segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Brandos Costumes


Estúdio Horácio Novais, Aviso à População, Agosto de 1931
imagem obtida aqui

A imagem não será brilhante e, dada a época, devo dizer que também não é natalícia ou festiva.
Mas, estranhamente, impressiona e lembra-me a imagem dos grafitos de sangue de Joshua Benoliel, de 1908 (ver Acalmação).
Data de Agosto de 1931, e reporta uma revolta contra a ditadura militar que estava em vias de se tranformar, qual crisálida, no Estado Novo. As forças da oposição, atabalhoada e descoordenadamente, tentam mais uma vez repor a ordem pré-1926.
Falham rotundamente, com um enorme tiro nos pés que incluiu bombardeamentos aéreos falhados e crianças mortas enquanto lançavam papagaios de papel. Ao todo saldou-se a revolta em cerca de quarenta mortos, e a acção do Governador militar de Lisboa e das forças da GNR foi decisiva no seu esmagamento.
A imagem capta um dos avisos à população que são afixados por Lisboa, onde o brigadeiro Daniel de Sousa faz imprimir, em letra a dar para o gótico, o seguinte :
" O Comandante militar determina e faz público:
1º - Que se mantenham em suas casas todos os cidadãos pacíficos e amigos da ordem.
2º- Que serão FUZILADOS todos os indíviduos da classe civil apanhados de armas na mão.
Lisboa, 26 de Agosto de 1931"

Estúdio Horácio Novais, Aviso à População (pormenor), Agosto de 1931

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sábado, 11 de dezembro de 2010

O olhar condescendente

Portugal, na transição de séculos, de dezanove para vinte, afigurava-se no contexto europeu como um paradoxo. Nação periférica, dependente, sem recursos materiais e humanos, quase um protectorado britânico, procurava no entanto impor-se como potência colonial.

Ao contrário de outros países, que começando tarde, se impunham por força do seu poderio industrial e humano, para Portugal a questão centrava-se sobretudo numa tentativa de não ser empurrado para fora do comboio. Resultava estritamente da forma como os portugueses se olhavam a si próprios, e não de um plano operativo organizado. Prestígio, História e orgulho nacional, eram os motores do colonialismo luso. A exploração dos recursos era acessória, limitada e muitas vezes concessionada a estrangeiros, sobretudo aos britânicos.

Faltava a indústria na metrópole para rentabilizar algodão e minério, faltavam recursos humanos para montar uma verdadeira estratégia de saque da riqueza das colónias. Este último ponto era deveras marcante.

Maioritariamente analfabeto, Portugal não possuía gente com capacidade técnica, em quantidade, que pudesse exportar. Às elites da época não era estranho o problema, preocupava-as a pouca qualidade dos colonos, que não tendo uma educação formal, vindos de uma cultura oral à semelhança dos povos indígenas, muito facilmente incorriam naquilo que era, por vezes, designado por cafrização. Misturavam-se, adquiriam hábitos e costumes locais, e aos olhos dos responsáveis coloniais não impunham correctamente a “superioridade” europeia .

Igualmente, esta dita incapacidade nacional não era desconhecida dos concorrentes europeus ou de origem europeia. Os boers, defensores acirrados da sua superioridade cultural, designavam como “cafres brancos” ou “cafres do mar”os portugueses que assumiam o papel de capatazes, intermediários na relação com os trabalhadores africanos.

Os direitos coloniais que os portugueses criam históricos não eram vistos como inquestionáveis pelos demais países. Opunham a este argumento a necessidade da ocupação real dos territórios. As tardias campanhas militares portuguesas tentaram colmatar as fraquezas, mas a fraqueza das forças não impediu o abdicar das pretensões sobre a ligação terrestre entre Angola e Moçambique para o categórico aliado, o Reino Unido, nem as várias disputas fronteiriças com outras forças, nomeadamente alemãs.

O sentido da História parecia virar a página, e os povos ibéricos aparentavam ser triturados pela roda do tempo. O império espanhol que se desfizera em grande parte com as vagas independentistas americanas, sucumbe quase totalmente com a guerra hispano-americana de 1898. O ainda mais fraco Estado português soava ser um improvável jogador no casino colonial, sem trunfos nem hipótese de bluff, sobrevivendo apenas na penumbra do poder britânico. A denunciada decadência dos povos ibéricos, além de ser inegável tema da intelectualidade local, afecta igualmente o olhar condescendente da florescente e industrial Europa do norte.

Insiro aí a imagem de Sarah Angelina Acland, que no início do século vinte se faz fotografar carregada numa rede por dois naturais da Madeira.
 
Sarah Angelina Acland, Auto-retrato em rede com dois carregadores e uma acompanhante, Madeira,Autocromo, 1908-1915
imagem obtida aqui


Poder-me-ão dizer que relacionar esta fotografia com a questão colonial é um exagero ou uma distorção. Que ainda hoje os veículos de tracção humana são uma das atracções turísticas da ilha e que ninguém vê nisso qualquer desconsideração. Porém, o que saliento é que a imagem nos apresenta, não os carros de cesto para turista usar , mas a rede de carregar em ombros, imagem que claramente nos remete para gravuras coloniais (algumas delas portuguesas) do Brasil, de África e do Caribe. Mas saliento mais o que considero ser o olhar da fotógrafa, neste caso. Não é o olhar caricatural, achincalhador, de certa imagética europeia relativa aos povos indígenas.

 J. Wexelsen, Mulher do fotógrafo,Beira,Moçambique,1907
 imagem obtida aqui


É antes um olhar sobre o exótico, o estranho, que é usado como figuração e cenário dos retratados. Uma perspectiva que assenta sobre a diferença do Outro, e a nossa demarcação relativamente a este. Um olhar que encontramos em outros exemplos da fotografia colonial, e que no contexto português é observável, por exemplo, em José Augusto Cunha Moraes, numa ou outra das suas imagens de Angola.

José Augusto da Cunha Moraes,
Caçada ao hipopótamo nas margens do rio Zaire,
Angola, cerca de 1878


Um olhar que perdurará e que ainda dura, mesmo que disfarçado de olhar antropológico ou turístico.
Não será particularmente interessante, para os que se deliciam com fotografias de revistas de viagens, ver o dia-a-dia dos corretores da Bolsa de Bombaim, com os seus fatos europeus e os seus carros alemães, ou uma mina altamente mecanizada no Chile. E no que nos diz respeito, lembro-me de um colega de faculdade austríaco, arribado por via do programa ERASMUS, que se dizia bastante surpreendido por não sermos um país de gente vestida de negro, de mulheres com lenço na cabeça. Percepção que tinha, sem saber explicar porquê.

E o porquê é um sul europeu vago, geograficamente indefinido (tanto pode ser Grécia, Espanha, Córsega ou Portugal), de casas brancas, roupa preta e carga em burros, que na Europa Central e do Norte ainda se vende em pacotes de viagem mais hotel com pequeno-almoço.

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Natureza (a dar para o) morta


Alfred Robinson, Morangos, Diapositivo processo Paget,início do sec. XX
imagem obtida aqui

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O principezinho, o tutor e um outro

 



























Julia Margaret Cameron, Príncipe Alamayou com o Capitão Speedy e um dignatário abissínio anónimo,1868
imagem obtida aqui

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Principezinho

Julia Margaret Cameron, Princípe Alamayou, 1868
imagem obtida aqui


























Julia Margaret Cameron fotografou brilhantemente realeza e poderes imaginários de diferentes proveniências, do mito arturiano ao panteão greco-romano de deuses e reis. Fê-lo com encenação, com técnica e sem receio. Desfocava e expunha longamente, procurava o irreal e o inverosímel, e conseguia-o.
Mas, numa ocasião, fotografou um príncipe verdadeiro. Alamayou é a criança de sete anos que Cameron fotografa por várias vezes. Umas com o seu primeiro tutor inglês,o capitão Tristram Speedy. Outras, novamente com Speedy e um abissínio anónimo. Por fim, Alamayou figura só, em pose de descanso com suposto cenário abissínio e traje a condizer. Furta-se Julia Cameron ao fato de pequeno lorde inglês que o menino usará no seu dia a dia, e com que será registado noutros retratos. Quer o princípe de um império estranho, distante, orgulhoso, misterioso. E quere-o na ilha de Wight.
Mas creio que o ar obviamente triste do pequeno príncipe não é encenado. A sua presença em território inglês não é planeada ou desejada. Capturado meses antes em Magdala, capital provisória da Etiópia ( como quase todas as outras capitais que o reino teve), na sequência de uma expedição punitiva do império britânico, é levado para a Inglaterra após o tremendo massacre em que, quase sem baixas, as forças imperiais dizimam milhares de resistentes etíopes e levam ao suicído do pai de Alamayou, o imperador Tewodros II.
Em rigor, a criança é um troféu e acompanha o produto do saque da corte etíope, nomeadamente a coroa de Tewodros II, que é feito chegar à sede do império.
A rainha Vitória interessar-se-á pelo jovem herdeiro e providenciará para que seja educado como gentleman britânico, encaminhando a criança, que desconhecera a faca e o garfo até aos sete anos, para o mundo dos protocolos e convenções de Oxford. Esperava-se criar um novo imperador à imagem da Europa. Mas o príncipe será sempre um estranho, um prisioneiro, mesmo que sem grilhetas e vestido com o melhor tweed. Pede inúmeras vezes o retorno, ecoando o pedido que a avó tenta fazer chegar em cartas enviadas da terra natal, e que se pensa terem-lhe sido omitidas.
Não acontecerá nunca o retorno. Aos dezoito anos, falhados os estudos na Rugby School de Oxford, e insatisfeito com a academia militar de Sandhurst onde fora entretanto inscrito, Alamayou desvanece-se em seis semanas, após contrair pleuresia durante a estadia em casa de um seu antigo tutor, Cyril Ransome.
Sepultado na capela real de St. George, no castelo de Windsor, Alamayou é ainda hoje alvo de diferendo entre a Etiópia e o Reino Unido, exigindo a primeira o repatriamento dos restos mortais do princípe.

Há, nesta história de príncipes, muito pouco de Saint-Exupéry e bastante de Maquiavel.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

SPECIMEN - O Dia da Naftalina


Júlio Assis Ribeiro, SP_A_TRÇ_01 - Traça, 2010


O bicho é aquilo a que chamam traça. Alguns chamam-lhe também mariposa. E já ouvi meterem-na no mesmo saco das borboletas, embora não ponha, quando em descanso, as asas ao alto.

Têm uma fama terrível as traças. Acusam-nas de comer roupa.
Confesso que nunca vi nenhuma a almoçar uma camisola ou um par de meias, mas juram-me que sim, que as desgraçadas se refastelam de algodão e lã. Até agora, por observação directa, culpo apenas as suas larvas de dizimarem aquilo que pomposamente chamo "O Meu Relvado", porque em resposta costumo tratar-lhes eu da saúde com um granulado que me empesta o quintal por alguns dias.
Mas retornando à roupa, da fama não se livram, e eram as responsáveis por um dia especial que acontecia duas vezes por ano.
Na mudança de estação, no primeiro mais quente ou mais frio, invadia as escolas onde estudei um cheiro adocicado. Em resposta à metereologia, muitos iam buscar roupas que haviam sido resguardadas em roupeiros e arcas, onde as mães, por claros maus instintos, tentavam impedir as comensais de se alimentarem com umas bolas brancas,venenosas, de cheiro forte, que amíúde se põem igualmente nos urinois públicos para disfarçarem o fedor ( conseguindo um inimitável bouquet, mistura sábia de vários pivetes).
Não sou senhor de um bom nariz. Desgraçadamente, essa minha protuberância fecha metade do ano  para obras, por alergias, e pensava que esta memória estudantil, se calhar, era criação mental minha. Mas, conversando com alguns companheiros da época, concluí que não. Todos se lembram daqueles dias de roupa subitamente agarrada das catacumbas, sem direito a lavagem profiláctica. Todos se lembram do Dia da Naftalina.

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domingo, 21 de novembro de 2010

ONTOS - Um atum da Madeira em Oxford

De entre a enorme gama de fenómenos que encontramos na Internet, e que incorrem na categoria de coisas simultaneamente patetas e sérias, existe um jogo intitulado The Oracle of Bacon, criado por Brett Tjaden. Esta pequena maravilha consiste simplesmente num único princípio, o de ser possível relacionar alguém, qualquer pessoa, que tenha tido um qualquer papel na indústria do cinema, com o actor norte-americano Kevin Bacon, em não mais de seis passos. O objectivo do jogo é, obviamente, conseguir fazer essa ligação. E, se possível, num número mais curto de passos.
O interessante é que algo que parece um óptimo exemplo de um produto destinado a queimar tempo de forma orgulhosamente fútil se baseia num estudo sobre a interacção humana , assente em várias experiencias conduzidas por Stanley Milgram e outros investigadores, sobre as redes sociais nos estados unidos, e que conduziram à chamada Teoria do Mundo Pequeno. Esta  parece confirmar cientificamente o velho lugar-comum de “O mundo é pequeno” e diz-nos que em sociedades abertas é possível relacionar qualquer dos seus membros em não mais de seis graus.
Este avanço científico glorifica formas absolutamente parvas de relacionar factos, e abre-nos todo um mundo novo de possibilidades sem que nos possam apontar um dedo acusador. Ao fim e ao cabo estamos a demonstrar o nosso muito douto know-how sociológico.

Um exemplo. Como se pode relacionar um pescador madeirense do século dezanove com a Alice do país das maravilhas?
É fácil! Em meados do século dezanove, pescadores madeirenses capturaram um atum que foi comprado por Henry Acland, médico e professor inglês que se encontrava na ilha acompanhando o paciente e amigo Henry Liddell, deão do Colégio universitário Christ Church, em Oxford. O deão encontrava-se na ilha, à semelhança de muitos dos seus conterrâneos abastados, por motivos de saúde, fugindo à agressividade do inverno britânico. Henry Acland adquire o enorme peixe e providencia que seja encaminhado para Oxford onde, depois de liberto das partes moles, será objecto de estudo nas aulas de anatomia de Christ Church. Actualmente, à semelhança de outras recolhas de Henry Acland, encontra-se ainda na cidade universatária inglesa, no Natural History Museum. Em 1857, Acland solicita ao jovem professor de matemática Charles Dodgson, que se dedicava à recente arte da Fotografia, que registasse o esqueleto do atum.

Charles Dodgson, Esqueleto de Atum, Oxford, 1857
imagem obtida aqui
 
Charles Dodgson fotografará o esqueleto e, mais tarde, fotografará igualmente a filha de Acland, Sarah Angelina Acland, e as crianças do deão de Christ Church, Henry Lidell.
As filhas de Lidell serão, aliás, durante algum tempo os seus modelos de eleição. E uma delas em particular, Alice Lidell, ficará para sempre ligada ao jovem matemático, muito embora essa ligação tenha sido mais tarde minorada por este. Nos passeios e expedições fotográficas que foram feitas, para entretenimento das crianças Dodgson desenvolveu uma narrativa em que estas são personagens. Por insistência de Alice, acabará por fazer um manuscrito com essa narrativa para lhe oferecer. E mais tarde desenvolverá, e apurará, a história, que será publicada com o título de “Alice in Wonderland”, assinada com o seu pseudónimo literário, Lewis Carrol.

E é assim que, aparvalhadamente, se liga um anónimo pescador madeirense a Alice no País das maravilhas em quatro passos.

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