terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sinais

No interior dum estaleiro de obra, numa área ainda não intervencionada, subsiste um jardim. Desarranjado, com ervas e matagal, apenas as árvores impõem alguma ordem. Algumas foram marcadas com spray fluorescente, circunferências cortadas com um traço vertical no caso dos troncos mais imponentes, traços simples nas árvores mais franzinas. Dizem-me que se trata dos espécimenes a abater quando a construção avançar para os lados do jardim.
Estas ávores fazem-me lembrar filmes velhos e cruéis, vistos em miúdo, em que condenados carregavam pás e cavavam os buracos onde tombariam após o fuzilamento. Também elas carregam os sinais de uma morte anunciada.

Júlio Assis Ribeiro, Sinais, Loulé, 2011

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ainda o capitão


Lawrence Lowe,
Capitão Tristram Charles Speedy, 1868
imagem obtida aqui

Novamente o capitão enquanto Basha Fellaka, numa foto ao estilo da do Cairo (ver O capitão no Cairo), embora um pouco melhor e menos tola.

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Brandos Costumes (5)

Estúdio Horácio Novais, Revolta de 26 de Agosto de 1931
imagem obtida aqui

Eis a entrada de um quartel na rua Marquês de Fronteira, em Lisboa, o do Batalhão de Metralhadoras 1 (ver pormenor), após os combates. A avaliar pelas sombras alongadas, a fotografia terá sido obtida no fim da tarde de 26 de Agosto, ou na manhã do dia seguinte.

Estúdio Horácio Novais, Revolta de 26 de Agosto de 1931, pormenor
imagem obtida aqui

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sábado, 15 de janeiro de 2011

O cão da Imperatriz

André Adolphe Eugène Disdéri, o homem a quem é geralmente creditada a invenção do formato carte-de-visite, gostava de cães.

André Adolphe Eugène Disderi,Auto-retrato,Paris,1858-62
imagem obtida aqui

Fotografou-os durante o seu período de glória profissional e económica. Fotografou o seu, Corral, assim se chamava, alguns outros cães anónimos (eis aqui um conceito interessante!) e ainda o cão da imperatriz Eugénie, esposa de Napoleão III de França. E registou-os com os mesmos critérios que usaria para modelos humanos.

Disdéri, que depois de múltiplos ofícios e falhanços financeiros em Paris, se tornara  fotógrafo daguerreótipista em Brest, na Bretanha, adoptou mais tarde o colódio húmido quando estabelecido em Nimes, no sul de França. Retorna a paris e aí, em 1854, patenteia um processo que produz dez imagens numa uníca placa de vidro com emulsão fotossensível. Na prática virá apenas trabalhar com oito imagens por placa, utizando uma câmara de sua concepção com quatro lentes, e um mecanismo que permitia movimentar a placa após as primeiras quatro exposições. As imagens, depois de impressas ( e convém lembrar que a impressão era feita por contacto), tinham individualmente uma dimensão muito reduzida, aproximadamente a de um cartão de visita.
Embora na realidade não tenha sido o primeiro a trabalhar com este formato ( sabe-se que, em 1851, um fotógrafo de Marselha, chamado Dodero, já o fizera) foi ele quem primeiro o popularizou, e explorou em larga escala. O processo permitia multiplas cópias num uníco procedimento, poupando químicos e tempo, e adequava-se quer ao anónimo pequeno burguês, que podia de forma acessível obter rapidamente vários retratos, quer às celebridades da época, actores, poetas, compositores, que se faziam fotografar e cujas cópias eram vendidas aos milhares.
Em 1859, Napoleão III faz-se fotografar, de forma algo imprevista ao que se diz, entrando subitamente no estúdio de Disdéri e de lá saindo satisfeito. A notícia favoreceu o negócio, que se multiplica por vários estúdios, e Disdéri passará a ser um dos fotógrafos oficiais do imperador.
Fotografará nos anos sequentes boa parte da nobreza, intelectualidade e alta burguesia europeias, tornando-se um mais conceituados retratistas da época, a par de Nadar.
Porém, ao contrário deste último, Disdéri não procura, por assim dizer, captar a psicologia dos retratados. Fotografa sobretudo em corpo inteiro, pose estática. Interessa-lhe mais a iconografia. As roupas, os objectos de ofício do retratado e os adereços são actores principais da sua forma de trabalhar. Quando fotografa gente comum, em exterior, as suas fotos tem outra ligeireza. Mas remetido para o estúdio, perante barões e banqueiros, encosta-os a colunas e balaustradas. Quere-os sérios e hirtos como paus-de-cabeleira.

André Adolphe Eugène Disderi, Príncipe Mikhail Gortchakov, 1859-1861
imagem obtida aqui


André Adolphe Eugène Disderi, Tocador de realejo, Papel salgado, cerca de 1853
imagem obtida aqui

Voltando aos cães, quando Disdéri fotografa Corral, o animal abana a cauda que fica arrastada devido à exposição longa. Encontra-se junto de uma das balaustradas fingidas, mas não há encenação, é apenas um cão de fotógrafo no estúdio do dono. Descontraído, língua de fora, junto à trela de que fora libertado e que se encontra no chão.

André Adolphe Eugène Disderi, Corral,Paris,1850s
imagem obtida aqui

Já o cão da imperatriz é toda uma outra coisa. A imperial criatura aparece-nos em pose altiva , após passagem por cabeleiro canino, empoleirada numa pequena cadeira - um trono à sua escala. Mimetizam-se com o bicho tiques e composições da clientela de sangue mais ou menos azulado. Não estamos perante um cão plebeu.

André Adolphe Eugène Disderi, O cão da imperatriz Eugénie, Paris,1850s
imagem obtida aqui


Não sei se é o meu preconceito republicano, se é o meu gosto por rafeiros, mas a segunda imagem parece-me muito mais circense do que outra coisa. O cão da imperatriz lembra-me os caniches apalhaçados que, há muitos anos atrás, nos estranhos natais televisivos de então, apareciam no Festival de circo de Montecarlo, fazendo habilidades e dando pulinhos por uma festa no focinho.

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A luz e as trevas

O termo Fotografia foi inventado independentemente na Grâ-Bretanha, por Jonh Herschel, e no Brasil, por Antoine Hercule Florence, na primeira metade do século dezanove. Em qualquer dos casos, a origem da palavra é a mesma e significa escrita, ou desenho, com luz.
Mas como tal acontece com a tinta, a luz só por si não funciona. É necessário um suporte, um oposto. A folha branca permite à tinta a leitura, e no caso da fotografia, a luz expõe-se por oposição à sua ausência, à treva ou, se preferirem, à sombra.
Não sendo propriamente dotado de uma personalidade nocturna, tendo a gostar de fotografias que sublinhem este papel das trevas na sua existência, na sua significação.E agradam-me sobretudo as situações em que se verifica uma inexistência de fronteiras claras entre a luz e a treva. Algo parecido ao conceito de sfumato em pintura.


Júlio Assis Ribeiro, Túnel, Tavira, 2011

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Brandos costumes (4)


Estúdio Horácio Novais, Revolta de 26 de Agosto de 1931
imagem obtida aqui

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O capitão no Cairo

A história do príncipe etíope Alamayou que tenho vindo a abordar nalguns textos centra-se, obviamente, no próprio e no seu primeiro tutor britânico, o capitão Tristram speedy.
Para Speedy, a oportunidade de cuidar da criança permitiu brilhar, algo a que a sua personalidade se propiciava, a acreditar nos relatos de terceiros.
Ainda antes de ver confirmada a sua posição de tutor ( que virá a aconter apenas na ilha de Wight, Inglaterra, após o retorno da liderança da Expedição abíssinia à sede do império), o capitão faz-se fotografar durante a passagem pelo Cairo, em cenário operático e exótico, e vestido com as, no dizer de fontes coevas. pitorescas roupas abíssinias.
No verso da fotografia escreve «Yours very truly, T. C. S. Speedy as “Basha Fellaka”», assumindo a teatralidade da coisa. Tristam Speedy ressuscitará nos anos seguintes, e a gosto, a personagem de capitão etíope, título que lhe fora dado pelo derrotado e suícida imperador Tewodros, para variadas audiências e em multiplas ocasiões, aparentemente sem pudor.

Strommeyer & Heymann, Capitão Tristram charles Speedy, Cairo,1868
imagem obtida aqui

Strommeyer & Heymann, verso da fotografia do Capitão Tristram charles Speedy, Cairo,1886
imagem obtida aqui

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