetrado pelos nazis foi feito em nome duma construção teórica assente na Eugenia, que partiu delirantemente da “Evolução das Espécies” de Darwin. De certa forma, estas novas narrativas são também filhas do iluminismo e do Idealismo. Perante o enquadramento societal da Modernidade, o mal não pode ser defendido com base apenas no sentimento de pertença ao grupo, à fé ou à etnia, esse sentimento tem de ser disfarçado de razão científica, de progresso natural e necessário.

Não será necessário esperar até à segunda guerra mundial para se ver este exercício de brutalidade assente numa narrativa pseudo-científica.
A Alemanha chega tarde ao teatro colonial. Durante séculos fragmentado, o estado recentemente unificado inicia o seu processo de domínio externo apenas na década de oitenta de oitocentos, e a sua entrada em África ter-se-á de fazer praticamente nas "sobras" de um continente já dividido por outros países europeus. Um dos territórios que ocupará será o Sudoeste Africano, a actual Namíbia. O território permanecera praticamente incólume à aventura colonial. A sua costa desolada, a chamada Costa dos Esqueletos, não parecia augurar nada de positivo. Mas afastando-se um pouco do Atlântico, o território acabava por mais amigável do que se previa, com áreas de savana, com erva alta, pastagens passíveis de exploração. Em 1884, iniciou-se a ocupação e colonização alemãs. Mas o território não se encontrava deserto, para além dos San, os chamados bosquímanes, dois povos africanos disputavam já entre si a actual Namíbia. Os Herero, uma tribo de pastores de origem Bantu (em Angola, são designados como mucubais), e os Nama, também conhecidos por hotentotes ( designação que partilham frequentemente com os San), uma tribo de proveniência sul-africana. Ambos povos, mercê do contacto e de alguma miscelanização com antigos colonos holandeses, encontravam-se parcialmente cristianizados, parcialmente alfabetizados, e eram possuidores de armas de fogo. As relações entre o novo poder e os ocupantes prévios não foram pacíficas. Com as autoridades a confiscarem as melhores terras para os colonos, e o consequente empurrão dos Herero e dos Nama para o deserto, os confrontos foram inevitáveis.

O recente colonialismo germânico, para além do ímpeto nacionalista oitocentista, comum a outros poderes imperiais europeus, assentava de forma muito clara no conceito de Espaço vital, que as teorias do geógrafo alemão Friedrich Ratzel configuravam. Os povos, para garantirem a sua sobrevivência, precisam de ganhar espaço para se desenvolverem. Consequência implícita deste enunciado é a disputa de território que, aos olhos dos defensores desta corrente, será naturalmente ganha pelo povo mais forte. E partindo de um darwinismo alucinado e do seu etnocentrismo, não haverá duvidas acerca de qual o povo mais forte.

Autor não identificado, Friedrich Ratzel, s/data


O Sudoeste Africano, o menos povoado dos territórios ultramarinos alemães, será tristemente o sítio ideal para implantação desta perspectiva de substituição de populações. O governador Theodor Leutwein, que dirigiu o território de 1894 a 1804, fê-lo com uma estratégia de imposição musculada de tratados, que foram, como vimos, desapropriando os Nama e os Herero dos melhores recursos. Esta abordagem, não muito diferente do modus operandi de ingleses, franceses e portugueses, é considerada fraca e insuficiente pelos colonos e por parte significativa do contingente militar local, que entendiam que não dever ter de negociar algo que consideravam ser seu por direito. Em 1903 e 1904, ao fim de muitos anos de um lento degradar de relações dão-se as revoltas dos Nama, primeiro, e a dos Herero, depois.

O conflito faz a questão namibiana passar de uma lógica estrita de domínio para um novo patamar, o do extermínio. O comandante do destacamento militar enviado para esmagar as revoltas, general Lothar Von Trotha, assume explicitamente o objecto de aniquilar os povos revoltosos e, caso tal não fosse possível na totalidade, a expulsão dos sobreviventes para territórios vizinhos. À derrota militar dos Herero, na batalha de Waterberg, segue-se uma política de envenenamento ou controlo das fontes de água, raras num território seco, que levará à morte por sede e subnutrição. As populações capturadas, e que não são vítimas de abate imediato, são encaminhadas para campos de internamento e trabalho onde lhe estaria destinada uma morte lenta por maus tratos e fome. Quando, em 1908, se decide fechar os campos de concentração, dois terços dos Herero e metade dos Nama haviam desaparecidos. Os restantes, ou haviam conseguido escapar para territórios sob domínio inglês ou português, ou tinham sido convertidos em escravos e cedidos aos colonos alemães.

Diferentemente do que aconteceria décadas depois, nos extermínios europeus, não houve a preocupação de ocultar o extermínio em curso. Nos jornais alemães mais extremistas os africanos eram retratados como selvagens e animais para os quais não deveria haver complacência. A defesa do seu aniquilamento pelas autoridades militares era pública e os documentos que o comprovam chegaram até nós. Os aspectos mais macabros, como a venda pelos militares de crânios e cabeças decepada de Hereros e Namas para alegado estudo científico eram de tal forma conhecidos que até foram feitos postais deste comércio. Por último, os oficiais alemães, como o tenente Von Dürling, ao contrário dos seus sucessores nazis (que, anos mais tarde, proibiram a captura fotográfica de imagens dos campos de concentração) não se coibiram de fazer amplo uso das recentes câmaras Kodak de rolo. Nos seus álbuns namibianos, a par de retratos de família, não faltariam imagens de Herero e Nama esquálidos, e de planos mais ou menos alargados dos campos, nomeadamente o mais infame, o de Shark Island. Prova da ausência de auto-questionamento moral dos agentes do extermínio, foi o tratamento de parte destas imagens. Originalmente monocromáticas, foram coloridas manualmente, tratamento comum à época para valorizar as imagens mais importantes e pitorescas, as que orgulhavam os seus criadores.

Autor não identificado, Prisioneiros Herero, 1904-1908
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Autor não identificado, Prisioneiros, 1904-1908
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Para muitos, a experiência namibiana de 1904 a 1908, é um ensaio do extermínio nazi. Assente na mesma ideologia de busca do espaço vital e de desprezo por raças consideradas inferiores, praticam-se campanhas de deslocação de populações para campos de morte, usa-se o mesmo tipo de vagões de carga para o transporte. E nos ensaios aprende-se. No seco território do Sudoeste Africano, aprendeu-se que o extermínio, mesmo que feito em nome de princípios ditos científicos, não deve ser visível, ser retratado em postais, memorabilia exótica e álbuns de família. O holocausto da Segunda Guerra Mundial será, por imposição superior, um acontecimento escondido e invisível.

Tenente Von Dürling, campo de concentração de Shark Island, c.1905
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Tenente Von Dürling, campo de concentração de Shark Island, c.1905
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

A Etiópia dos copiadores (2)



















Fotógrafos dos Royal Engineers, Lago Ashangi, Etiópia, 1868
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Elefantes de combate

O elefante domesticado era um recurso bélico notável na antiguidade. Chegam-nos ainda hoje, neste tempo tão pouco dado a clássicos, ecos dos elefantes de Aníbal que atravessaram os Pirinéus a caminho de Roma. Mas apesar de serem aterrorizadores, não eram então uma arma invencível. Não valeram ao cartaginês uma vitória final e, mais de um século antes, não haviam impedido Alexandre, o Grande, de expandir o seu império ao subcontinente indiano. Depois, com o aparecimento das armas de fogo, e sobretudo da artilharia, deixaram definitivamente de ser uma arma decisiva. Mas o elefante militar continuou o seu papel no universo bélico até que a industrialização da morte nas guerras do século vinte o remeteram apenas para o cerimonial e para a figuração cinematográfica. Na campanha da Abíssinia de 1868/69, o exército imperial britânico faz desembarcar na Eritreia, a caminho da capital etíope, um largo contigente militar indiano munido destes paquidermes.
O seu uso terá sido sobretudo logístico. Num país sem estradas, o elefante era um todo terreno valioso no transporte de cargas volumosas. O exército de Tewodros II, não sendo minimamente equiparável ao britânico, possuia porém artilharia e assim dificilmente o uso de elefantes em combate seria produtivo. Apesar de tudo isto, acaba por ser interessante que os fotógrafos dos Royal Engineers captassem então uma das raras imagens fotográficas do uso de elefantes num quadro real de guerra.


Fotógrafos dos Royal Engineers, Rio Djedda, Etiópia, 1868
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Fotógrafos dos Royal Engineers, Rio Djedda (pormenor), Etiópia, 1868
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sábado, 23 de abril de 2011

ONTOS: Uma finlandesa na selva. (2)

Sanna Kannisto, 65 morcegos, 2008
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sexta-feira, 22 de abril de 2011

ONTOS: Uma finlandesa na selva.

A finlandesa Sanna Kannisto acompanha  biólogos desde 1997, nas florestas tropicais das Américas do Sul e Central, reproduzindo no seu trabalho fotográfico processos e conceitos que radicam no trabalho destes. Define-se a si própria como uma pesquisadora visual.
À semelhança dos cientistas naturais recolhe amostras e espécimenes para melhor analisar e conhecer, mas afasta-se das convenções da documentação científica. Regra geral, estas fazem apresentar os  objectos de estudo isolados e sem referência de contexto, ao passo que Sanna Kannisto opta frequentemente por expôr a artificialidade do processo. Os animais e as plantas aparecem-nos rodeados pelos apetrechos de encenação da fotógrafa, os panos negros, a caixa de luz, o equipamento de iluminação. A descontextualização do espécimen é igualmente posta evidência pela presença de marcadores científicos- etiquetas, indicadores de escala, papeis. Outras vezes opta pela apresentação da parafernália científica e fotográfica in situ, na selva aparentemente intocada, introduzindo um sentido de absurdo e de ironia. Por último, outra das abordagens consiste na captura de imagens de espécimenes vivos, às vezes em grandes planos, às vezes em planos de conjunto que abarcam elementos retirados momentos antes da floresta, quase sempre tornando explícito o trabalho de encenação, seja pelos fundos de estúdio, seja pela inclusão de objectos artíficiais. Afasta-se aqui de certa fotografia científica, tipo National Geographic, que encenando ou preparando a acção opta por apagar ou por omitir os traços do fotógrafo na imagem.

Sanna Kannisto, Zona antissísmica, 2010
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Sanna Kannisto, Rã em heliconia,1997
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Sanna Kannisto, Sabor a néctar(2), 2008
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Sanna Kannisto, Chorophanes spiza, 2010
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quarta-feira, 13 de abril de 2011

O principezinho em Magdala

À semelhança do caso do capitão Charles Speedy, é também em Magdala que o príncipe etíope Alamayou vê iniciar-se a sua representação fotográfica. Mas ao contrário deste, não a controla e não parece ter nela interesse pessoal.
A primeira imagem é feita no mesmo local em que o seu futuro tutor inglês se fez retratar vestido de guerreiro etíope, pode-se ver aliás o mesmo escudo que o capitão usou como adereço. Há nesta imagem apesar tudo alguma força na criança (veja-se a mão firmada sobre o punhal), que será substituida por uma aparente apatia nas fotografias posteriores de Julia Margaret Cameron e Cornelius Jabez Hughes. Dir-se-ia que aqui temos uma criança apreensiva, no meio de um túmulto, mas ainda não uma criança quebrada.
Nesta fotografia feita pelos homens dos Royal Engineers em Magdala, Alamayou, que terá sete anos, apesar do suícidio do pai, Tewodros II, permanece ainda  em algum território de conforto. Não obstante a invasão das tropas anglo-indianas, encontra-se na terra natal, a mãe doente ainda o acompanha, e está rodeado de cortesãos que falam a sua língua nativa, o amárico. Situação radicalmente oposta será a de uns meses depois, quando à chegada a Inglaterra é já orfão de ambos progenitores e foi-lhe cortado qualquer laço com a Etíopia natal. Apenas Speedy falará com ele em amárico, todos os demais usarão o inglês que não domina. Apesar da comoção e compaixão que desperta junto de boa parte da sociedade vitoriana, a começar pela soberana inglesa, será até à sua morte, pouco mais de dez anos depois, um desenraízado.

























Fotógrafos dos Royal Engineers, prícipe Alamayou, Magdala, Etiópia, 1868
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