domingo, 16 de maio de 2010

Os esqueletos e o pássaro extinto

Se alguns reduzem a obra fotográfica de Charles Dodgson (Lewis Carroll) à alegada deriva voyeurística de um homem excêntrico, e se esforçam por ver na fotografia de Alice Liddell, vestida andrajosamente como mendiga, a prova de uma perversão que o levou a escrever uma obra fundamental da literatura infantil, outros há que conseguem ver um fino sentido de humor em muitas das suas fotografias, criando aí uma melhor ponte com as características da sua obra literária. Melhor que a representação literal da criança que esteve na origem do seu livro mais famoso.

Sinto-me tentado a concordar com quem considera que a sua foto de 1857, Reginald Southey com esqueletos de homem e macaco, nos diz muito mais do olhar criativo e humoroso dum homem que se diz ter-se feito representar como um pássaro extinto, o Dodo, em “Alice no país das maravilhas". A gaguez de Dodgson levava-o a hesitar quando se apresentava, repetindo a primeira sílaba do seu sobrenome.

Rev. Charles Dodgson,
Reginald Southey com esqueletos de homem e macaco,
Junho de 1857
imagem obtida aqui





John Tenniel,
Ilustração com o Dodo em "Alice’s Adventures in Wonderland",
Londres, 1865
imagem obtida aqui


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quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Camera Lucida e a maçã de Newton

É bastante comum, e por motivos óbvios, a referência à Camera Obscura (câmara escura) nas textos de história da Fotografia. Não tão comum é a referência a um outro dispositivo óptico, a Camera Lucida (câmara luminosa, ou câmara clara), que com a anterior partilhava o objectivo de fornecer aos amadores do desenho um auxílio precioso, nos tempos anterior à invenção de Talbot, Niépce e Daguerre.
  


















Camera Lucida, c. 1820, Museum of History of Science, Oxford, Inglaterra
Imagem obtida aqui 

A relativa menorização deste engenho, inventado por William Hyde Wollaston e, mais tarde, aperfeiçoado por Giovanni Battista Amici,  tem a ver com facto de, ao contrário da Camera obscura, não ser o arquétipo das câmara fotográficas. 

No entanto, deve-se a ele o instante desencadeador duma das vias que levaram ao aparecimento da Fotografia ( ver “ Os desenhos de FoxTalbot). A frustração com os resultados do seu uso foi para Fox Talbot um momento equivalente à da alegada queda da maçã na cabeça de Newton.























John Jackson, Retrato de William Hyde Wollaston, anterior a 1823

Outro aspecto interessante, era o de que a Camera Lucida, para além de um uso ocioso por parte da burguesia culta do século dezanove, se prestava a uma utilização corrente, por parte dos investigadores científicos da época, como instrumento de registo de formas, cumprindo um papel equivalente ao da máquina fotográfica na actualidade. Encontram-se referências aos seus préstimos em obras de referência, como “A Origem das Espécies” de Charles Darwin.

Por último, convém ainda referir que, se por um lado, este aparelho não é  o antepassado formal das câmaras fotográficas, por outro, não se pode dizer que se encontra  totalmente ausente delas. Os elementos base da Camera Lucida, um espelho inclinado a 45º e um prisma transparente, são exactamente os constituintes que permitem, nas câmaras SLR ( Single Lens Reflex) actuais, transmitir ao visor traseiro a imagem irá ser registada na película ou pelo sensor digital.


















Diagrama da Camera Lucida, obtido no livro "Elements of Natural Philosophy", de W. H. C. Bartlett, 1852
obtido aqui

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domingo, 9 de maio de 2010

Colódio Húmido em versos


Charles Dodgson (Lewis Carroll) desenvolveu uma longa carreira de fotógrafo, de 1855 a 1880, estimando-se que terá realizado entre duas e três mil fotografias.E fê-lo recorrendo à técnica do negativo de Colódio Húmido.
Esta era uma técnica que exigia uma elevada destreza e uma curva de aprendizagem prolongada, com sucessivas tentativas e sucessivos erros, até ser atingido um nível regular e aceitável. Implicava que o fotógrafo se deslocasse com uma pesada câmara de madeira e o seu tripé, e impunha exposições longas (geralmente superiores a meio minuto), dada a fotossensibilidade dos materiais e a luminosidade das lentes então possíveis. Implicava ainda que o fotógrafo procedesse in situ à preparação das chapas de vidro com emulsão, em câmaras escuras frequentemente improvisadas, e que de imediato realizasse a exposição destas, bem como a sua revelação e fixação. A secagem da emulsão acarretava a perda da sensibilidade e a impossibilidade de captação da imagem.
Mais tarde, o fotógrafo podia proceder à positivação, por contacto, em papel de albumina, ou encomendar esse serviço a um profissional especializado.
A observação do trabalho de Dodgson permite confirmar que terá atingido esta difícil competência com alguma rapidez, desde os primeiros contactos com a técnica, em 1855, junto do tio materno, Skeffington Lutwidge, e do amigo Reginald Southey, até à compra da sua própria câmara, em 1956.
O equipamento de processamento químico de charles Dodgson encontra-se presentemente no Museum of History of Science, em Oxford, Inglaterra.

Equipamento necessário ao processo de Colódio Húmido, com as iniciais CLD, na tampa da caixa de transporte e arrumação,c. 1860,Museum of History of Science, Oxford, Inglaterra. 

Em  1871, Richard L. Maddox inventou um processo de cobertura de placas de vidro com emulsão seca, recorrendo à gelatina. No fim dessa década, o processo encontrava-se já industrializado. O fotógrafo podia então comprar placas fotossensíveis secas, já preparadas, e usá-las quando entendesse, deixando de estar limitado a prazos curtos de cerca de vinte minutos, como acontecia com o Colódio Húmido. Deixava, a partir dessa altura, de ter de se fazer acompanhar de toda uma parafernália, que incluía químicos, equipamento para os aplicar e, frequentemente, uma câmara escura portátil. A maior sensibilidade das emulsões de gelatina passou a permitir exposições bem mais curtas e câmara de mão tornou-se uma possibilidade. A fotografia passou assim a ser mais acessível e prática. Para muitos, com este desenvolvimento a Fotografia passou a ser "fácil". 
Há quem apresente (aparentemente sem nenhum dado objectivo que o confirme) esta “facilidade” como sendo a razão do abandono da prática da fotografia por Dodgson, neste preciso período. A sua prática, então “tão” facilitada, já não distinguiria de forma interessante um homem como Dodgson.
Se não se pode confirmar peremptoriamente que esta seja a real razão desse abandono, pode-se no entanto verificar que Charles Dodgson, perante a hegemonia do novo processo, sentiu necessidade de acrescentar alguns versos ao seu poema “Hiawatha”. Neles apresentava os procedimentos do método do Colódio Húmido, reforçando, relativamente ao texto original, o carácter de epopeia patética. Sentia decerto que, entretanto, este carácter se desvanecera um pouco com as novas chapas de emulsão seca.
Ei-los:

First, a piece of glass he coated
With collodion, and plunged it
In a bath of lunar caustic
Carefully dissolved in water -
There he left it certain minutes.

Secondly, my Hiawatha
Made with cunning hand a mixture
Of the acid pyrro-gallic,
And of glacial-acetic,
And of alcohol and water
This developed all the picture.

Finally, he fixed each picture
With a saturate solution
Which was made of hyposulphite
Which, again, was made of soda.
(Very difficult the name is
For a metre like the present
But periphrasis has done it.)

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Um Épico

Fotografar alguém, em meados do século dezanove, podia ser uma proeza épica. E era assim, não só pela dificuldade técnica, própria desse período anterior à invenção e massificação de materiais fotográficos pré-processados, como também pelo carácter excepcional do próprio acto de alguém ser retratado. Este acto, hoje comum, antes da invenção da fotografia era algo a que apenas uma parcela muito reduzida da população tinha acesso. 
O retrato era realizado por um artista qualificado, um pintor, e era um procedimento demorado e caro. Com o aparecimento da fotografia, o retrato lentamente entra nas possibilidades de cada vez mais gente, e a certa altura generaliza-se. 
Mas nesses tempos pioneiros, aqueles que pela primeira vez se faziam representar, olhavam para a ocasião com profundo investimento. Essas sessões eram, por vezes, uma feira de vaidades e um tormento para o fotógrafo.
Charles Dodgson (Lewis Carroll) sabia-o e parodiou o fenómeno, num divertidíssimo poema intitulado Hiawatha (alusivo ao texto épico de Henry Wadsworth Longfellow, que relata os feitos de um herói índio, vagamente baseado nas tradições orais de tribos nativas norte-americanas). Nele descreve as desaventuras de um atrapalhado profissional que tenta fotografar uma família vitoriana.

Para o ler, e se divertir com as ilustrações de A.B. Frost, clique no ler mais.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A verdadeira Alice

É um facto relativamente conhecido que a "Alice no País das maravilhas", de Lewis Carroll, teve uma pequena Alice (verdadeira) na sua origem - Alice Liddell.

Rev.Charles Dodgson, Alice Liddell,1859  
























Charles Dodgson (verdadeiro nome de Lewis Carroll) descreveu as circunstâncias em que inventou as histórias que viriam a dar origem ao livro. Em 4 de Julho de 1862, durante um passeio de barco com as irmãs Liddell e o seu amigo Robinson Duckworth, iniciou a narrativa das aventuras de uma jovem que se chamava Alice,como a mais viva das três meninas. Depois, por insistência da pequena musa, acabaria por fazer um manuscrito, ilustrado por si próprio, para oferta.
Este manuscrito, depois de algumas alterações, seria transcrito e publicado, e seria um enorme sucesso. Com este livro Charles Dodgson passaria de jovem diácono anglicano, de professor de Matemática num colégio universitário de Oxford, e de fotógrafo reconhecido entre a elite artística britânica, a um popular (e rico) escritor de histórias infantis. E embora mais tarde tenha defendido que a Alice do livro não se baseava em nenhuma criança real, o facto é que objectivamente sabemos que assim não foi.
Perante este facto, e conhecendo-se as fotografias que, na mesma altura, Dodgson tirou a Alice Liddell, gente há ( faça-se um pesquisa na Internet, para confirmar) que se sente algo espantada pela pouca semelhança da criança real e a Alice que quase todos têm na imaginação- a do do filme de animação da Disney. Alguns conseguem ver nisto um exemplo claro de uma conspiração universal para favorecer os louros nórdicos, em detrimento de todos aqueles que não têm um cabelo, e pele, tão claros. Para estes, a Alice da Disney é loura pela mesma razão em que se insiste na iconografia de um Jesus louro, oriunda da pintura flamenga, dos séculos XV a XVII.

Walt Disney, Alice, 1951




















  



Ora, a verdadeira razão desta discrepância é certamente muito menos propícia a exaltamentos. Na realidade, a heroína do filme de animação tem como fonte iconográfica provável, não a Alice Liddell, criança de temperamento forte, fotografada por Dodgson , mas a Alice das ilustrações das primeiras edições do livro.
Estas gravuras foram realizadas por John Tenniel, um famoso ilustrador da época vitoriana, a quem Dodgson solicitou a colaboração, visto considerar que as imagens que ele próprio desenhara no manuscrito não estariam a um nível adequado.

John Tenniel, Alice in Wonderland - Drink Me

























Para orientar Tenniel, fez-lhe chegar uma fotografia, não de Alice Liddell, mas de uma outra criança por si retratada, que teria um ar mais doce e empático - Mary Hilton Badcock. Para John Tenniel e, em muito menor escala, para Charles dodgson, também ela seria a verdadeira Alice.

Mary Hilton Badcock,
fotografia retirada do livro
"A Handbook of the Literature of the
Rev. C. L. Dodgson (Lewis Carroll)",
de S. H. Williams, e de F. Madan, 1931




























Por fim, menos conhecida e mais curiosa, é a circunstância de haver uma terceira figura, também do círculo de Charles Dodgson, que reivindicou o estatuto de verdeira Alice. Trata-se de Isa Bowman, actriz de teatro, e companhia relativamente frequente de Charles Dodgson em actividades mundanas. Bowman pertence à categoria de jovens mulheres, na casa dos vinte anos, com quem Charles Dodgson se fazia rodear em festas, e outras saídas. Um comportamento que lhe valeu boatos pouco lisonjeiros, e a censura das irmãs.
A reivindicação de Isa Bowman centra-se no facto de, para além de ter sido uma protegida do autor, ter interpretado pela primeira vez, em teatro, a figura de Alice. Esta sua posição foi estabelecida no livro que publicou em 1899 - "The Story of Lewis Carroll, by the Real Alice in Wonderland."

Julian Ignacy ( Wallery), e Alfred Ellis,
Isa Bowman, s/data
 





Páginas de "The Story of Lewis Carroll, by the Real Alice in Wonderland", de Isa Bowman, da edicão norte-americana de 1900

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Uma história mal contada

Defende-se, por vezes, que o olhar do observador constrói em larga medida o objecto da observação. A figura de Charles Dodgson (Lewis Carroll) e a sua caracterização parecem constituir um exemplo deste enunciado.

Até aos anos noventa do século passado (continua a parecer-me estranha a referência ao século vinte como século passado...), Dodgson era caracterizado de duas formas muito opostas relativamente ao seu carácter, mas que tinham dados de partida muito similares.
Para ambas correntes, Dodgson foi um homem com dificuldades no relacionamento com adultos, e uma clara preferência pela companhia de crianças do sexo feminino. Se uns tendiam, por isso, a considerá-lo um homem puro, fascinado pela inocência das crianças, outros tendiam, com a mesma base, a vê-lo como uma personalidade perversa, com um óbvio desvio à norma sexual.

Rev.Charles Lutwidge Dodgson,Auto-retrato, 1863
 
Estas apreciações fundavam-se nas descrições surgidas pouco após a morte de Charles Dodgson, sobretudo na biografia escrita pelo sobrinho Stuart Dodgson Collingwood,”The Life and Letters of Lewis Carroll”, onze meses apenas após o óbito. Outras fontes eram as descrições de algumas das crianças, entretanto tornadas adultas, com quem o diácono travara conhecimento.Por fim, em1954, a publicação resumida dos diários do escritor, fotógrafo e matemático acrescentou um pouco mais ao material de estudo dos “Carrollianos”.
O que diferia nestes pontos de vista era pois os instrumentos de análise e, sobretudo, a perspectiva. Uns focalizam-se a relação de Dodgson com as várias meninas da sua predilecção numa leitura literal do material divulgado, e concentravam-se na criatividade literária e no génio do autor. Os outros, socorriam-se da vulgata freudiana na interpretação da obra e do homem, e concentravam-se no desvio à norma. Havia uma concordância em discordar, partilhando uma caracterização do homem.

Em 1999, a publicação de “In the Shadow of the Dreamchild: A New Understanding of Lewis Carroll” de Karoline Leach, funcionou como um terramoto de grande intensidade no mundo dos estudiosos de Clarles Dodgson. Neste livro, apareceu uma visão distinta que defendia que, relativamente ao criador de Alice, o edifício das grandes certezas estava assente sobre fundações, no mínimo, duvidosas.
Para Leach, toda a construção teórica à volta do homem, que então predominava, baseava-se não em fontes primárias e contemporâneas de Dodgson, mas em material escrito e divulgado após a sua morte. Estas referências fundadoras encontram-se, considera ela, inquinadas por uma perspectiva orientada para caracterizar Charles Dodgson de uma forma particular. Uma forma que não era particularmente fiel à real vivência deste.
Os herdeiros de Charles Dodgson procuraram, após a sua morte, criar uma imagem, que em seu ver, era mais simpática e condizente com o que deveria ser um diácono que escrevia histórias infantis. Foi seu objectivo afastar do conhecimento público aspectos que poderiam, no âmbito da mentalidade vitoriana, introduzir algum desagrado ou controvérsia. 
Não lhes era conveniente a caracterização de Dodgson como um assíduo frequentador de peças de teatro - actividade mundana que a hierarquia da igreja anglicana considerava reprovável num sacerdote. Não lhes era particularmente interessante o facto de se ter inserido no seio da elite artística da época, sendo próximo do grupo dos Pré-Rafaelitas. Não lhes era igualmente conveniente apresentar as relações de alguma intimidade com mulheres adultas, parte delas casadas. Tampouco, lhes interessava publicitar o interesse deste em espectáculos circenses e diversões aquáticas, onde os cavalheiros britânicos podiam regalar-se com visões femininas pouco vestidas para os padrões da época.

Rev. Charles Lutwidge Dodgson, O pintor Dante Rossetti e a sua família, Londres, 1878

Stuart Dodgson Collingwood, ao escrever a biografia do tio, aparentemente sob apertado escrutínio das seis tias, limitou-se a tentar criar uma versão laudatória, inócua, do homem. Uma versão cheia de pormenores insignificantes, redutores e, por vezes, fantasiosos. E fez isto, apesar do acesso directo à vastíssima correspondência e aos diários pessoais. Para os britânicos do final do século dezanove, a descrição de um homem tímido, dedicado às crianças, parecia ser a forma mais segura de apresentar um reconhecido, mas solteiro, escritor de histórias infantis.

Rev.Charles Lutwidge Dodgson, Margaret Dodgson (irmã), s/data

Ora, esta apresentação, elaborada por alguém que deveria ser uma autoridade no assunto, adquiriu um estatuto inquestionável. O facto das fontes de Stuart Collingwood  terem permanecido inacessíveis durante muito tempo, cimentou esta percepção de Charles Dodgson na opinião dos estudiosos, e por arrasto, no público em geral.
A já referida publicação dum resumo dos nove diários sobreviventes (inicialmente eram treze) de Charles Dodgson em 1954, veio acentuar este desequilíbrio analítico, dado que permitiu dar aos estudiosos uma ilusão de aproximação aos materiais de Collingwood. Mas tratava-se de uma divulgação cerceada pelas sobrinhas, ainda vivas então, que deligenciaram no sentido de fazer desaparecer das transcrições tudo o que aparentemente se afastasse da biografia de 1898. 
Outro aspecto interessante é o que resulta da leitura dos diversos textos produzidos por adultos, que travaram conhecimento com Dodgson em crianças. Alguns destes textos eram, decerto, auto-promocionais, na medida em que os autores procuravam publicamente associar-se ao famoso e, na altura ainda, insuspeito escritor. As descrições eram amíude condizentes com favorável caracterização realizada por  Stuart Collingwood e, por vezes, as antigas crianças conseguiam lembrar-se de factos que efectivamente não aconteceram, tal era a ânsia de serem coerentes com a imagem resultante daquele registo.
 

Se a família se revelou eficiente na defesa duma determinada descrição de Dodgson, não se revelou clarividente na antecipação dos efeitos dessa defesa. Aquilo que para os vitorianos era impensável , e para os eduardianos pouco admissível, tornou-se muito provável para a sociedade do pós-Guerra.

As primeiras brechas na leitura do carácter de Dodgson advêm do excessivo centramento de alguns biógrafos na questão do seu relacionamento com as crianças-amigas. Em 1932, a biografia "The Life of Lewis Carroll" de Langford Reed, elaborada a partir de pouco mais do que o texto de Stuart Collingwood, mas plena de convicção, lança explicitamente um postulado, que antes apenas fora sugerido- Charles Dodgson/Lewis Carroll apenas se interessava por relacionamentos com meninas, e  o seu interesse terminava assim que estas atingiam a puberdade.























Rev.Charles Lutwidge Dodgson, Alexandra Kitchin (Xie Kitchin),1876

Ainda que Reed fizesse esta afirmação no sentido de reforçar o carácter casto do biografado, definindo-o como alguém intocado pela luxúria, o facto é que, com ele, estava lançada a linha central dos estudos carrollianos. Se alguns continuaram do lado da linha que considerava a obsessão com meninas como um interesse inocente, o facto é que a evolução das mentalidades, e a divulgação pública de múltiplos escândalos, tornaram difícil a crença em homens inocentes e assexuados para uma parcela progressivamente significativa da sociedade ocidental, sobretudo a partir de meados do século vinte.

Karoline Leach, e outros (Hugues Lebailly, Edward Wakeling e Douglas Nickel, nomeadamente), recentraram os estudos carrollianos em materiais primários e coevos do autor, e evitaram ter como ponto de partida a singularidade, per se, do homem. A obra de Dodgson e os seu comportamentos foram reanalisados no contexto societal da época. Desta nova abordagem, verificou-se que nem a caracterização anterior do homem era factual ( Dodgson era uma pessoa algo idiossincrática, nalguns aspectos seria aquilo que se pode descrever prosaicamente como um picuinhas, mas estava muito longe de ser o eremita distraído que a família apresentou ), nem a sua atitude em relação às crianças era de facto singular, antes se inscrevendo num quadro que se pode designar como de culto da criança, próprio da época vitoriana. Para os contemporâneos de Dodgson, a infância era local de inocência, de não corrupção, opondo-se à idade adulta, essa sim plena de degradação moral e ética. Alice não se encontra sózinha no panteão de figuras ficcionais infantis do século dezanove, e início do século vinte, onde figuram também, por exemplo, os múltiplos jovens da obra de Charles Dickens e o Peter Pan de James Barrie.
 

Não se pode, em rigor, afastar categoricamente a mancha de suspeita que associa Charles Dodgson à pedofilia. Esta é particularmente resistente devido à actual consciência do problema. Uma consciência que impõe uma atitude justificadamente preocupada e desconfiada. Mas os dados objectivos existentes sobre esta figura permitem-nos duvidar das certezas categóricas antes tidas, quer relativamente à “santidade” do homem, quer à sua perversão.

Acaba por ser profundamente irónico que a atitude protectora da família, que procurou afastar de Dodgson qualquer tipo de escândalo resultante da sua relação com mulheres adultas, seja, em boa medida, a responsável pela muito mais escandalosa suspeição de pedofilia.

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quarta-feira, 31 de março de 2010

Conta-me histórias

Por culpa de Tim Burton ( sim, é de bom tom iniciar um texto apresentando o culpado...), está na moda falar de Alice e do Pais das maravilhas. Ora, como a última coisa que eu faria seria ir contra uma moda, decidi dar também o meu esplêndido contributo.

Charles Lutwidge Dodgson nasceu a 27 de Janeiro de 1832, em Daresbury , na Inglaterra. Nasceu terceiro filho, mas primeiro rapaz, numa família que tradicionalmente se dedicava a salvar almas, ou a enviá-las de volta ao criador, em nome de sua majestade.


Oskar Gustav Rejlander , Rev.Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll), 1863

À semelhança do seu pai, optou pela via do sacerdócio na Igreja Anglicana, safando-se de uma eventual morte em combate, como a que levara o seu avô, em 1803. Dedicar-se-ia , no entanto, sobretudo à Lógica e à Matemática. 

Seriam, porém, a Fotografia e a Literatura que o tornariam célebre. E ficaria célebre, não como Charles Dodgson, mas sim como Lewis Carroll, pseudónimo que adoptou para a sua obra literária. Lewis Carroll foi uma opção baseada no seu próprio nome - Lewis é a anglicização do nome latino Ludovicus, que tem como derivação inglesa menos comum Lutwidge, o apelido da sua mãe; Carroll é igualmente uma derivação do nome latino Carolus, cujo correspondente mais corrente na língua inglesa é Charles.

Alguns percalços de saúde ajudaram a criar uma imagem, que associada ao teor das suas obras, o apresentariam como uma figura invulgar. Muito novo, em resultado de uma febre, dizem uns, perdeu a audição num ouvido. Outros dizem que essa perda foi mais tardia, e deveu-se a uma complicação de uma infecção com papeira. Aos dezassete anos sofreu de tosse convulsa, o que terá originado os problemas respiratórios que lhe eram reconhecidos na fase final da vida. Sofria igualmente de gaguez e de fortes enxaquecas. Crê-se ainda que sofreria de epilepsia do lobo temporal, o que explica as suas perdas de consciência. Por último, nos seus últimos anos coxeava e deslocava-se com dificuldade, facto atribuído a uma lesão no joelho contraída na meia-idade.
Embora a gaguez aparentemente lhe tenha dificultado a interacção social, destacou-se na escola pelo brilhantismo e facilidade com lidava com a matemática. Ganhou e perdeu bolsas de estudo, consoante se exercitava ou se entediava e perdia o entusiasmo. Acabou por ver ser-lhe atribuída a docência de Matemática no colégio Christ Church, em Oxford. Exerceu-a durante vinte e seis anos, ao que alguns indicam, sem grande entusiasmo. Continuaria porém, em várias funções, ligado a Christ Church até ao seu falecimento.
Em razão da sua ligação ao colégio, supunha-se que Charles Dodgson fosse ordenado padre da Igreja anglicana, no espaço de quatro anos. Mas, na realidade, parecia nutrir pelo sacerdócio o mesmo entusiasmo que devotava ao ensino da matemática. Durante algum tempo, adiou a tomada de votos, acabando finalmente por ser ordenado diácono em 1861. Um ano depois deveria ser ordenado padre. Solicitou que tal não acontecesse. Esta atitude deveria determinar a sua expulsão, facto que, de forma nunca totalmente explicada, não veio a acontecer.

O director do colégio era então Henry Liddell, e sabe-se que Dodgson se tornara um amigo chegado da família Lidell, em particular da esposa, Lorina, e dos filhos ( um rapaz, Harry, e três raparigas, Lorina, Edith e Alice).

Charles Dodgson acompanhará durante anos a família Liddell, em saídas e passeios e partilhará algum do seu tempo livre com as crianças, acompanhadas pelos pais ou pela governanta , Ms Pritchett.

A elas tirou fotografias - hobby que levava particularmente a sério. Para elas, e para Alice em particular, inventou histórias visando entreter. Por insistência dela, redigiu um manuscrito para oferta, compilando as narrativas criadas. Este, depois de aumentado, e de depurado de pormenores biográficos, esteve na origem de “Alice no país das Maravilhas”, livro que tornaria Dodgson, aliás Carroll, famoso e rico.

Para além das crianças da família Lidell, fotografou muitas outras meninas, com as quais parecia dar-se especialmente bem. Fotografou algumas delas nuas.

Rev.Charles Lutwidge Dodgson , Beatrice Hatch, 1873 ( colorida manualmente por Anne Lydia Bond, segundo instruções de Dodgson)

À medida que os livros infantis o tornavam progressivamente conhecido, passou a evitar cada vez mais aqueles que se procuravam apresentar pessoalmente. Tornou-se uma personagem avessa a novos contactos, algo que ajudou a caracterizá-lo como uma figura estranha.
Charles Lutwidge Dodgson morre a duas semanas de fazer 66 anos, em 14 de Janeiro de 1898. Morre vítima de pneumonia, originada por uma gripe.

Ao longo do século vinte será apresentado como um homem invulgar e tímido, solteiro, avesso ao contacto com adultos. Alguém que só se sentia à vontade no meio de crianças, com quem manteve contactos muito chegados, trocou correspondência e que usou como motivo central da sua obra fotográfica e literária.

Esta caracterização segue duas vias. Uma, que o apresenta como um homem que nunca cresceu, inocente e tímido, devotado às crianças - uma figura santificada, algo como uma Madre Teresa da Literatura Infantil. Outra, que entusiasma muito mais o nosso olhar, cada vez mais cínico e céptico, segue uma leitura freudiana de Carroll – a sua proximidade com as crianças, resulta de uma sexualidade não resolvida, de uma fixação sexual. A sua opção por companhia pueril, as suas fotografias de nus infantis e de crianças semi-despidas, as referências a orifícios e a coisas que crescem e encolhem em “Alice no País das maravilhas”, convencem muitos do carácter perverso que esta abordagem atribui a Charles Dodgson. Vladimir Nabokov considerou-o um protótipo do seu Humbert Humbert de “Lolita”.

Contar histórias e fotografar, para o reverendo Charles Lutwidge Dodgson, não passariam de pretextos para se rodear de ninfetas.

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