sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SPECIMEN

Desculpem-me por insistir, mas publico agora o pequeno texto que redigi para apresentação da exposição SPECIMEN, e que constará numa brochura:

"Gosto há muito de fotografia, e exerço-a a espaços, como um desafio pessoal. E desde uma idade muito precoce, tenho também alguma fixação relativamente ao processo científico, aos seus desenvolvimentos, às suas figuras e à sua história.
Dois interesses concomitantes, conexos. A fotografia nasce, enquanto prática viável, de duas pulsões - uma artística, capturar a imagem; outra científica, fazê-lo com a ajuda da Física e da Química. Os seus dois pais reconhecidos, Daguerre e Fox Talbot, geraram-na por processos diferentes, em tempo quase síncrono. O francês era um antigo pintor que se dedicou à Química, e o inglês era um homem de ciência que se recusou a aceitar a sua incapacidade de registar, num desenho aceitável, aquilo que via.
No início, a Fotografia era distante, complexa, difícil. Antes de se industrializar, exigia recursos, técnica e talento inacessíveis a quase todos. Poucos podiam manipular materiais perigosos, vapor de mercúrio ou algodão-pólvora, e carregar câmaras pesadas de madeira e caixas com chapas de cobre ou vidro. Poucos tinham tempo e dinheiro para tal.
Não estranhamente, muitos dos seus primeiros cultores eram cientistas. Dominavam já parte das ferramentas do ofício que a fotografia exigia. E a par das imagens dos géneros consagrados da pintura, paisagem e retrato, que os pioneiros emulavam na sua prática fotográfica, nascem outras, derivadas dos seus interesses naturais. Fabulosas fotografias dos objectos dos estudos científicos – amostras provenientes do trabalho de campo, rochas, cristais, fósseis, ossadas; objectos de estudo catalogados, etiquetados e expostos em Museus; fragmentos e peças arqueológicas.
Este trabalho, não artístico nas suas intenções, surpreende-nos. A fotografia, processo mecânico e químico, transmite-nos um olhar pessoal, uma perspectiva única. Há na fotografia como que uma intensificação da experiência sensorial. O quotidiano e o banal, são-nos atirados à cara com uma consistência e uma singularidade reveladoras. As amostras são frequentemente escolhidas para representar universalmente algo, uma espiga representa todas as espigas. Mas a fotografia, ao contrário do desenho, tende a acentuar a sua individualidade, aquela espiga é aquela espiga.
Comecei, em 2002, a registar digitalmente objectos orgânicos vulgares, fruto de uma recolha aleatória, casual, ocasional. Nada de exótico, objectos com que nos cruzamos sem que estes se destaquem, sem que se apartem do ruído visual. Pretendi de alguma forma, simular o olhar científico, que questiona o que é tido por certo. Criar fictícias imagens dum catálogo de Museu de Ciências Naturais, de especímenes apresentados no interior de caixas forradas com veludo negro. Imagens simultaneamente nítidas e com pouca profundidade de campo, metáfora da proximidade e do entendimento íntimo destes objectos que julgamos conhecer, mas para os quais não olhamos verdadeiramente. Imagens digitais acabadas sem manipulações, além das que são possíveis com a fotografia analógica, alguns ajustes em termos tonais e repicagem."

Júlio Assis Ribeiro
SP_V_SRLH_01,
 Serralha (Sonchus oleraceus),2004

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Falta de Vergonha

Existem aqueles que desenvolvem trabalho de qualidade excepcional e que, por pudor, jamais o revelam ao olhar público. E existem aqueles que, por falta de vergonha ou por simples inconsciência,  se põem em bicos de pés e insistem em expôr a sua pouca competência técnica, o seu desconhecimento e a sua inépcia estética.
Cabe-me dizer, com orgulho e vaidade, que passarei fazer parte deste último grupo.

Com a muito simpática colaboração da Casa Azul, em Cacela Velha, e o apoio da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, será inaugurada dia 8 de Setembro deste ano, a exposição SPECIMEN, onde estarão patentes fotografias de uma série que tenho insistido em fazer desde 2002.
Esta provação durará até ao dia 1 de Novembro de 2010.

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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A Peregrinação de Solomon Nunes Carvalho

Quem, como eu, cresceu e se escolarizou nos anos oitenta foi bombardeado com um discurso vago, mas constante, sobre a expansão portuguesa. Já não era o discurso gongórico e instrumental do Estado Novo, era uma narrativa com poucos factos, difusa, mas que nem por isso deixou de ser omnipresente. Quase todas as terras deste canto europeu tiveram nessa altura um monumento às descobertas, uma avenida das descobertas, uma ponte das descobertas. Depois do PREC, da descolonização atabalhoada, de um período em que a presença portuguesa em territórios além desta pequena parcela da Península Ibérica, e dos apêndices insulares, foi um anátema ideológico, reconstruiu-se uma identidade histórica. Algo envergonhada é certo, que omitia a palavra império, mas que recorria a torto e a direito, sem medo de redundância, a expressões como vocação e desígnio nacional. O interessante é que esta versão leve dum velho discurso, começado a desenvolver pelo republicanismo, apesar de desestruturada, e de limitada nas referências, se revelou eficaz. Ao contrário da verborreia Imperial da ditadura, penetrou sem picar, não fez mossa aparente e não criou anticorpos. Subliminarmente, a minha geração sente que houve uma altura em que neste país se fizeram coisas com propósito, organização e glória. Houve uma altura em que o país funcionou. Depois, estragou-se.

Esta percepção entranhou-se através da constante referência à mítica Escola de Sagres, aos resumos dos Lusíadas com que os alunos se furtavam à leitura do original, às ligeiríssimas referências a Tordesilhas e a Afonso de Albuquerque nalguns manuais, e à repetição constante em noticiários, programas televisivos e discursos políticos, de lugares comuns acerca da singularidade e grandeza do Portugal de quinhentos.
A complexidade de motivos e as causas estruturais que levaram à expansão portuguesa, parecem-me hoje terem estado arredadas desses anos, curiosamente quando o Estruturalismo era tardiamente uma moda. E da literatura portuguesa do período pouco nos falaram, para além dos não lidos, e panegíricos, Lusíadas. Da fabulosa Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, desse retrato de um Portugal expansionista ora corsário, ora mercador, ora missionário, ora guerreiro, ou tudo junto ao mesmo tempo, pouco ou nada além do Fernão Mentes Minto me lembro de ter ouvido. O mesmo se passou quanto à História Trágico-Maritíma , e à sua descrição de uma expansão feita com naus mal construídas, sem equipamento, com excesso de gente e tripulação inexperiente e ignorante.
A descoberta do imenso mar de quatrocentos e quinhentos, e a expansão militar e comercial de então, parecem-me ter sido feitas com a típica, e actual, mistura de peso estatal e informalidade, de projecto e improvisação, de génio pessoal e tolerância colectiva com a incompetência e a ganância, de amoralidade e compaixão,de razões de Estado e propósitos pessoais. Não herdámos um Portugal estragado, o pais sempre foi uma fabulosa construção clandestina.
Aquilo que as narrativas oficiais tentam encobrir e mascarar por, em termos de discurso identitário nacional, ser tido como defeito, é possivelmente a verdadeira face do nosso ser nacional, caso exista tal coisa. Estes traços não são um exclusivo pátrio, mas serão em nós estatisticamente mais relevantes.
Outros povos têm a sua quota-parte de ignorantes ambiciosos, de derrotados gloriosos, de coisas que poderiam ter sido grande coisa, mas que não passaram de uma coisa qualquer. Mas creio que não constroem a sua mitologia em torno ou em fuga de tal.

À semelhança dos portugueses antigos, os norte-americanos , a seguir à independência e à estabilização do edifício institucional, também levaram a cabo a uma expansão, adquirindo território quer por via de compra, quer por via da guerra. E em meados do século dezanove viram-se perante o facto de existir um verdadeiro mar de terra inexplorada, largamente desconhecida, entre os estados do leste e os territórios da costa Oeste. Inversamente à dita expansão portuguesa, conheciam os caminhos marítimos mas faltava-lhes saber o que existia entre os portos, para os ligar. Realizar expedições com propósitos mistos- comerciais, militares e científicos- foi algo que o estado nascente se viu na necessidade de fazer, quer por iniciativa e financiamento directos do Congresso , quer com a sua tolerância relativamente a diligências de carácter mais privado ou pessoal.
Os períodos de expansão, e os de guerra, parecem ser propícias a figuras ambiciosas e de ego desmesurado. Nos Estados-Unidos de meados de novecentos, organizar, liderar e participar em expedições era uma forma de auto-promoção política eficaz. A realização e a publicitação destes feitos revelavam-se um veículo de singularidade e de distinção nacional.
John Charles Frémont foi uma das figuras que seguiu esta via. Personagem controverso, ambicioso, impetuoso e contraditório, nasceu de uma relação extraconjugal entre uma jovem pertencente às famílias terratenentes da Virginia e um professor francês, contratado para ela pelo sexagenário marido. A fuga de Anne Beverley Whiting com Charles Fremon para Savannah, escandalizou a cidade de Richmond , e o nascimento de John Frémont dá-se num contexto de ilegitimidade e desaprovação social, a que alguns atribuem a origem da ambição e ânsia de protagonismo posteriores. Após concluir os estudos, o jovem Frémont inicia actividade militar, primeiro no navio USS Natchez, como instrutor de matemática, e mais tarde no Corps of Topographical Engineers. De 1842 a 1846, chefiará três expedições em território não cartografado do interior norte-americano.


Mathew Brady, Jonh C. Fremont, cerca de 1860
imagem obtida aqui

Em 1846, enquanto tenente-coronel participará na guerra com o México. Em resultado desta partipação será, por um curto período e erroneamente, nomeado governador da California. Nomeado pelo comodoro Stockton, veio a verificar-se que este não possuía tal competência. Esta pertencia ao presidente , que teria atribuído para o cargo o brigadeiro Stephen Watts Kearny. Perante a recusa de renunciar ao cargo, John Charles Frémont foi preso e levado a tribunal marcial, onde foi condenado por motim e desobediência, tendo sido afastado do exército.
Como forma de recuperar a sua imagem pública, com o apoio do sogro, o influente senador Benton, em 1848, Frémont irá iniciar uma quarta expedição com o intuito de definir uma rota para o caminho-de-ferro ao longo do 38º paralelo. Esta acabará tragicamente com a morte de cerca de um terço dos seus membros , resultado de más opções perante a dureza do inverno.
Em 1853, empreenderá um quinta e última expedição igualmente destinada a estabelecer um percurso para o caminho-de-ferro. Será nesta que participará Solomon Nunes Carvalho como fotógrafo. John Charles Frémont, terá contactado Solomon com o intuito de documentar o percurso e, desta forma, garantir credibilidade às descrições dos relatório que pretendia realizar posteriormente. Era prática corrente as expedições fazerem-se documentar com o trabalho de artistas que desenhavam as paisagens percorridas e os povos encontrados, mas esta documentação era por vezes alvo de desconfiança, atribuindo-se muito do desenhado à fantasia dos artistas. Frémont tentara ele próprio realizar daguerreótipos, mas fora incapaz de obter resultados aceitáveis. O recurso a Solomon acabou por ser uma opção mais fiável. Já o que levou Solomon, um estabelecido fotógrafo e artista, homem casado e pai, a aceitar tal proposta, arriscada e sem grande proveito aparente, não é claro nem para o próprio, que atribui a aceitação a um ímpeto não particularmente reflectido.
Solomon Nunes Carvalho, para além de fotógrafo da expedição, acabará por ser o verdadeiro cronista da mesma, dado que o projectado relatório de Frémont nunca chegará a ser concluído. Ao longo da expedição, no Outono de 1853 e inverno de 1854, tomará notas e registos até ser finalmente deixado no povoado Mórmon de Parowan, no Utah, bastante debilitado e em risco de vida. Destas anotações e das que tomará até finalmente atingir a Califórnia, já por sua conta, nascerá o livro” Incidents of Travel and Adventure in the Far West”, com o subtítulo” With Col. Fremont's Last Expedition”, concluído em 1856 e publicado no ano seguinte.
Esta obra é uma narração, na primeira pessoa, das ocorrências, dos lugares e dos pensamentos vividos. Oscila entre a enumeração e o picaresco, e é um fabuloso manancial de informação para que investiga a História norte-americana. O simples facto de percorrer o território de um país em construção permitiu a Carvalho, um burguês citadino e judeu praticante, ser testemunha de momentos iniciais e derradeiros, transitar em alguns dias apenas de provações quase fatais para o convívio e o apreço das elites, conhecer povos e culturas que definhavam e se extinguiam, e outros que se edificavam ou se redefiniam.
De John Charles Frémont, Solomon transmitirá uma descrição permanentemente elogiosa, não hesitando em apontá-lo como um dos homens mais merecedores de ascender à presidência dos Estados-Unidos (crê-se que a publicação se deu num quadro de apoio à candidatura do explorador, e a obra é mesmo dedicada à sua esposa, Jessie Benton Fremont). Mas este tom  é contradito pela própria natureza dos factos descritos. Frémont, revela-se neles um homem distante, inquestionável, que se vê superior, mas que em boa medida é incapaz de disciplinar os membros da expedição, de planear eficazmente, e de conduzir com segurança os que o acompanham. É impetuoso, arrisca desnecessariamente e decide sem consultar. Lembra, de certa forma, a figura de António de faria, da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto- venerado e respeitado além do seu real valor, arrisca quem o acompanha.
O livro inicia-se com o convite a Solomon, a aceitação deste e a partida à pressa, com equipamento impróprio e improvisado pelo próprio fotografo. Descreve Carvalho a resistência dos muleteiros ao seu trabalho que, para eles, atrasava a expedição. Descreve sabotagens e roubos. Não esconde a profunda admiração pelos guias índios Lenape, ou Delaware. Observa a espantosa resistência das mulas mexicanas, perante a fragilidade revelada pelos cavalos que acabará por o fazer percorrer boa parte do percurso a pé, ao ponto do seu calçado se desfazer. Regista a profunda diversidade e complexidade das Nações índias, do orgulho e poder dos Cheyenes, em plena guerra com os Pawnees, à miséria extrema dos Piede, que sobreviviam semi-nus tentando trocar cobras e lagartos por vestuário e outros artigos. Testemunha a conferência entre o governador do Utah,Bringham Young, e o chefe Wakara, dos índios Ute, com vista a acabar com uma confusa guerra entre mórmones, mericats ( aventureiros americanos não mormons, que percorriam o Utah) e os Ute.
Vive e descreve realidades extremas e novas. Observa as imensas manadas de bisontes e fotografa-as. Percorre montanhas cobertas de neve, sob temperaturas negativas. Sobrevive dois meses comendo a carne das mulas e dos cavalos sacrificados, e de porcos-espinho abatidos pelos guias. Quase morre de disenteria e de exposição ao frio. É deixado para trás a convalescer, sem o equipamento fotográfico, levado por Frémont, no meio de colonos mórmones. Observa e discorda do sistema de esposas espirituais, nesse tempo em que a poligamia era doutrinária na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Com equipamento cedido pinta retratos de governadores, e de outras figuras influentes, dos estados do Oeste. Atravessa desertos e lagos secos. Encontra figuras rupestres e ossos fossilizados de animais pré-históricos. Cruza-se com pesquisadores de ouro. Permanece em Oásis, encontra fontes envenenadas com animais mortos e aflorações de água densa que não permitem a imersão. Conhece as nascentes cidades de Los Angeles e San Francisco, onde assiste à omnipresença do Jogo como força destrutiva, e a uma criminalidade assustadoramente alta, ceifando maioritariamente índios e mexicanos. Bebe o vinho branco da Califórnia, feito pelas famílias ricas de origem espanhola que transitam da soberania mexicana para América sem perder privilégios e poder.
Nas suas peregrinações ( a palavra é dele, usa-o no livro) encontra e relata um Oeste bem mais complexo e rico do que aquele que nos chegou mastigado pelo cinema norte-americano (a mitificação opera simplificando, e o Oeste dos filmes é geralmente tão mítico quanto o glorioso Portugal das Descobertas). Depois, retorna ao Leste com a ajuda dos irmãos Labatt, da diminuta comunidade judia de Los Angeles, e remete-se nova e permanentemente para a sua condição urbana e recatada, deixando-nos a espantosa aventura de um judeu de origem portuguesa, que antes de saber montar a cavalo, aceitou atravessar um continente para fotografar o que não se conhecia.

Autor desconhecido,Solomon Nunes Carvalho e o seu filho David Nunes ,1872
imagem obtida aqui

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domingo, 11 de julho de 2010

Faroeste

Não que daí advenha grande mal ao mundo, mas creio pertencer à última geração que brincou aos cowboys e aos índios. O primeiro filme que vi num cinema, vi-o num cinema a sério (daqueles com plateia e balcão, e várias centenas de lugares) e foi uma obra inenarrável e boçal, exemplo típico da agonia do western. Tratava-se de “Trinitá, o cowboy insolente”.
Adorei! Eu, o meu irmão mais novo e o meu avô, que nos levou! Nós e a torrente de gente que encheu o cinema nessa noite! Uma torrente que comia pipas (sementes de girassol) e não pipocas. Que assobiava, gritava e aplaudia a cada murro, salto e pirueta de Bud Spencer e terence Hill, e que, no entretanto, provocava os vizinhos do lado e de baixo, atirando as cascas das pipas. A saída do cinema deu-se em apoteose, com profunda satisfação e imersos numa maralha que dispersou a pé, ou montada em motorizadas de escape livre e de outra artilharia. Tudo num enorme banzé, próprio do Portugal pós-PREC e ainda pré-CEE e pré-ASAE .
Mas os "Cóbois" há muito que haviam entrado no meu vocabulário e imaginário. Creio que mesmo antes de os meus pais comprarem a primeira televisão, e de eu começar aí a ver os filmes do John Wayne e companhia, já brincaria com o meu irmão mais velho, com pistolas idealizadas a partir de ramos secos, e arcos e setas manhosas criadas por nós.
O que nos levaria a nós, moçanhada mais ou menos europeia, em fins do século vinte, a imaginarmo-nos no imensamente distante Faroeste norte-americano? O nosso século dezanove não foi livre de peripécias e de foras-da-lei. Também tivemos uma guerra civil, então. E bandidos que assaltavam carruagens. Mas o facto é que ninguém, que eu me lembre, teve a ideia de brincar aos liberais e miguelistas (de que aliás nunca ouvíramos falar), nem ao Zé-do-telhado. Só o facto de não termos, na serra algarvia, índios e de o nosso Cinema ser incapaz de fazer filmes que nos empolgassem, poderia explicar a capacidade de nos imaginarmos numa envoltura que nos era totalmente alheia, pensei durante muito tempo.
Foi com grande divertimento que, há uns anos, quando via um documentário sobre a diáspora açoriana, descobri que afinal o Faroeste até tinha qualquer coisa a ver connosco. Para meu espanto descobri que o criador de gado do Novo México que denunciou a localização de Billy "The Kid" ao xerife Pat Garrett era português. Que um tal John Phillips, batedor do exército da União (que conseguiu furar o cerco que dois mil índios Sioux, Cheyenne e Arapahos mantinham a Fort Phil Kearny, e garantir a ajuda que salvou noventa soldados) era na realidade Manuel Filipe Cardoso, nascido no lugar de Terras, Lajes do Pico, a 28 de Abril de 1832. Descobri que outros nomes, como John Vey ou John Enos, não eram senão a denominação americana de João da Cunha Veiga e João Ignácio d’Oliveira. O distante Oeste não tinha sido distante o suficiente para impedir que muitos portugueses, açorianos na sua maioria, lá chegassem fugidos da miséria nacional e em busca do ouro e do sucesso. Fizeram-no à sua maneira, no nosso modo Low Profile. San Francisco desenvolveu-se alimentado por hortelões portugueses.

Mais recentemente, navegando no sítio da Biblioteca do congresso dos Estados-Unidos, deparei-me com um nome estranhamente português - Solomon Nunes Carvalho.
Pesquisei um pouco. O nome era, de facto, português. Homem de negócios, pintor, fotógrafo e inventor, Nunes carvalho nasceu na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, com direito e deveres de cidadania. Descrevia-se como um republicano ( enquanto ideal de governo, não enquanto opção partidária). Pertencia porém a uma comunidade que sempre definiu como portuguesa, e que dessa definição estranhamente não abdicou, apesar da forma como a nação de origem a tratou. Nunes Carvalho provinha de uma família da elite cultural, comercial e técnica judaica portuguesa, das que, em vagas sucessivas, foram sendo forçadas ao exílio e ao desterro em lugares tão variados quanto Amesterdão, Londres, Salónica, Istambul ou o Caribe.
É o facto de pertencer a uma comunidade com peso cultural, e económico, que explica a capacidade de fazer prevalecer um nome tão impronunciável para um americano, como é o apelido Carvalho ( é relevantemente divertido ver como, em vários textos de língua inglesa, os autores se sentem na obrigação de colocar, entre parêntesis, a forma correcta de o pronunciar- a qual, segundo eles, será qualquer coisa como cárvaio). Ao contrário do grosso da restante diáspora portuguesa, a família de carvalho não era analfabeta , nem fugia da miséria e da fome. Não estivera, como muitos milhares de emigrantes, à mercê da ignorância e prepotência de funcionários que anglicizavam a eito nomes portugueses, italianos, polacos ou gregos.
Solomon Nunes Carvalho notabilizou-se como fotógrafo daguerreótipista , e foi, tão somente, o primeiro homem a fotografar os imensos espaços, as fabulosas paisagens, e as figuras do Oeste Americano.



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Solomon Nunes Carvalho, auto-retrato, cerca de 1850
imagem obtida aqui

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terça-feira, 29 de junho de 2010

O Moisés analítico

Serei hoje aquilo que se designa por agnóstico. Acredito que a fé é algo que não é do campo da razão, e que não é passível de prova. Sou estruturalmente um céptico, mas creio que não faço das minhas dúvidas a medida com que aprecio e interpreto os outros. Não julgo negativamente aqueles genuinamente têm crenças religiosas, mas também não condescendo com aqueles que para mim olham como tendo uma deficiência, ao não ver e sentir aquilo que para eles é tão óbvio. 
Mas devo dizer que estes assuntos não são para mim uma premência, nem me alteram estados de alma. Não pretendo convencer ninguém, até porque, na realidade, não sei nada acerca da existência, ou não, de Deus. E tal não me tira o sono.

Mas, em miúdo, lembro-me de ser bombardeado por alguns familiares, outros que não os meus pais, com alguns populares conceitos da área religiosa como os de pecado, salvação eterna e juízo final. Muitas das histórias que me eram trazidas provinham do Antigo Testamento, e eram lineares, inverosímeis e cruéis como contos populares. Lembro-me, muito novo, de considerar as histórias de Noé, da criação, de Jó, entre outras, como não batendo certo. Quem mas contava tinha delas uma interpretação literal, e quando eu objectava (tipo: porque é que no génesis diz que a lua é um luzeiro se, na realidade, é um espelho da luz do sol?) ou se engasgava com uma resposta que não me explicava nada, ou me calava com o olhar “Este moço tem a mania que é parvo!”. 


Teria, penso eu, onze anos quando a RTP1, único canal nacional então captável em Tavira, passou uma série que retratava a aventura, a bordo do navio HMS Beagle, dum homem jovem que duvidava. Esse homem, a quem haviam destinado que visse a ser um padre anglicano, chamava-se Charles Darwin. Conseguira convencer um pai relutante e embarcara como naturalista numa expedição que visava mapear a costa da América do Sul. A leitura de"Princípios da Geologia" de Charles Lyell, que considerava que os processos geológicos se desenrolavam ao longo de espaços temporais muito alargados, e a suas próprias observações da natureza, levaram-no a crer que não havia uma concordância entre a descrição mítica da criação da Terra, constante no Génesis, e a realidade objectiva. As cartas que enviou durante a expedição, com as suas observações, e os espécimes que fez chegar à Grã-Bretanha, tornaram-no uma sumidade ainda antes do seu regresso. Até o pai, que antes o olhara com desapontamento, se entusiasmou e providenciou meios para que pudesse autonomamente continuar a desenvolver os seus estudos. O resto, já toda a gente sabe- a publicação de “A Origem das Espécies”, em 1859, provocou polémica então, e mudou radicalmente a forma como olhamos para nós e para a nossa história. As próprias religiões, pelo menos as mais estruturadas, convivem hoje pacificamente com a ciência e a leitura dos textos bíblicos saiu, em larga medida, do campo da Literalidade.


Olho para essa série televisiva como o momento em que claramente me apercebi que duvidar não era um problema. Que é necessário acreditar em algo só porque todos os demais acreditam, e que as crenças são apenas isso, crenças. A razão e a Objectividade são de outro campeonato.


Curiosamente, das várias fotografias de Charles Darwin, aquela que mais gosto é a que foi realizada por Julia Margaret Cameron, em 1868. Nesta imagem, Charles Darwin fica próximo da figura de um profeta bíblico de longas barbas, de um Moisés de filme mudo de Cecil B. Demille.
Mas é um Moisés de olhar carregado, céptico, analítico. É um Moisés depois de 40 anos no deserto  do Sinai. Não é um Moisés de bastão a abrir magicamente as águas do Mar Vermelho. 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Julia Margaret Cameron, Charles Darwin, 1868

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ano prodigioso

Dizem algumas vozes mais temerárias que o verão vem finalmente aí, neste ano prodigioso. Vai para cinco dias que não chove, aqui no Algarve estranho.

Para-brisa durante uma tromba-de-água, perto de Tavira, Abril de 2010

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sábado, 5 de junho de 2010

A incrédula Deusa das frutas

A pequena musa que motivou "Alice no país das Maravilhas" de Charles Dodgson (Lewis Carroll) e que foi modelo de algumas suas fotografias (ver A verdadeira Alice, Observe-se agora esta, Observe-se) viria a cruzar-se, em 1872, com outro dos grandes nomes da era pioneira da fotografia – Júlia Margaret Cameron.

Charles Dodgson privou com o grupo de artistas da irmandade Pré-rafaelita, núcleo da elite artística inglesa que combinava de forma muito peculiar referências clássicas, revivalismo medieval e imaginário céltico. Porém, a sua Fotografia nunca vestiu verdadeiramente as roupagens pré-rafaelitas. O papel de ser, de alguma maneira, a representante fotográfica dessa corrente estilística coube a Júlia Cameron.

Alice Liddell foi por ela fotografada em duas representações. Numa, intitulada Aletheia, aparece personificando a Verdade.




















Julia Margaret Cameron, Aletheia, 1872

Na outra, intitulada Pomona, representa a divindade romana das frutas, dos jardins e dos pomares. Deusa inicialmente imune ao Amor, resiste às investidas das divindades masculinas, mas acaba por se apaixonar por Vertumno, Deus das Estações e do crescimento, que a convence, após sucessivas e dissimuladas aproximações, através do poder da argumentação.


 




















  

Julia Margaret Cameron, Aletheia, 1872 


As duas fotografias demonstram de forma muito clara a estética Pré-rafaelita, com o seu pendor estilizado, o gosto pelo vegetalismo e o seu carácter algo recatado e sereno. Mas, olhando-se para Pomona, o que se parece destacar é olhar duro, a expressão e postura rígidas que demonstram uma aparente incredulidade relativamente ao seu papel de deusa das frutas. Características visíveis treze anos antes, na fotografia de Charles Dodgson( ver Observe-se agora esta), em que Alice Lidell, então uma criança de personalidade forte, enfrenta decidida a câmara, vestida de mendiga e com uma postura de braços muito semelhante.

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