segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Madeira a cores (2)
























Sarah Angelina Acland, Auto-retrato com guitarra e cão, Oxford,
Autocromo,1908-15
imagem obtida aqui

 A maior parte da obra fotográfica de sarah Angelina Acland encontra-se presentemente à guarda do Museum of the History of Science, em Oxford, Inglaterra. Este espólio foi parcialmente digitalizado e é possível a consulta de imagens de baixa resolução através da Internet. Um bom exemplo a ser seguido, em Portugal, por quem guarda e zela documentos fotográficos que caíram fora do âmbito dos direitos de autor. Facilita-se o conhecimento e a investigação- coisas, como se sabe, de pouca importância...
A imagem abaixo é parte dessa obra, e trata-se de um autocromo, de cerca de 1908, com uma vista do Funchal.

Sarah Angelina Acland, Vista do Funchal,Madeira, Autocromo, cerca de 1908 imagem obtida aqui

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domingo, 7 de novembro de 2010

A Madeira a cores

Sarah Angelina Acland nasceu a 26 de Junho de 1849, em Oxford, Inglaterra. O pai, Sir Henry Wentworth Acland, foi um importante professor desta cidade universitária que, conjuntamente com o deão Henry Lidell ( de quem era médico pessoal), ajudou a revitalizar a instituição universitária. Promoveu a criação de uma colecção que permitisse impulsionar os estudos das Ciências Naturais, e deve-se a ele, em grande medida a criação do Oxford University Museum.

Angelina cresce num ambiente onde notórias figuras da cultura e ciência da segunda metade do século dezanove se movimentam e cruzam, e travará conhecimento com muitas delas, nomeadamente John Ruskin, amigo intimo da família. Manter-se-á sempre solteira, gerindo a casa do pai após o falecimento da mãe, Sarah Cotton, em 1878. Depois da morte de Henry Acland, desempenhará diversas actividades beneméritas e, mercê duma confortável situação económica, gozará de uma evidente independência, livre das correntes obrigações da vida familiar.

O contacto com a Fotografia terá provavelmente sido muito precoce dado que o pai, à semelhança de muitos cientistas da época, foi um praticante desta novidade técnica. Foi igualmente uma das muitas crianças fotografadas por Charles Dodgson ( Lewis carroll). Em 1892, tornou-se uma executante de fotografia, facto raro, mas não único, entre as mulheres da sociedade vitoriana. Porém, o que em larga medida distinguirá Sarah Acland, será o pendor experimentalista. Praticará processos técnicos de grande grau de complexidade- trabalhará a platinotípia e será uma pioneira da fotografia a cores. Colaborará com Sanger Shepherd no desenvolvimento do processo que terá o nome deste, e que passava por três exposições simultâneas monocromáticas, com filtros coloridos distintos, que sobrepostas e tingidas forneciam uma imagem diapositiva a cores. Recorrerá igualmente a outros processos que entretanto irão aparecendo como o Autocromo, dos irmãos Lumière, o Dioptícromo de Louis dufay, ou o processo Paget, patenteado por G. Sidney Whitfield.

Senhora de saúde frágil, Sarah Acland irá com alguma frequência, durante o inverno, rumar a espaços de clima mais agradável que o inglês. E à semelhança do que fizera antes o seu pai, optará várias vezes pela ilha da Madeira. Será aí que, nas duas primeiras décadas de novecentos, realizará algumas das mais antigas fotografias a cores feitas em território português.
























Sarah Angelina Acland, Foguetes (Kniphofia uvaria), diapositivo Sanger Shepherd, Madeira, cerca de 1905
imagem obtida aqui 

Como curiosidade, pode-se acrescentar que gozava da fama de ser uma poliglota, e que no seu obituário, publicado no The Times, de 4 de Dezembro de 1930, este facto é salientado indicando que, entre outras línguas, dominava até o português.

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ONTOS - vespa vulgaris

Eis uma fotografia da 55º exposição anual da Royal Photographic Society of Great Britain, em 1910. O autor foi Phillip J. Barraud, membro da  Royal Entomological Society.




Phillip J. Barraud, Queen Wasp -Vespa vulgaris , 1910
imagem obtida aqui

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domingo, 31 de outubro de 2010

Cavalos de luto

Em 1 de Fevereiro de 1908, a família real retorna de Vila Viçosa e chega a Lisboa num vapor, desembarcando junto ao Terreiro do Paço. Esperam-na alguns populares, na curiosidade que a pompa régia desperta. Esperam-na igualmente dois homens, Manuel Buíça, um professor que tentara a carreira militar e fora expulso, e Alfredo Luís da Costa, um empregado do comércio que publicava textos de polémica, ambos conspiradores ligados à Carbonária. Aquando da passagem do cortejo real, estes porão em acção o seu plano para matar o rei, Dom Carlos I, no que serão bem sucedidos. O príncipe herdeiro, Dom Luis Filipe, que resiste aos homens que disparam sobre o pai, será igualmente assassinado. Os regícidas são depois imobilizados, após confusão, tiros e golpes de sabre, e são prontamente mortos pelos polícias presentes.
A 8 de Fevereiro realizar-se-á o funeral régio, o ultimo a ter lugar em território nacional. O trajecto fúnebre inicia-se no Palácio das necessidades e passará pelo Terreiro do paço, local do acontecimento fatídico. Joshua Benoliel faz a cobertura fotográfica e das muitas chapas de vidro que gasta, salta-me ao olho um pormenor marginal. O fotógrafo, que capta os dignitários presentes, as carruagem, as coroas de flores, os auxiliares fúnebres e todos os demais aspectos deste tipo de evento, concentra-se algumas vezes em dois animais enlutados, cobertos de tecido negro. Um, Júpiter, é o cavalo do rei e também ele participa no funeral. O outro, cujo nome não descobri, é o cavalo do falecido príncipe herdeiro e a sua imagem parece-me ser a que melhor descreve o abatimento que a morte de alguém próximo acarreta. Jurar-se-ia que há, da parte do animal, um luto deveras sentido.

Joshua Benoliel, o cavalo que pertenceu ao Príncipe Dom Luís Filipe, 8 de Fevereiro de 1908
imagem obtida aqui

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Amores pelos automóveis

Trabalhar a muitos quilómetros da residência, nesta terra de transportes públicos labirínticos, significa estarmos dependentes de um automóvel. Automóvel que nos pode avariar, assim sem mais aviso, junto a uma curva, e nos faz perder uma tarde de trabalho.
A mim irrita-me perder uma tarde de trabalho. E fazer dessa tarde um episódio de uma comédia fraquinha, que envolve ligar a um serviço de atendimento eficaz (como se fosse alemão), mas que depois me faz, após seguir para oficina como pendura no reboque (onde sou informado que é coisa pouca, nada que MUITOS dias de trabalho não paguem), ter de arranjar boleia para uma cidade a quilómetros, e meia hora, de distância para aceder a um veículo de substituição, pelo qual tenho de avançar com uma caução. Quando finalmente sou senhor deste carro provisório, é demasiado tarde para percorrer os quarenta quilometros que faltam para chegar à última aula que ainda poderia dar.
Não, hoje não estou de amores pelos automóveis.

Estúdio Mario Novais, Garagem, s/data
imagem obtida aqui

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Lendo
























Fotobiografias do século XX - Joshua benoliel, de Joaquim Vieira,2009, Edição Círculo de leitores.

Não é barato, mas comprado online fica mais em conta. Vale a pena, não será exaustivo (nem sei se tal será possível em 200 páginas, com um homem que fez milhares de fotografias), mas anda perto e abre-nos o apetite para saber mais.

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A Formiga Branca

Associar num texto as formigas, insectos sociais hierarquizados, a exércitos, humanos organizados e hierarquizados, não é uma imagem inovadora. Porém, olhando-se para a Fotografia jornalística portuguesa dos primeiros anos do século vinte, podemos observar situações em que esta associação não é um recurso estilístico,  é antes algo bem literal.
Veja-se, abaixo, a fotografia de Anselmo Franco.

Anselmo Franco, Revolução de 14 de Maio de 1915
imagem obtida aqui


A imagem refere-se a acontecimentos de Maio de 1915, em que uma revolução armada pôs termo à chamada Ditadura de Pimenta de Castro. A dita ditadura nascera de uma iniciativa institucional promovida, em Janeiro de 1915, pelo presidente Manuel de Arriaga, que convidara o general para chefiar o governo, ignorando o parlamento dominado pelo Partido Democrático de Afonso Costa.
Pese embora o título, o governo nunca se impôs na verdade, minado quer internamente, com ministros em desacordo, quer pela acção dos democráticos.

O Partido Democrático,  que em rigor era o velho Partido Republicano Português (onde apesar das dissenções dos Unionistas e Evolucionistas, se mantivera a quase totalidade da máquina propagandistica e da estrutura organizativa prévias), organizou-se e, entre apelos públicos à insurreição, preparou o golpe.
No início de Maio,o governo perdeu definitivamente também o apoio dos Unionista e então tudo se precipita. A 14 de Maio alguns membros da armada, forças do exército, da GNR, e muitos civis tomaram de assalto o arsenal da Marinha. Durante três dias, trocou-se fogo entre diversos pontos de Lisboa, e entre estes e vasos de guerra no Tejo. Haverá cerca de 200 mortos e mais de 1000 feridos.
A 17 de Maio está concluído o episódio com a vitória dos revoltosos. Anselmo Franco capturou um cortejo marchante dos vencedores. Encabeçam-no civis armados, homens da Formiga Branca, uma milícia mais ou menos informal, mais ou menos reconhecida, constituída em larga medida por membros da Carbonária. Esta milícia funcionou durante grande parte da 1ª República como tropa de mão do Partido Democrático, agindo como uma polícia política por vezes (denunciando,atacando e prendendo opositores dos Democráticos),e como uma força musculada outras vezes (cortando estradas, atacando sedes de jornais e até derrubando governos).

Voltando às figuras de estilo, pode-se ver na Formiga Branca uma alegoria. O nome do bicho é um sinónimo de térmita, insecto também sociável e que atacando a madeira, de que se alimenta, é responsável pela destruição contínua e vagarosa de muitas construções. A milícia a que o Partido democrático recorria minou, anos a fio, um dos princípios base do tecido social do Estado -o monopólio da força. À semelhança de térmita em casa de madeira, a Formiga Branca era um sinal, e uma causa, da derrocada lenta do edifício institucional da primeira república.

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