quinta-feira, 18 de março de 2010

Observe-se agora esta.

Esta é bem mais conhecida!

























Rev. Charles Lutwidge Dodgson, Alice Liddell, 1859

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Observe-se.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rev. Charles Lutwidge Dodgson, Alice Liddell, 1870


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quinta-feira, 11 de março de 2010

O Coleccionador de legendas

Gosto de museus, já aqui disse.
Gosto de os percorrer lentamente. Gosto das colecções, dos espaços , do conceito - um misto de templo e de armazém.
Mas, por vezes, dou por mim a exercer o papel de antropólogo ou biólogo amador. Descubro-me a analisar, e a catalogar, a fauna que os frequenta. Esta fauna, da qual evidentemente faço parte, é relativamente variada.
Há o funcionário esforçado. O segurança entediado. O guia diligentemente pouco informado. Os visitantes desportistas, que tentam bater o record do Guiness para a visita completa ao Louvre no mais curto espaço de tempo. O experimentador de sofás, que se desloca de uma sala para seguinte, apenas para se pousar nos assentos que nelas existem. Os bandos das visitas escolares, que se aborrecem, aspirando o fim do frete para irem a um centro comercial. O  visitante interessado, demorado, que nunca consegue ver tudo no tempo disponível. O especialista, que vai ao museu, não para ver o que está exposto, mas para expor a quem o ouvir o muito que julga saber sobre a exposição.
Uma das minhas categorias preferidas é a do coleccionador de legendas. Trata-se de um tipo muito particular de utilizador. Não é um frequentador forçado, tem curiosidade e desloca-se com alguma morosidade. Diferencia-se do visitante interessado num pormenor: embora percorra todos os objectos, não olha para eles, ou raramente o faz, e sempre de forma breve. Prefere a informação escrita que puseram debaixo, ou ao lado. 
Gosta mais do texto do que da coisa.

Júlio Assis Ribeiro, British Museum, Londres, 2001


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terça-feira, 9 de março de 2010

Apatetada nostalgia

Vários factos levam-me a acreditar que há nos portugueses uma obsessão quanto ao olhar e à opinião dos outros.
Nunca vivi fora e quem conheço proximamente partilha a minha condição nacional. Não sei, por isso, se os outros povos reagem com igual exagero ao juízo estrangeiro. Oscilamos entre o sentimento de ofensa profunda e a adulação. O que dizem de nós, ou é a verdade absoluta, inquestionável, ou uma distorção mal intencionada. Raramente acolhemos observações externas com indiferença ou análise.
Dito isto, e a contracorrente, tenho de dizer que uma das imagens que mais se adequam à ideia do País da minha infância é justamente de um estrangeiro.
A fotografia de Josef Koudelka, de 1976, apresenta-me, de uma forma que não sei explicar bem, esse Portugal subitamente cortado do Império, atávico e a querer ser moderno.
O país das EFSes e Fameles, do leite não pasteurizado, vendido em bilhas nas traseira de triciclos. De carroças de mula coloridas, com sinetas, a transportar areia para obras de betão armado. Uma terra de minis Morris, citroens dois cavalos e renaults 4L. De Unidades Colectivas de Produção e de uma barragem que não se construía, porra. Enfim, o lugar dos garrafões de vinho, dos carapaus fritos e das feijoadas à beira-mar.
Um Portugal, em larga medida, desaparecido, do qual, estranhamente e por vezes, sinto uma apatetada nostalgia.
 
Josef Koudelka, Portugal, 1976

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segunda-feira, 1 de março de 2010

O Olho

Depois de três textos mais ou menos sobre videntes e visões, tinha que ser... 

Júlio Assis Ribeiro
Ribeira da Asseca, São Domingos, perto de Tavira, Fevereiro de 2010

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Inversão de papéis

Insisto no William Mumler.
Apesar da primeira fotografia impressa num jornal datar de 1873, a verdade é que as fotografias só se vulgarizaram, na imprensa, durante a década de noventa do século dezanove, quando foram resolvidas algumas questões técnicas que tornaram o processo do meio-tom viável e fiável. Até então, as fotografias eram intermediadas pelo trabalho de um gravador que criava uma matriz de gravação. Este artista fazia uma interpretação técnica e estética da fotografia inicial, da qual, por vezes, retirava elementos da considerava desagradáveis, pouco relevantes, ou díficeis de representar através duma gravura. Outras vezes, acrescentava dados dificeis de perceber no trabalho do fotógrafo como, por exemplo, os repuxos de água de uma fonte que desapareciam nas exposições longas dos equipamentos da época. Era a imagem resultante deste trabalho de conversão que aparecia nas páginas dos jornais.
Chegavam assim correntemente às mãos dos leitores novecentistas gravuras baseadas em fotografias.
Porém, não era corrente que a própria fotografia base fosse a notícia. É por isso que observo, com particular deleite, a primeira página do Harper's Weekly, de 8 de Maio de 1869, relativa ao julgamento de Mumler. 
























1ª página do Harper's Weekly, de 8 de Maio de 1869

As representações artísticas eram tidas como "local" onde se podia aceitar a fantasia, e a fotografia, resultando de um procedimento físico-químico, científico enfim, parecia ser o "local" de representações verdadeiras e objectivas da realidade. Nesta situação vemos que há uma inversão dos papeis atribuídos. O artista gravador tentou reproduzir com veracidade as fotografias que estavam na origem do julgamento. Fotografias essas que eram imagens forjadas e fantasiosas.


 
 Pormenor da página

Para terminar, uma última informação a título de punchline. William Mumler, como já foi dito, estava uns pontos acima de ser um simples e pequeno aldrabão. Num texto sobre gravuras em jornais que reproduzem fotografias, tenho naturalmente de fazer referência ao facto de Mumler, em 1876, ter patenteado um dos muitos processos que tentaram resolver os problemas técnicos inerentes à impressão mecânica de fotografias.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Vemos o que queremos ver

A visão é uma experiência dinâmica e está longe de ser uma mera recepção de estímulos. A memória é igualmente dinâmica e a sua relação com a visão é um campo de estudos muito abordado. O clássico teste de Rorschach é apenas um exemplo dos métodos que estudam esta relação fluida entre visão, memória e interpretação.


Um dos borrões utilizados no teste de Rorschach

Eu, que gosto tanto de provérbios e de senso comum enlatado em frases curtas e rimas, lembro-me, a  propósito da Visão, de dois dizeres populares. Um, refere o facto da posse de visão numa monarquia de cegos permitir o acesso ao lugar de rei. O outro declara que o pior tipo de deficiência visual é o desejo de não ver. A história de William Mumler e da sua fotografia de espíritos (ver O Fantasma de Lincoln, de 21 de Fevereiro de 2010) parece funcionar como uma boa ilustração dos referidos ditados. Com uma pequena nuance, direi. A de não se verificar o desejo de não ver, mas sim o seu oposto: a vontade de ver.


Quanto ao primeiro provérbio, a conexão é óbvia. Mumler detinha poder, que atingiu com a posse dum saber muito restrito - o domínio da técnica fotográfica. Abusou deste poder, aproveitando-se da ignorância e da ingenuidade alheias para obter vantagem material, a dez dólares por sessão no auge da sua fama. Lendo-se as cartas enviadas na altura do seu julgamento à imprensa, e os relatos deste, consegue-se depreender que Mumler estava longe de ser um pequeno e manhoso aldrabão. Revelava uma maestria significativa na manipulação de materiais fotográficos. Os contornos da sua técnica de falsificação nunca foram determinados de forma exacta e flagrante pelos seus contemporâneos e, há que dizê-lo, não faltaram oportunidades. Pelo menos por duas vezes, uma relatada em tribunal, e outra descrita numa missiva dirigida a um jornal, William Mumler realizou as suas fotos perante a vigilância apertada de fotógrafos. Numa delas, fê-las num estúdio alheio, com os materiais lá existentes. Mesmo entre os seus pares, via mais além. Na sua autobiografia, chega a invocar determinados fenómenos físicos, como a irisdiscência, demonstrando que navegara entre literatura científica para tentar obter credibilidade. Outro pormenor interessante é que quanto ao acto em si, a captura de imagens de espíritos, Mumler, como um bom mafioso relativamente aos seus crimes, falava pouco. Ao contrário da esposa, não invocou o estatuto de vidente. Descrevia-se a si tão-somente como um meio através do qual os desaparecidos se revelavam.


Relativamente ao segundo adágio, e à sua distorção no sentido que referi, basta-nos olhar para as fotografias. Mumler não foi provavelmente o primeiro a declarar fotografar fantasmas. E não foi definitivamente o último. Basta fazer uma pequena pesquisa na internet para verificar a quantidade de gente que ainda por ai anda nesta actividade. Tampouco foi o único a tribunal, acusado desta burla.
Algumas coisas fazem porém destacar o seu caso. Uma, como já disse, é sua competência técnica e auto-confiança, que lhe permitem submeter-se voluntariamente à fiscalização de outros fotógrafos e escapar. Outra, é a forma como se destaca das tentativas coevas de registar a imagem de espíritos. As imagens de Mumler não parecem sair de um catálogo de lençóis e cortinas, são figuras humanas. As suas fotografias não são teatrais. Não há nelas, salvo raras excepções, gestos dramáticos e poses exageradas. Pelo contrário tendem a ser formalmente muito simples, num fundo neutro. Tendem a ter um carácter intimista. A singularidade de Mumler prende-se com o facto de se ter apercebido de uma possibilidade técnica e de ter tido a intuição de procurar as soluções visuais certas, afastando-se de um imaginário herdado da pintura clássica e romântica, e do teatro.
























Frederick A. Hudson, Fotografia de mulher com um espírito
























Henri Robin,Um espírito,1863

Um último aspecto, que será eventualmente o fulcral, prende-se com o carácter ambíguo e indefinido das formas com “retrata” os espíritos. Sobretudo nas suas fotografias tardias, depois de ter apurado a prática e ter definido o grau de risco a correr, a maioria das imagens da sua clientela anónima não tem características nítidas. Mumler deixa o campo aberto para o cliente construir a sua percepção e reconstruir a sua memória procurando, no mínimo aspecto da figura, semelhanças com o ente desaparecido. Um contemporâneo, referindo a uma cliente de William Mumler, escreve que, para uma mulher destroçada pela morte da filha, a visão vaga de uma criança com um vestido é suficiente para reconhecer a filha perdida na imagem.


William Mumler, fotografia do Capitão Montgomery com um espírito feminino,1870s

William Mumler, Fotografia de  Moses A. Dow com o fantasma da sua protegida Mabel Warren,1870's

Nas fotografias de Mumler, nos borrões do teste de Rorschach e em muitas outras coisas, vemos aquilo que queremos ver, ou melhor, o que estamos preparados para ver.

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