terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O principezinho, o tutor e um outro

 



























Julia Margaret Cameron, Príncipe Alamayou com o Capitão Speedy e um dignatário abissínio anónimo,1868
imagem obtida aqui

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Principezinho

Julia Margaret Cameron, Princípe Alamayou, 1868
imagem obtida aqui


























Julia Margaret Cameron fotografou brilhantemente realeza e poderes imaginários de diferentes proveniências, do mito arturiano ao panteão greco-romano de deuses e reis. Fê-lo com encenação, com técnica e sem receio. Desfocava e expunha longamente, procurava o irreal e o inverosímel, e conseguia-o.
Mas, numa ocasião, fotografou um príncipe verdadeiro. Alamayou é a criança de sete anos que Cameron fotografa por várias vezes. Umas com o seu primeiro tutor inglês,o capitão Tristram Speedy. Outras, novamente com Speedy e um abissínio anónimo. Por fim, Alamayou figura só, em pose de descanso com suposto cenário abissínio e traje a condizer. Furta-se Julia Cameron ao fato de pequeno lorde inglês que o menino usará no seu dia a dia, e com que será registado noutros retratos. Quer o princípe de um império estranho, distante, orgulhoso, misterioso. E quere-o na ilha de Wight.
Mas creio que o ar obviamente triste do pequeno príncipe não é encenado. A sua presença em território inglês não é planeada ou desejada. Capturado meses antes em Magdala, capital provisória da Etiópia ( como quase todas as outras capitais que o reino teve), na sequência de uma expedição punitiva do império britânico, é levado para a Inglaterra após o tremendo massacre em que, quase sem baixas, as forças imperiais dizimam milhares de resistentes etíopes e levam ao suicído do pai de Alamayou, o imperador Tewodros II.
Em rigor, a criança é um troféu e acompanha o produto do saque da corte etíope, nomeadamente a coroa de Tewodros II, que é feito chegar à sede do império.
A rainha Vitória interessar-se-á pelo jovem herdeiro e providenciará para que seja educado como gentleman britânico, encaminhando a criança, que desconhecera a faca e o garfo até aos sete anos, para o mundo dos protocolos e convenções de Oxford. Esperava-se criar um novo imperador à imagem da Europa. Mas o príncipe será sempre um estranho, um prisioneiro, mesmo que sem grilhetas e vestido com o melhor tweed. Pede inúmeras vezes o retorno, ecoando o pedido que a avó tenta fazer chegar em cartas enviadas da terra natal, e que se pensa terem-lhe sido omitidas.
Não acontecerá nunca o retorno. Aos dezoito anos, falhados os estudos na Rugby School de Oxford, e insatisfeito com a academia militar de Sandhurst onde fora entretanto inscrito, Alamayou desvanece-se em seis semanas, após contrair pleuresia durante a estadia em casa de um seu antigo tutor, Cyril Ransome.
Sepultado na capela real de St. George, no castelo de Windsor, Alamayou é ainda hoje alvo de diferendo entre a Etiópia e o Reino Unido, exigindo a primeira o repatriamento dos restos mortais do princípe.

Há, nesta história de príncipes, muito pouco de Saint-Exupéry e bastante de Maquiavel.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

SPECIMEN - O Dia da Naftalina


Júlio Assis Ribeiro, SP_A_TRÇ_01 - Traça, 2010


O bicho é aquilo a que chamam traça. Alguns chamam-lhe também mariposa. E já ouvi meterem-na no mesmo saco das borboletas, embora não ponha, quando em descanso, as asas ao alto.

Têm uma fama terrível as traças. Acusam-nas de comer roupa.
Confesso que nunca vi nenhuma a almoçar uma camisola ou um par de meias, mas juram-me que sim, que as desgraçadas se refastelam de algodão e lã. Até agora, por observação directa, culpo apenas as suas larvas de dizimarem aquilo que pomposamente chamo "O Meu Relvado", porque em resposta costumo tratar-lhes eu da saúde com um granulado que me empesta o quintal por alguns dias.
Mas retornando à roupa, da fama não se livram, e eram as responsáveis por um dia especial que acontecia duas vezes por ano.
Na mudança de estação, no primeiro mais quente ou mais frio, invadia as escolas onde estudei um cheiro adocicado. Em resposta à metereologia, muitos iam buscar roupas que haviam sido resguardadas em roupeiros e arcas, onde as mães, por claros maus instintos, tentavam impedir as comensais de se alimentarem com umas bolas brancas,venenosas, de cheiro forte, que amíúde se põem igualmente nos urinois públicos para disfarçarem o fedor ( conseguindo um inimitável bouquet, mistura sábia de vários pivetes).
Não sou senhor de um bom nariz. Desgraçadamente, essa minha protuberância fecha metade do ano  para obras, por alergias, e pensava que esta memória estudantil, se calhar, era criação mental minha. Mas, conversando com alguns companheiros da época, concluí que não. Todos se lembram daqueles dias de roupa subitamente agarrada das catacumbas, sem direito a lavagem profiláctica. Todos se lembram do Dia da Naftalina.

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domingo, 21 de novembro de 2010

ONTOS - Um atum da Madeira em Oxford

De entre a enorme gama de fenómenos que encontramos na Internet, e que incorrem na categoria de coisas simultaneamente patetas e sérias, existe um jogo intitulado The Oracle of Bacon, criado por Brett Tjaden. Esta pequena maravilha consiste simplesmente num único princípio, o de ser possível relacionar alguém, qualquer pessoa, que tenha tido um qualquer papel na indústria do cinema, com o actor norte-americano Kevin Bacon, em não mais de seis passos. O objectivo do jogo é, obviamente, conseguir fazer essa ligação. E, se possível, num número mais curto de passos.
O interessante é que algo que parece um óptimo exemplo de um produto destinado a queimar tempo de forma orgulhosamente fútil se baseia num estudo sobre a interacção humana , assente em várias experiencias conduzidas por Stanley Milgram e outros investigadores, sobre as redes sociais nos estados unidos, e que conduziram à chamada Teoria do Mundo Pequeno. Esta  parece confirmar cientificamente o velho lugar-comum de “O mundo é pequeno” e diz-nos que em sociedades abertas é possível relacionar qualquer dos seus membros em não mais de seis graus.
Este avanço científico glorifica formas absolutamente parvas de relacionar factos, e abre-nos todo um mundo novo de possibilidades sem que nos possam apontar um dedo acusador. Ao fim e ao cabo estamos a demonstrar o nosso muito douto know-how sociológico.

Um exemplo. Como se pode relacionar um pescador madeirense do século dezanove com a Alice do país das maravilhas?
É fácil! Em meados do século dezanove, pescadores madeirenses capturaram um atum que foi comprado por Henry Acland, médico e professor inglês que se encontrava na ilha acompanhando o paciente e amigo Henry Liddell, deão do Colégio universitário Christ Church, em Oxford. O deão encontrava-se na ilha, à semelhança de muitos dos seus conterrâneos abastados, por motivos de saúde, fugindo à agressividade do inverno britânico. Henry Acland adquire o enorme peixe e providencia que seja encaminhado para Oxford onde, depois de liberto das partes moles, será objecto de estudo nas aulas de anatomia de Christ Church. Actualmente, à semelhança de outras recolhas de Henry Acland, encontra-se ainda na cidade universatária inglesa, no Natural History Museum. Em 1857, Acland solicita ao jovem professor de matemática Charles Dodgson, que se dedicava à recente arte da Fotografia, que registasse o esqueleto do atum.

Charles Dodgson, Esqueleto de Atum, Oxford, 1857
imagem obtida aqui
 
Charles Dodgson fotografará o esqueleto e, mais tarde, fotografará igualmente a filha de Acland, Sarah Angelina Acland, e as crianças do deão de Christ Church, Henry Lidell.
As filhas de Lidell serão, aliás, durante algum tempo os seus modelos de eleição. E uma delas em particular, Alice Lidell, ficará para sempre ligada ao jovem matemático, muito embora essa ligação tenha sido mais tarde minorada por este. Nos passeios e expedições fotográficas que foram feitas, para entretenimento das crianças Dodgson desenvolveu uma narrativa em que estas são personagens. Por insistência de Alice, acabará por fazer um manuscrito com essa narrativa para lhe oferecer. E mais tarde desenvolverá, e apurará, a história, que será publicada com o título de “Alice in Wonderland”, assinada com o seu pseudónimo literário, Lewis Carrol.

E é assim que, aparvalhadamente, se liga um anónimo pescador madeirense a Alice no País das maravilhas em quatro passos.

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terça-feira, 16 de novembro de 2010

A Madeira a cores (5)


Sarah Angelina Acland, Navio na baía do Funchal, Autocromo, Madeira, 1908-1915
imagem obtida aqui

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ONTOS - Pena de Pavão

As penas de pavão entraram, aí pelos anos sessenta e setenta, num certo imaginário decorativo, entre o freak e kitsch. No início do século vinte, porém, não creio que trouxessem tais evocações, e seriam vistas como um bom motivo para aplicar as nascentes técnicas fotográficas a cores.

Autor não identificado, pena de pavão, diapositivo Paget, início do século vinte
imagem obtida aqui

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domingo, 14 de novembro de 2010

ONTOS - Três ovos de Cuco

Sarah Angelina Acland fotografou (além da ilha da Madeira, de plantas e jardins, e de conhecidos) alguns especímenes científicos, animais embalsamados e, como é o caso, ovos recolhidos em saídas de campo.


Sarah Angelina Acland, Três ovos de pássaro, Diapositivo autocromo, 1908-1915
imagem obtida aqui

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