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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Contentamento

Lewis Hine, Manuel Ferreira,
Fall River, Massachusetts, E.U.A,
18 de junho de 1916
imagem obtida aqui

Lewis Hine, Manuel Ferreira (pormenor),
Fall River, Massachusetts, E.U.A,
18 de junho de 1916
imagem obtida aqui


Vem-nos do início do verão de 1916 o sorriso de Manuel Ferreira. Vem-nos de Fall River, no Massachussets, estado americano da Costa leste onde uma parte significativa da diáspora portuguesa se estabeleceu no início do século vinte. E vem-nos intermediado por Lewis Hine, o homem que ao serviço do National Child Labor Committee, fotografou e denunciou o flagelo do trabalho infantil numa das épocas mais prósperas da economia norte-americana.
Mas a imagem não é propriamente o que descreveríamos como a imagem de uma vítima. Falta à imagem o abatimento da postura, a expressão carregada, os sinais evidentes de pobreza ou de abuso, traços que encontramos em muito fotojornalismo e imagens incontornáveis da história da Fotografia (desde o pioneiro trabalho de Jacob Riis até ao contemporâneo Sebastião Salgado, passando pelo exemplo da campanha fotográfica da Farm Security Administration, na altura da Grande depressão).
Manuel Ferreira mira-nos desde 1916 carregando um sorriso contido, mas evidenciando contentamento. Hine, que sistematicamente anotava os aspectos relevantes que conseguia apurar acerca dos seus retratados, deixou-nos na cópia guardada pela Biblioteca do Congresso dos Estados, além dos forçosos nome e ocupação (trabalhador da siderurgia de Fall River), duas informações. Por ele sabemos que Manuel, aos domingos, se dirigia ao King Philip Settlement ( uma instituição de base voluntária que garantia educação formal, profissional e artística a crianças de comunidades desfavorecidas) e frequentava o curso de entalhador, visando tornar-se um trabalhador qualificado. Em informação não redundante, Hine acrescenta ainda que Manuel se apresentava com as suas roupas domingueiras.
Os registos de Lewis Hine municiam-nos com o necessário para percebermos o emproamento confiante com que o miúdo enfrenta a câmara, e que o ângulo ligeiramente contrapicado usado apenas ajuda a enfatizar. As primeiras décadas do século vinte foram décadas de verdadeira sangria demográfica em algumas regiões do velho mundo. Em Portugal, na Irlanda e em grande parte da Itália a partida em massa de jovens adultos, e respectivas famílias, atingiu por vezes o nível de verdadeira debandada chegando, apesar dos elevadíssimos níveis de natalidade da época, a esvaziar algumas aldeias miseráveis das regiões rurais. No caso português, o êxodo teve como destino prioritário o Brasil, mas a indústria da Costa Leste dos Estados Unidos garantiu alguns pontos de atracção e comunidades portuguesas importantes surgiram (como as de New Bedford ou Newark), nunca atingindo porém a dimensão dos números da emigração irlandesa e italiana na América do Norte.
Empurrava-os para o outro lado do Atlântico, por um lado, um grau de pobreza que hoje nos parece ficcional, em que subnutrição era uma constante (com reduzido acesso a proteína animal e uma dieta assente em batata e pão); em que grande parte da população vivia amontoada em casas de divisão única ou dupla, com chão de terra batida, muitas vezes sem chaminé ou janelas vidradas; e em que a roupa e o calçado eram bens quase inacessíveis, faltando muitas vezes o último; por outro lado, a par das questões materiais, havia nestas sociedades maioritariamente analfabetas uma ausência quase total de possibilidade de ascensão social. Jogava-se desde a nascença um jogo viciado, em que o resultado de uma vida estava determinado pelo meio em que se nascia.

Manuel Ferreira sorri-nos, através de Hine, provavelmente orgulhoso. Com o estranho orgulho de quem acha que a vida até lhe corre de feição. Se para Lewis Hine ele pertence a uma secção particularmente desfavorecida da realidade americana, a verdade é que comer carne regularmente, usar no dia de descanso roupas que se aproximam do vestuário janota do dia-a-dia da classe média, frequentar aulas ao domingo e tirar uma fotografia eram pequenas vitórias que um miúdo, oriundo da miséria e da mentalidade do velho mundo de então, encararia possivelmente como um tremendo progresso.

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quinta-feira, 12 de abril de 2012

A carruagem

Aí por meados dos anos oitenta do século passado, bem distante dos telemóveis que tiram fotos de vários megapixéis, do bluetooth e do facebook, numa tarde de sol de primavera cruzei-me com uma placa publicitária que anunciava uma coisa absolutamente prodigiosa: “Revele as suas fotos em trinta minutos!”.
Passados cerca de vinte e cinco anos, explicar aos meus alunos o grau de espanto de uma coisa destas é uma tarefa hermenêuticamente desafiadora. Perante a actual acessibilidade da imagem e a sua desmaterialização (imprimir fotografias é algo que se impõe cada vez menos na presente lógica de circulação social de imagens), explicar a maravilha da chegada dos minilabs a uma pequena cidade de província tem quase os mesmos contornos da explicação da importância do aparecimento da máquina a vapor.
É complicado explicar a raridade do momento fotográfico e a contenção que impunha. Nas três últimas décadas de novecentos, já praticamente todas as famílias possuíam uma câmara, regra geral, uma pequena automática Kodak de rolo de 35mm, ou similar. Mas o seu uso estava limitado a momentos muitos específicos, celebrações (aniversários, batizados e casamentos), visitas a familiares e viagens. E nesses momentos o privilégio de carregar no disparador estava sujeito a grande restrição, havia que aproveitar muito bem o rolo que, para cúmulo, raramente era de trinta e seis exposições. O momento fotográfico era eminentemente solene e havia mesmo um ritual anual, que implicava a deslocação aos templos da fotografia, os estúdios fotográficos, e em que a miudagem era arrebanhada pela família, vestida com os trajes mais apresentáveis e penteada várias vezes, a fim de tirar as sacrossantas fotos tipo passe para a matrícula na escola.
É igualmente complicado explicar o diferimento da imagem. Entre o acto de carregar no botão da câmara e o momento em que se recebia na mão as fotografias passavam-se forçosamente dias. Uns poucos, quando era a preto-e-branco (os estúdios locais possuíam laboratório, processavam a película e faziam as ampliações), uma semana ou mais quando se tratava de um rolo a cores (em que tudo, diziam-me, era remetido para um distante laboratório, em Lisboa). Para a esmagadora maioria dos portugueses, a Fotografia tinha semelhanças com a agricultura, só se colhiam os frutos do trabalho bastante depois da sementeira. Havia, é claro, as Polaroids. Mas isso, tirando alguns afortunados, era algo que só víamos no cinema ou em séries americanas de televisão.
Anos mais tarde, quando a Fotografia se tornou para mim um interesse patológico descobri que, cerca de cento e vinte, cento e trinta anos antes do meu confronto feliz com a possibilidade de quase instantaneidade fotográfica, tinha havido um tempo em a Fotografia era forçosamente um acto imediato. Na sua infância, a técnica tivera algumas dores de crescimento e, a dada altura, o procedimento padrão era algo a que se convencionou chamar processo de colódio húmido. Este utilizava como suporte-base uma chapa de vidro, o que por si só era um enorme avanço relativamente aos dois processos precedentes: o Daguerreótipo, que permitia imagens de boa qualidade mas que, por ter como base uma chapa metálica, era intransponível para papel, não permitia cópias; e o Calótipo, que permitia múltiplas cópias mas que, ao usar o papel como suporte inicial, tinha limitações em termos da qualidade da imagem. O vidro apareceu como opção óbvia por ser relativamente transparente e regular, possibilitando boa qualidade e a realização de cópias.
Porém (há quase sempre um porém) o vidro, como suporte, apresentava dificuldades. A sua superfície não era passível de ser tornada fotossensível (como acontecia com as chapas metálicas do daguerreótipo, que sofriam um “banho” de prata que era depois convertida em sais por intermédio da acção de um ácido), nem era susceptível de ser impregnada com uma solução rica em nitrato de prata (como acontecia com o papel). Para tornar o vidro um suporte viável era necessário um terceiro elemento que ligasse os sais de prata à sua superfície, criando aquilo que se designa por emulsão. Uma primeira hipótese passara pelo uso da clara de ovo, designada comummente por albumina, que permitia a aderência dos sais e permitia a actuação dos agentes reveladores e fixadores, e sua posterior lavagem. Mas a albumina, ao não ser completamente translúcida e ao se combinar com os sais de prata de uma forma muito particular, não permitia uma fotossensibilidade elevada e exigia longos tempos de exposição, pelo que nunca foi verdadeiramente uma opção corrente na tomada directa de imagens. Uma outra opção foi o uso do colódio, uma substância viscosa e transparente, resultante da diluição do algodão numa mistura em partes iguais de éter e álcool, à qual era adicionada uma pequena porção de uma solução de iodeto (de potássio, geralmente). Esta opção foi por algum tempo descartada porque se verificava que, ao secar, o colódio deixava de permitir os processos de revelação e ampliação. Eu, que não ainda experimentei esta técnica, conheço duas explicações para o fenómeno: uma, mais sintética, a de Luís Pavão no livro “Conservação de Colecções de Fotografia”, diz que em resultado da secagem o colódio se torna impermeável, impossibilitando a acção dos banhos reveladores e fixadores; a outra, a de Rómulo de Carvalho na sua “História da Fotografia”, mais detalhada, diz que o nitrato de prata se combina apenas parcialmente com o iodeto contido no colódio (originando iodeto de prata) e que, ao secar, a porção não combinada do iodeto se cristaliza, originando áreas não uniformes na superfície do vidro.
Perante este problema do colódio, a solução mais evidente (e a mais utilizada) foi a de evitar os problemas da secagem condensando todo o processo de fabrico, exposição e processamento do suporte fotográfico no curto espaço de tempo que o material leva a secar, ou seja, em menos de trinta minutos. Assim, num período de cerca de duas décadas a fotografia foi essencialmente um processo instantâneo, em que apenas era possível adiar a realização das cópias. E isto significou que, durante esse tempo, os fotógrafos ou realizavam as suas imagens a passos do seu estúdio, fixo ou improvisado, ou se faziam acompanhar por um laboratório móvel, geralmente em forma de tenda ou de carruagem fechada.

Roger Fenton, Carruagem fotográfica
prova  de papel salgado a partir de negativo de vidro,
1855
imagem obtida aqui



Quando aborreço de morte os meus alunos falando-lhes da História da Fotografia, e deste aspecto em particular, apresento-lhes geralmente a imagem de Roger Fenton, em que uma carruagem "conduzida" por Marcus Sparling, o seu assistente, ostenta a inscrição “Photographic Van”. Nessa carroça, o britânico e os seus assistentes percorreram o palco da Guerra da Crimeia, em  1855, carregando chapas de vidro e químicos por território agreste, sobrevivendo ao pó, ao calor, às moscas, ao fogo inimigo e à vaidade dos oficiais britânicos que exigiam constantemente, apesar da escassez de material, ser fotografados.
A Fotografia então, pelo seu arcaísmo, era instantânea mas não era definitivamente fácil.
A Fotografia que eu considerava instantânea e fenomenal nos anos oitenta era muito mais prática, mas para os meus alunos é algo arcaico, estranho e complicado. Ao falar-lhes de minilabs, rolos e fotografias impressas pareço-lhes tão fora do tempo que, por vezes, me sinto como se fosse Sparling a conduzir a "Photographic Van".

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segunda-feira, 19 de março de 2012

O mundo é uma bola

O cientista e professor Rómulo de Carvalho, vestindo a pele de poeta e o nome de António Gedeão, escreveu um poema nos tempos da ditadura em Portugal em que afirmava que a Terra, por acção do Sonho dos homens, pulava e avançava como uma bola nas mão de uma criança. Um cantor "baladeiro", Manuel Freire, no decénio de estertor do Estado Novo, musicou-o e "Pedra filosofal", era esse o nome da música e do poema, tornou-se uma das populares canções da contracorrente política, metáfora perfeita de um estado das coisas, em que se  pressentia que por mais contidas que fossem, estas acabariam por rebentar.
Neal Slavin, um jovem americano, sensivelmente por este mesmo período ganhou uma bolsa de estudo e chegou a Portugal para desenvolver trabalho de campo em arqueologia. Porém, em vez de se concentrar na busca proveitosa de cacos do período romano, acabou por gastar muito do seu tempo aproximando-se e fotografando os portugueses vivos do final do Estado Novo. Detectava neles uma estranha qualidade comum, uma tristeza colectiva, e para a interpretar socorreu-se da mitologia auto-explicativa dos portugueses- ligava essa natureza melancólica à Saudade, sentimento indefinido de perda e nostalgia.
No entanto, se adoptou esta caracterização que não se afastava muito da imagem turística que Portugal vendia então, as suas fotografias não se ficavam pela epiderme e revelavam um olhar que registava uma complexidade que ia muito além das imagens "para inglês ver". Fotografou, é certo, assuntos que eram comuns a uma imagem padrão do Portugal dessa época.Também ele fotografou velhas vestidas de negro, paredes caiadas de branco e os pobres do sul europeu . Mas as suas velhas não eram as dos postais e os seus pobres do sul não eram os pobres pitorescos e alegres da imagética Salazarista. Há nas suas fotografias um interesse e uma proximidade que o afasta desse ponto de vista abstractizante e torna as figuras que retrata mais concretas. Com a intuição dos estranhos, evitou certos erros de perspectiva. O "Portugal" que faz publicar em livro da Lustrum Press em 1971, é simultaneamente complexo e objectivo. Regista o interior, o rústico e o lastro do passado, mas não foge do urbano e da modernidade possível. Não sabendo diagnosticar plenamente a doença que via, captou com atenção cirúrgica os seus diferentes sintomas.


Neal Slavin,  Portugal, 1968
imagem obtida aqui

Agrada-me bastante a imagem acima. Há nela um duplo fechamento. Duas figuras isolam-se dum exterior vibrante e cheio de detalhes que não vemos mas que, qual caverna de Platão,  podemos intuir pelo seu reflexo. Os dois homens resguardam-se desse exterior em primeira instância através de um vidro. Mas essa barreira é secundária. O isolamento principal é fornecido pela sua concentração no jornal desportivo, que os separa não só da rua, como um do outro.
É corrente afirmar-se que na ditadura do Estado novo, mercê da Censura e do constrangimento político, os assuntos públicos de interesse estavam reduzidos aos três éfes: Fátima, Fado e Futebol. O Futebol garantia a única possibilidade de discórdia pública num país em que o consenso era forçoso, em que qualquer discussão, qualquer dissensão, era afastada do conhecimento geral.
Mas o futebol fornecia igualmente, a espaços e entre desaires,  a possibilidade quase única de aceder a um particular aspecto da mitologia identitária portuguesa: a ideia de ser um país pequeno e pobre que enfrenta gigantes e que, apesar da adversidade, os vence.
Distorcendo a ideia de Rómulo de Carvalho, encerrados num estranho casulo mental, para muitos portugueses os sonhos giravam à volta do futebol e, então como agora, para eles o mundo era "A BOLA". Ou o "Record". Ou "O JOGO".

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terça-feira, 13 de março de 2012

Mar de Adamastores

Insisto nos lugares-comuns que são oferecidos ao olhar alheio e nos são depois devolvidos de forma amplificada.Insisto em Toni Frissell, uma fotógrafa bastante interessante mas algo esquecida. E insisto numa fotografia da sua viagem de trabalho a Portugal, em Maio de 1946. Esta faz parte da selecção que a filha, Sidney Stafford, fez a partir do espólio entregue à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e que foi publicada no livro "Toni Frissell: Photographs 1933 - 1967", de 1994.

Toni Frissell, Portugal, Maio de 1946
imagem obtida aqui


Mais uma vez Portugal e o Mar, um mar desafiador e ameaçador, de Adamastores. Bem embalado numa imagem intensa de Frissell, que nos remete um pouco para o imaginário da corrente pictorialista da transição entre os séculos dezanove e vinte.

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quinta-feira, 8 de março de 2012

O Fingimento

Uma das comunidades com que Lewis Hine lidou quando, ao serviço do National Child Labor Committee, procurou registar o trabalho infantil foi a luso-americana do estado do Massachussets.
Num domingo de Janeiro de 1912, em New Bedford e nas imediações de uma Fiação, deparou-se com um grupo variado, maioritariamente de rapazes. Estes, quase todos de origem açoriana, dividiam-se em duas categorias: os que frequentavam a escola e os que trabalham na Fiação. Sondando-os apercebeu-se de uma fabricação.
Os miúdos, estudantes e trabalhadores, embora deambulassem em conjunto pela praia gozando o ócio domingueiro, encontravam-se separados por uma linha invisível mas bastante forte. Aqueles cujas famílias haviam chegado há mais tempo, provavelmente já nascidos em território dos Estados Unidos, encaixavam-se num padrão muito mais consentâneo com identidade americana. Frequentavam a escola, eram mais desprendidos e expressavam-se num inglês fluente. Eram os intérpretes de Hine.
Os outros carregavam uma história que lhes fora imposta. Iletrados, mal sabendo assinar o nome, quase não falavam inglês apesar de se encontrarem em New Bedford há já alguns anos. Tão ou mais pequenos que os demais, declaravam-se mais velhos. Lewis Hine concentrou-se em dois, Jo Viera ( João Vieira ?) e Antone Mello (António Mello?), que declararam ter 15 e 14 anos, respectivamente, apesar do seu desenvolvimento físico visivelmente o desmentir. Ambos trabalhavam havia um par de anos na Fiação junto à qual Lewis Hine encontrara o grupo a brincar.
A questão interessa ao fotógrafo do National Child Labor Committee. A sua presença não passa despercebida, nem o seu ofício e nem o seu equipamento. Fosse para garantir a colaboração da pequena multidão que atraiu, fosse para tactear a melhor forma de visualmente registar o embuste que detectara, gastou várias chapas nesse domingo. Como era comum no seu trabalho dessa época, as imagens apresentam-nos os sujeitos em pose mais ou menos ordenada, enfrentando a câmara. Nas provas, como era igualmente seu hábito na época, anota as circunstâncias e os temas. Na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos estão guardadas quatro impressões distintas dessas fotografias, quatro estratégias: numa imagem, Jo Viera e Antone Mello são fotografados isolados, quase a corpo inteiro, com a fábrica recortada no fundo; numa segunda fotografia, os dois miúdos aparecem separados por poucos metros de um grupo numeroso de rapazes que frequentavam a escola; na terceira imagem, Jo Viera e Antone Mello são registados enquadrados por quatro figuras mais altas, aparentemente um adulto e três adolescentes (embora, Hine se refira aos quatro como "men", ou seja, adultos); por fim, uma fotografia em que as duas crianças aparecem, junto à casa de Antone Mello, no meio de dois rapazes estudantes que afirmam ter uma idade inferior dois a três anos à afirmada por Jo e Antone. A esta última imagem, Lewis Hine chama “Comparison of Ages”(comparação de idades), e é a mais feliz das quatro na explicitação da mentira.

Lewis Hine, Jo Viera e Antone Mello,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui



Lewis Hine, 
Jo Viera e Antonio Mello junto a um grupo de estudantes,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui



Lewis Hine,
Jo Viera e Antonio Mello entre adultos e estudantes,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui


Lewis Hine,Comparação de idades,
New Bedford, Massachusetts, Janeiro de 1912
imagem obtida aqui







Como retratista de uma realidade embaraçosa, Hine estava habituado a confrontar-se com a Mentira. Amiúde as crianças que sabia estarem a trabalhar numa fábrica eram apenas "visitas", e com maior ou menor talento proprietários e encarregados  apresentavam outras histórias para negar o óbvio. Naquele domingo nevado de 1912, a sua atenção concentrou-se na colaboração, activa ou tácita, de uma comunidade relativamente ao trabalho infantil. Jo e Antone repetem a Hine a versão que lhes foi instruída, uma alternativa mais simpática e construída do que a pura verdade. Falando com um dos miúdos estudantes, o mais alto, de treze anos, este confirma ao fotógrafo a sua suspeita. Diz-lhe que mentem acerca da idade. Que quando se vem das ilhas, mente-se acerca da idade e trabalha-se na Fiação. A mentira era óbvia mas fácil e conveniente. Era desenvergonhada, pública e organizada: para os recém-chegados, eram os padres da comunidade portuguesa quem tratava de tudo .
É interessante o facto de o miúdo que explicita a situação referir que se assim quisesse também podia enganar os donos da Fiação. É-o porque, em bom rigor, não havia ali um engano.Perante a descrição e perante o que é visível no trabalho de Lewis Hine dificilmente poderemos pensar que estes proprietários fossem gente crédula ao nível do absurdo. Uma mentira não é uma mentira quando é feita por um mútuo acordo, quando é uma convenção. Nessa situação está-se perante um fingimento. Os miúdos da comunidade portuguesa de New Bedford fingiam mentir e os donos da Fiação fingiam acreditar.

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segunda-feira, 5 de março de 2012

A estranha dieta da avestruz

Uma das mais antigas memórias que tenho, relativamente a imagens de cinema de animação, e que não sei precisar muito bem no tempo, é a de uma avestruz que engolia tudo o que encontrava (nomeadamente, muita coisa de ferro) e que a certa altura, depois de muito fugir, era capturada por um íman gigante.
Por ser desenho animado, nunca pensei muito na verosimilhança da coisa. Porém, há dias apercebi-me que às vezes a realidade é tão parva quanto um cartoon.
As aves têm o hábito, e a necessidade, de engolir pedras para as ajudar na digestão. Muitas aves comem quase tudo o que mexe e não mexe, o que conseguem enfiar pelo bico e o que se lhes seja de algum proveito alimentar (quem lidou com galinhas em miúdo sabe que, se for para comer, conseguem fazer espantosas habilidades, incluindo caçar roedores).
Agora a avestruz... a avestruz é mesmo um caso portentoso. No que diz respeito a engolir, envergonha o mais talentoso dos faquires e, ao contrário destes, vigora o princípio do "Engoliu, está engolido". O que vai pela goela abaixo não volta a subir.

Frederick William Bond,
O conteúdo do estômago de uma avestruz,
Londres, cerca de 1930
imagem obtida aqui

Cerca de 1930, Frederick William Bond fotografou o estranho conteúdo da barriga de uma avestruz que morrera  sossegadamente no Zoo de Londres.  Este incluía, entre outras coisas, um lenço de renda, um lenço simples, uma luva com botões, uma corda, sete moedas, ferragens variadas, ganchos, agrafos, parafusos e um prego de quatro polegadas.

O conteúdo do estômago da avestruz terá sido particularmente indigesto para Bond, um pacato contabilista, tesoureiro da Zoological Society of London. Enquanto fotógrafo era um amador pouco dado a fugir das convenções, registava as novidades zoológicas de Londres segundo padrões algo conservadores, um pouco a dar para o "fofinho". Mas aqui, ao invés de uma simpática natureza-morta, a coisa aproximou-se estranhamente das assemblages dadaístas ou construtivistas, que as vanguardas artística contemporâneas desta fotografia apresentavam com escândalo.

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quinta-feira, 1 de março de 2012

A verdadeira causa de espanto


Ao observar esta imagem, lembrei-me de um personagem de Woody Allen que, num dos seus filmes, afirmava não se espantar pelo facto do holocausto nazi ter acontecido. Dizia que a verdadeira causa de espanto é estas manifestações extremas da maldade não acontecerem com uma maior frequência, sabendo-se que a Humanidade é como é.

Hugo Jaeger, austríacos a saudar Hitler, 1938
imagem obtida aqui




A fotografia é esteticamente irrelevante, e tecnicamente (descontando-se o pioneirismo no uso corrente da cor) está longe de garantir muito interesse. Mas é precisamente a sua banalidade que me atinge, me espanta.
Ao contrário do Estado Novo português que, apesar dos esforços de António Ferro, sempre teve uma relação elíptica com a imagem, o devaneio psicopático nazi usou de forma sistemática e estruturada a imagem fotográfica. Um dos seus pilares de sustentação era precisamente o da propaganda, e esta soube criar um suporte imagético que fortaleceu simbolicamente o irracional imaginário do III Reich. Fê-lo aproveitando as capacidades de fantásticos criadores de imagens, como Leni Riefenstahl, que forneceram visões de glória, ordem e septicidade.
Mas Hugo Jaeger, o autor da imagem, não pertence ao mesmo panteão. Sendo um dos fotógrafos pessoais de Adolf Hitler, e o autor de algumas das mais reveladoras fotografias da intimidade do ditador, a verdade é que Jaeger era um fotógrafo medíocre. A excepcionalidade das suas imagens advém das circunstâncias excepcionais em que foram tomadas, e não da sua particular habilidade para as captar. A multidão que capta na imagem não é a mesma multidão que se vê nos filmes de Riefenstahl - uma multidão estilizada, ordenada, prenunciadora dum futuro grandioso e superior. A multidão de Jaeger é feita de gente banal, recente e genuinamente sugada para a insanidade ideológica nacional-socialista. Gente comum que atabalhoadamente saúda fervorosamente o seu novo líder. E é esta verdade, esta ausência de artificialismo que nos impacta. Será este batalhão de pais de família, adolescentes imberbes, vulgares empregados, domésticas e reformados que denunciará judeus e fornecerá o braço que executará algumas das mais brutais atrocidades da segunda guerra mundial.
A inexistência de singularidade é o que verdadeiramente perturba, vermos que não é necessária uma sociedade de assassinos e monstros para se pôr em marcha uma execução metódica do Mal.


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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Concentrada e amplificada

Divertem-me os estereótipos e os lugares-comuns. Gosto da maneira estilizada como nos arrumam o mundo. E gosto de ver como, por vezes, estes são oferecidos ao olhar alheio e nos são depois devolvidos de forma amplificada.
Toni Frissell, fotógrafa americana que passou por Portugal em trabalho, em Maio de 1946, trabalhou sob o ponto de vista do turista, passou pelos bairros históricos de Lisboa, pelos cais do Tejo e pelas casas de fado. Por essa observação fez imprimir a sua marca de água. Algo que, à falta de melhor termo, eu descreveria por intensidade.
A imagem que produz duma fadista em actuação é simplesmente fabulosa.  Apresenta-nos um Portugal do Estado Novo, mais real que o real. Com tristeza, a pose torcida e chorada da cantora, a seriedade nos acompanhantes e um pintas no fundo a compor o quadro. E tudo isto com um jarro de vinho e barriga cheia denunciada pelo prato vazio.

Toni Frissell, Fadista numa casa de fados
Lisboa, Maio de 1946
imagem obtida aqui

A fotografia de Frissell apresenta-nos de forma perigosamente concentrada o modo como um certo Portugal de então gostava de se ver ( e de se mostrar).

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lewis, o ardiloso

Nos Estados Unidos, na transição do século dezanove para o século vinte, uma em cada seis crianças entre os cinco e os dez anos de idade encontrava-se a trabalhar. E essa realidade era estatisticamente muito mais esmagadora entre as crianças oriundas de famílias recém-chegadas ao país ou de comunidades étnicas minoritárias.

Lewis Hine,
Salvin Nocito de cinco anos a carregar bagas
Nova Jérsia, 28 de Setembro de 1910 
imagem obtida aqui


Apesar da situação norte americana não ser uma excepção a nível global no período em causa, de não haver qualquer impedimento legal e de a lógica económica de então encarar com naturalidade a exploração de toda a mão-de-obra disponível ( as crianças, pelo seu tamanho e baixo custo laboral, adequavam-se muito bem a determinados trabalhos, fosse em túneis de minas, fosse na indústria), o facto é que desponta a consciência de que socialmente era indefensável a exclusão total da escolaridade e do direito à infância. Por um lado, os sectores intelectuais e políticos mais progressivos organizam-se no sentido de expor e limitar o problema; por outro lado, os empregadores de crianças, não querendo abdicar do seu uso, têm clara consciência da inaceitabilidade crescente da situação e organizam-se para esconder e disfarçar o óbvio.
Em 1904 é criado o National Child Labor Committee, que rapidamente ganha apoios entre a classe intelectual e política, incluindo o do ex-presidente Grover Cleveland. Três anos depois, esta organização é reconhecida oficialmente pelo congresso norte americano e, embora sem poderes oficiais, acabará por ser decisiva na alteração da situação do trabalho infantil nos Estados Unidos.

Em 1908, visando registar e denunciar o trabalho infantil, o National Child Labor Committee contratou como fotógrafo Lewis Hine, um professor secundário de sociologia na progressista The Ethical Culture School, uma escola privada de Nova Iorque.
Como docente, Hine destacara-se por fazer um uso pedagógico da fotografia, levando as suas classes para Ellis Island a fim de registar as vagas de emigrantes que faziam a sua entrada nos Estados Unidos através do porto nova-iorquino. Contava igualmente no currículo o facto de, durante dois anos (desde 1906), ter fotografado aspectos da vida das comunidades de Pittsburgh ligadas à indústria do aço, colaborando no estudo sociológico designado por Pittsburg Survey, financiado pela Russell Sage Foundation.
Confrontado com a vontade dos empregadores de esconder uma realidade embaraçosa, Hine raras vezes teve autorização para efectuar livremente o seu trabalho. Ao contrário do que seria comum hoje, perante as proibições a sua estratégia não podia ser a de fazer uso de uma câmara oculta. Impediam-no o volume do equipamento que usava à época, as fracas condições de luz no interior de fábricas e minas e, facto não negligenciável, a sua abordagem ao acto fotográfico. As imagens de Hine não se orientavam no sentido da captura de um instantâneo, eram antes uma construção de pose e cena. Em certa medida próximos dos retratados de August Sander, os sujeitos das fotografias de Lewis Hine não são surpreendidos pela câmara, são antes solicitados deliberadamente a confrontá-la. Dito isto, qual era a então a sua abordagem para contornar a impossibilidade de actuar livremente? Muitas vezes não conseguia simplesmente entrar nos locais de trabalho do trabalho infantil e restava-lhe fotografar no exterior, nos portões das fiações e das siderurgias, nos acessos das minas.

Lewis Hine,
embaladores na conserveira Seacoast Canning Co
Eastport, Maine, Agosto de 1911
imagem obtida aqui

Mas outras vezes conseguia, com os seus negativos de vidro, com o seu magnésio (que era usado para produzir os clarões necessários à iluminação das cenas) e com a demais parafernália, entrar nos redutos industriais. Para tal apresentava-se como um inspector de empresas seguradoras ou como um fotógrafo de postais, apelava às obrigações de capatazes e proprietários, ou à sua vaidade. Aqueles que, de outro modo, o correriam com impropérios para fora das instalações, tornavam-se seus colaboradores, colocavam a criança “que estava apenas a visitar familiares” a trabalhar junto da máquina para dar a devida escala à cena. Hine, ardiloso, aproveitava-se do seu desejo de querer ficar bem na figura.

Lewis Hine,
Rapazes na fiação Bibb,
Macon, Georgia, 19 de janeiro de 1909
imagem obtida aqui


Lewis Hine,
Enroladores de charutos na Tabaqueira Englahardt & Co,
Tampa, Florida, Janeiro de 1909
imagem obtida aqui


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

As coisas na cabeça (2)

Charles Fenno Jacobs, fotógrafo americano com larga carreira, quer na imprensa, quer ao serviço de organismos públicos dos Estados Unidos, caracterizou-se por um apurado instinto para captar os sujeitos das suas fotografias em momentos particularmente caricatos, numa versão bem humorada do chamado instante decisivo.
Numa reportagem fotográfica sobre a implementação do Plano Marshall, que fomentou a recuperação económica da Europa a seguir à segunda guerra mundial, Jacobs passou por Portugal e ficou assombrado com a omnipresente e muito portuguesa arte feminina de carregar trouxas volumosas no topo da cabeça (e de as transportar num periclitante equilíbrio, durante quilómetros se necessário). E quando se cruzou com uma camponesa que transportava um cesto de couves de dimensões tais que a forma da mulher e da carga se assemelhava à de uma pequena árvore, achou que a oportunidade era boa demais para não ser aproveitada.

Charles Fenno Jacobs,
Camponesa carregando os produtos da sua horta
Portugal, 1948-1955
imagem obtida aqui


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As coisas na cabeça

No pós segunda guerra mundial, Charles Fenno Jacobs , um fotógrafo americano, ex-marine, apreciador de boa comida e melhores vinhos, passou por Portugal numa reportagem sobre a implementação das actividades do Plano Marshall na Europa e em África.
Por cá espantaram-no as mulheres que, no Portugal miserável de então, carregavam praticamente qualquer coisa à cabeça, às vezes por distâncias espantosas. Anotou “em Portugal, quase tudo é carregado na cabeça das mulheres. No campo, a excepção é ver uma mulher sem algo em cima da cabeça”, legendando a imagem abaixo.

Charles Fenno Jacobs, Mulher portuguesa,
Portugal,1948-1955
imagem obtida aqui
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

As nuvens de Roger Fenton


Roger Fenton,
Vista de Balaklava a partir da colina da guarda,
prova  de papel salgado a partir de negativo de vidro, Crimeia,1855
imagem obtida aqui



Poder-se-á eventualmente pensar que o sucesso estético de Roger Fenton nalgumas das suas imagens do território da Crimeia (onde se dirigira para cobrir o conflito que opunha ingleses, franceses e otomanos aos russos) resulta duma singularidade, que advém do confronto com a peculiar natureza do terreno e a sua textura. Mas uma olhadela rápida sobre a sua biografia rapidamente desmente essa possibilidade.
Pertencente a uma família ligada á indústria e à banca, Fenton oscila ao longo da vida entre as artes e a advocacia, acabando esta última por ser a sua opção derradeira quando, em 1862, vende todo o equipamento fotográfico, bem como os seus negativos, e abandona a prática artística. Pelo meio, estudou pintura em Londres e Paris, onde foi copista no museu do Louvre, enveredou pelo ensino na North London School of Drawing and Modelling e, a partir de 1851, tornou-se fotógrafo. Especula-se que terá aprendido a técnica do Calótipo em papel encerado com Gustave Le Gray, em Paris, e verificar-se-á posteriormente, quando já usando negativos em vidro segundo o processo do colódio húmido, uma fidelidade à realização das provas em papel salgado. Estas, pelo seu resultado final, mais texturado e menos nítido que as provas de albumina entretanto aparecidas, remetem-nos muito mais facilmente para um contexto pictórico.
Enquanto fotógrafo, num percurso não invulgar na época e sobretudo nos pintores tornados fotógrafos, trabalha segundo as temáticas típicas da tradição da pintura europeia: paisagem, retrato, natureza-morta. Trabalha igualmente nos chamados “tableau-vivant”, ou seja, a versão fotográfica da chamada pintura histórica, em que encenando figurantes e adereços se criam quadros teatrais representativos de uma acção ou de um facto histórico.

Roger Fenton,
Natureza-morta com fruta,
prova de albumina a partir de negativo de vidro,1860
imagem obtida aqui


Roger Fenton,
Paisagem com ponte e rio
prova de papel salgado a partir de negativo de vidro, 1856
imagem obtida aqui


Roger Fenton, 
Odalisca,
prova  de papel salgado a partir de negativo de vidro, 1858
imagem obtida aqui


Observando-se a sua obra, verifica-se que é muito mais feliz na natureza morta (onde a sua maestria técnica se impõe) e no género paisagístico, seja na paisagem tout-court , seja na captura de cenários arquitectónicos. É aí que se sente que Fenton tem algo para dizer, ao contrário das suas insípidas encenações orientalistas, em que fica longe do brilhantismo dramático e teatral dos quadros vivos de Henry Peach Robinson, do simbolismo de Julia Margaret Cameron e da megalomania alegórica de Oskar Gustav Rejlander.

Fundem-se na fotografia paisagística de Fenton a tradição pictórica britânica da paisagem (lembremo-nos de Constable) com um certo “ar do tempo” ligado ao culto romântico da ruína e da memória, e até com uma perspectiva da paisagem como epifânia, como revelação do espiritual (algo que o aproxima dos pré-rafaelitas). E nessa área fotográfica em particular era-lhe reconhecida a primazia – em 1858, numa crítica do Journal of the Photographic Society, relativa à exposição anual da Royal Photographic Society, afirma-se: “ em Paisagem, Fenton é inalcançável(…)há um tal sentimento artístico na totalidade destas imagens(…) que não podem deixar de tocar o observador como sendo algo mais que simples fotografias”.

Afirmada esta particular identificação de Fenton com a paisagem, que impossibilita que se olhe para as imagens da Crimeia como um acidente, há que reforçar  dizendo que é aí que, na obra de Fenton, nos confrontamos com verdadeiros momentos de espanto e assombro.
Insiro nessa categoria a belíssima “Paisagem com nuvens”, em que as limitações de latitude de exposição da emulsão, que reduzem a zona térrea da imagem a uma silhueta, acentuam o dramatismo e a horizontalidade da imagem, conferindo-lhe uma particular sensação de espacialidade. Ao contrário de Gustave Le Gray, seu contemporâneo e seu eventual formador (e um fascinado fotógrafo de nuvens), aqui o objectivo não é compatibilizar a exposição acertada do céu com o detalhe da terra. A atenção centra-se antes no registo do informe e, através dele, no potenciar da representação do espaço, um pouco à maneira de um quadro de Turner.

Roger_Fenton, Paisagem com nuvens
prova  de papel salgado a partir de negativo de vidro,
Grã-Bretanha, 1856
imagem obtida aqui


O campo estético que Fenton aqui trabalha não é tanto a captura do Belo, daquilo que nos conforta, mas sim o do Sublime, o do confronto com as coisas que nos desafiam.

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domingo, 5 de fevereiro de 2012

O caminho certeiro


Roger Fenton, Vista de Mamelon e da torre Malakof 
a partir da bateria de Morteiros,
prova  de papel salgado a partir de negativo de vidro, Crimeia,1855
imagem obtida aqui





Roger Fenton é reconhecido sobretudo pelas suas fotografias da campanha da Crimeia, acto pioneiro que alguns consideram o momento fundador do fotojornalismo.
Mas as imagens mais marcantes dessa reportagem remetem-nos muito mais para uma sensibilidade específica de Roger Fenton relativamente à paisagem, e menos para aquilo que hoje consideraríamos o registo típico de um conflito bélico. Ao contrário de Félice Beato e James Roberson, os fotógrafos que na sua esteira continuam a cobertura da Guerra da Crimeia, ou de Mathew Brady e os seus colaboradores, que poucos anos depois retrataram a guerra civil americana, Fenton elude os aspectos mais gráficos da carnificina e da morte. O que não quer dizer que Fenton não tenha conseguido aí, em 1855, uma mais espantosas imagens acerca da desolação e da natureza da guerra - Valley of the Shadow of Death- comprovando que nem sempre o caminho certeiro é o mais óbvio.

Roger Fenton, The valley of the shadow of death,
prova  de papel salgado a partir de negativo de vidro, Crimeia,1855
imagem obtida aqui


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domingo, 29 de janeiro de 2012

As medalhas de Morse


Mathew Brady, Samuel Morse, 1866
imagem obtida aqui




Observo o retrato de Samuel Morse, septuagenário, e recorre-me a ideia de estar perante um general americano da guerra civil. Apesar de objectivamente falsa e até um pouco tortuosa, a associação não é totalmente despicienda.
É falsa, desde logo, porque Morse não foi um militar. E dos retratos de generais desse conflito mais emblemáticos, apenas o do derrotado Robert E. Lee se aproxima da sua grisalha figura. Outro ponto contra ainda, é verificação de que a exibição ostensiva de medalhas não faz parte da iconografia e da mentalidade castrense dos americanos dessa época. Dir-se-ia que prevaleciam ainda os valores puritanos e austeros dos pioneiros.
Mas imagem é contemporânea da contenda, que terminara um ano antes, e a postura é similar à de muitos retratos das figuras militares que a travaram. Quem fotografa Samuel Morse é Mathew Brady, um seu antigo aluno de pintura e que com ele aprendera a dominar o difícil processo da daguerreotípia antes de transitar para método do colódio húmido. E Brady é tão-somente o grande fotógrafo da guerra civil americana, o homem que, pessoalmente ou através de colaboradores, fez do registo do conflito uma missão, e um empreendimento de tal forma intenso que quase o leva à ruína financeira.
Esta aproximação icónica de uma imagem de Morse à galeria de generais, na esteira da vitória da União, revela-se tortuosa pela natureza da figura do inventor. O telégrafo que inventara revelara-se instrumental e, a par do comboio, outra novidade dessa guerra, ajudara muito o Norte Industrial a responder rapidamente a um Sul muito mais limitado em recursos técnicos. Mas Morse, que geograficamente é um homem da União, um nova-iorquino, é igualmente uma personagem complexa. Na luta moral e ideológica que antecedera a guerra, as posições de Morse políticas estão muito mais alinhadas com o sul. Defendera a escravatura como uma forma natural de organização de poder, de autoridade e de propriedade.
O verdadeiro nexo desta associação reside, por um lado, na já referida coincidência temporal e imagética (e no autor da fotografia), e por outro, no facto da imagem encerrar um discurso sobre a guerra pessoal de Morse e a sua vitória. Morse apresenta-se como um vencedor da disputa de longos anos pelo reconhecimento da sua autoria e propriedade intelectual sobre o telégrafo. A instalação do telégrafo e a sua difusão mundial fora um feito que resultara de duras disputas de financiamento, de viagens de demonstração e de pressões diplomáticas que atingiram um almejado sucesso quando, em 1858, um conjunto de potências europeias associadas com o Império otomano lhe atribuem um prémio de 400.000 francos franceses em reconhecimento do seu invento e do uso deste nas suas redes nacionais. Mas há algo de ambíguo na expressão, a barba cobre os lábios que parecem indicar um sorriso subtil, ao passo que os sobrolhos permanecem carregados. O Samuel Morse que se faz fotografar expondo as medalhas de reconhecimento de países europeus (da Espanha à Rússia, da Dinamarca à Turquia, o arco à quase completo, apenas a Grã-Bretanha e o seu império se põem de fora) é o homem que cinco anos depois falecerá convicto que o seu próprio país não lhe fizera a devida justiça. Conseguira impor-se nos tribunais como o único e verdadeiro inventor do telégrafo electromagnético, mas o Supremo Tribunal de Justiça negara-lhe quaisquer direitos sobre futuras aplicações baseadas no código ficaria para sempre associado ao seu nome. E apesar do reconhecimento judicial, nunca em vida o Governo federal dos Estados Unidos reconheceu o politicamente controverso Samuel Finley Breese Morse, que não só defendera a Escravatura, como acreditava lutar contra uma conspiração dos países católicos europeus que estariam a encher a América de emigrantes para depois a controlar.


Num último reparo, observo que a segunda medalha da esquerda, no cimo, corresponde à Ordem honorífica portuguesa de Torre e Espada.

Mathew Brady, Samuel Morse, 1866, pormenor
imagem obtida aqui


Desconhecendo a história que envolve a atribuição deste título a Morse, mas sabendo que Portugal não fez parte do rol de países que retribuiu monetariamente o inventor em 1858, arrisco-me a dizer que estamos perante um caso vetusto duma irritante idiossincrasia portuguesa. Fala-se amiúde de um traço psicológico nacional que se centra numa espécie de ausência de frontalidade, no evitar publicamente defender uma posição e evidenciar-se, naquilo que o filósofo José Gil definiu como a não-inscrição, e que a maioria das pessoas designa por manha. Mas atrevo-me a apontar outra característica espantosa, diversa da primeira, mas que igualmente se insere na linha do comportamento manhoso. Refiro-me a um talento das nossas “elites”, que conseguem pôr-se em bicos de pés e fazer-se aparecer na fotografia. Sem contribuir, sem esperar verdadeiramente pagar qualquer futuro envolvimento, conseguem colocar-se junto dos verdadeiros actores e associar-se a momentos que esperam de glória. Como os fura-casamentos, beijam a noiva, dançam com as convidadas, comem o bolo e nunca, nunca passa pelos seus planos oferecer um presente. Tudo isto sem qualquer sentido de ridículo ou de vergonha, o que os torna dignos do Olimpo. Caso não se lembrem de nada, relembro a história de um primeiro-ministro luso  que, há alguns anos atrás, se fez fotografar numa cimeira a quatro que iria iniciar uma guerra, sabendo de antemão que não poderia enviar tropas. Ou a recente e fabulosa interpretação sorridente de gestores, secretários de estado e ministros que cercaram (num verdadeiro festival de croquetes, pasteis e de brindes com vinho branco) um grupo de empresários asiáticos visivelmente atrapalhados, pouco acostumados a ser tratados como velhos "compinchas", como amigos de infância, por gente que fora forçada a vender-lhes parte significativa de uma empresa pública.
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O inventor

Há muito, muito tempo atrás, quando não existiam playstations, wiis e canais televisivos só de desenhos animados, os miúdos socorriam-se de estranhas coisas para passar o tempo. Algo que, como se sabe, para a criançada demora a passar.
E espantosamente, nesses estranhos tempos não faltavam alternativas. Havia o futebol, é claro, e havia as corridas (então como hoje, sabe-se lá porquê, correr por correr, sem organização, era uma coisa que encantava a malta pequena). E havia toda uma série de possibilidades que hoje soam verdadeiramente esquisitas. Brincava-se aos cowboys e aos índios num recanto da Europa a escorregar para Marrocos, aos polícias e ladrões num país então com poucos polícias e poucos ladrões, e aos espiões. Para estes, as nossas referências não eram a verdadeira variante nacional, os bufos da PIDE, extinta poucos anos antes. Não. Brincávamos aos espiões a sério, do gabarito do James Bond ou das personagens do Casablanca, gente de mistério, gabardine, engenhocas mortais e mensagens em código. E foi aí que o nome Morse entrou na minha vida. Como diria 007, estou a falar de Morse, Código Morse.
Fingíamos pomposamente saber o código, gastando folhas de caderno com mensagens secretas de pontos e traços que, minutos depois, não faríamos a mínima ideia do conteúdo. Alguns insistiam que o código se chamava Morsa, como o simpático mamífero de dentes grandes e bigode, outros mais pedantes corrigiam, que não, o nome era estrangeiro, morsa em francês era morse. E ficava tudo bem, na tremenda certeza com que os miúdos arrumam o mundo.
Por vezes, era necessário reorganizar o mundo como quando, folheando um dos poucos livros didácticos ilustrados da biblioteca local, um de nós descobriu que o código se chamava assim em virtude do seu criador, o americano Samuel Finley Breese Morse - o homem que inventou o telégrafo. Esta reorganização era feita de forma expedita e eficaz : durante dias gozava-se insistentemente, tanto com os que tinham insistido que era morsa, como com os que tinha insistido que era morsa em francês. Quando o azucrinanço deixava de vexar as vítimas e de ter piada, estava o mundo novamente estruturado num novo conjunto de certezas.

Mathew Brady, Samuel Morse, daguerreótipo,
1844-60
imagem obtida aqui

Anos mais tarde tive que arrumar novamente as minhas certezas quando inesperadamente descobri que Samuel Morse, mais do que um inventor da estirpe dum Edison, se revelava uma personagem mais variada, mais matizada nos seus interesses e com uma desconhecida (para mim) importância na história da Fotografia.
Sobre Morse, como acontece com muitas figuras marcantes, há uma narrativa lendária. Esta faz recair sobre um facto traumático a sua determinação em criar um sistema rápido e eficaz de transmitir informação urgente. Diz-se que terá sido informado muito tardiamente da súbita doença da esposa durante uma deslocação, conseguindo retornar apenas quando já era tarde de mais. Que, sobre a sua campa, teria sentido a definitiva urgência de poupar a outros o seu infortúnio.
Porém, a prudência e os factos aconselham um olhar mais cauteloso e natural do feito de Samuel Morse. É natural que tivesse ao longo da sua vida sentido insatisfação e frustração com as muitas notícias que chegavam demasiado atrasadas e com as consequências que daí resultavam. Mas não era o único, muitos outros estavam determinados a acelerar a informação e a alterar significativamente o mundo. O telégrafo é uma daquelas invenções que resultaram de um processo múltiplo no tempo e no espaço, resultante duma maturação do conhecimento científico e experimental. Samuel Morse não foi o primeiro a tentar um sistema de comunicação à distância, estes existiam desde o início da História, com resultados melhores ou piores, mas sempre pouco práticos. Tampouco foi o primeiro a vislumbrar a possibilidade de usar a electricidade para esse fim, anteciparam-se-lhe o espanhol Francisco Salvá i Campillo, o alemão Samuel Thomas von Sömmering, o barão báltico Pavel Schilling e o também americano David Alter. Morse pôde beneficiar da impraticabilidade das soluções destes (com vários fios envolvidos numa única mensagem, sistemas complexos de codificação e grandes limitações na distância da transmissão) e, através da sua intuição e perseverança, ir progressivamente apurando tecnicamente aquela que seria a primeira solução prática e internacionalmente aceite deste processo. Tendo visto, pelo meio, outros adiantarem-se-lhe na exploração comercial da telegrafia eléctrica, a imposição da sua solução foi um processo complicado de negociação de apoios públicos, de apresentações científicas e de deslocações longas nos Estados Unidos e na Europa. Algo bem diferente da história romântica do herói solitário com uma missão.
Aliás, qualquer descrição unidimensional não fará justiça a Samuel Morse. Nasceu numa família conservadora e muito religiosa, filho de um pastor calvinista defensor das tradições puritanas. Igualmente crente nas virtudes de uma educação cuidada, o pai permite a Samuel Morse, filho primogénito, a frequência da Phillips Academy, no Massachussetts, e mais tarde da Universidade de Yale, onde chega com o propósito de estudar Filosofia, Religião e matemática, matérias tradicionais e próprias de um erudito do início de oitocentos. Mas os seus interesses derrapam para as ciências experimentais e para as artes, situação que, pelo menos inicialmente, terá desagrado ao progenitor. Desenha, pinta a pedido e frequenta as aulas de electricidade (então uma curiosidade sem aplicações práticas) de Benjamin Silliman e de Jeremiah Day .
Concluída a formação universitária, Morse opta por aprofundar os seus conhecimentos artísticos, uma escolha que parecia ser uma forma mais fiável de garantir o sustento do que o trabalho no estudo da electricidade (estranhos tempos aqueles!). A qualidade do seu trabalho chamara a atenção e com o apoio de Washington Allston, um artista reconhecido, e do pai, entretanto conformado com a ideia de ter um filho pintor, consegue um estágio de três anos em Londres, para onde parte em Julho de 1811. É o início de uma carreira notável no âmbito da pintura americana do século XIX, que inclui várias viagens pela Europa (onde faz o circuito do “Gran Tour”, como era próprio na época em todos os que tinham ambições culturais), a atribuição de encomendas públicas e de uma vasta clientela particular e ainda a nomeação para o cargo de professor da universidade de Nova Iorque, responsável pela cátedra de Literatura da Arte e do Design onde abordava sobretudo Pintura e Escultura.

Samuel Morse, Mrs. Daniel DeSaussure Bacot,
óleo sobre tela, 1820
imagem obtida aqui

Porém, o sucesso global da sua carreira artística não significou a prosperidade económica almejada pelo ambicioso e inventivo Morse, forçando-o a procurar alternativas. Já em 1821, tentara patentear sem sucesso uma máquina replicadora para esculpir esculturas em pedra. Sempre a par das últimas descobertas no campo da electricidade, a partir de 1832, em complemento das suas actividades de professor de Universidade, começa a trabalhar na sua ideia de telégrafo de registo electromagnético, com fio único. Em 1837, já com a assistência de Leonard Gale, que o ajudara a resolver o problema de aumentar a distância do circuito eléctrico, e o apoio financeiro e técnico de Alfred Vail, o telégrafo atinge a fase de funcionalidade. De imediato o pioneirismo de morse é contestado. Charles Jackson, um conhecido de Morse com quem debatera a sua ideia de telégrafo em 1832, reclama a invenção. Os ingleses William Fothergill Cooke e Charles Wheatstone patenteiam um sistema eléctrico alternativo e conseguem adiantar-se-lhe na exploração comercial do processo. Defrontando dificuldades no financiamento público da rede de telegrafo experimental nos Estados Unidos, e correndo o risco de ser ultrapassado no velho continente, Morse decide em 1838 deslocar-se à Europa para garantir a patente na Inglaterra, França e Rússia.
Será em Paris que, entusiasmado, tomará conhecimento dos avanços de Louis Daguerre no campo da Fotografia. A razão do entusiasmo, para além do natural interesse dum pintor na novas possibilidades de criação de imagens, prende-se com o facto do próprio Morse ter sido um dos muitos que haviam tentado, sem sucesso, tentado fixar as imagens que a câmara obscura projectava. O seu insucesso, que dera por definitivo, fora vingado então pelo processo de Daguerre.

Jean-Baptiste Sabatier-Blot, Louis Daguerre,
daguerreótipo, 1844
imagem obtida aqui

No momento, Daguerre não havia ainda tornado público o procedimento e resguardava-se, tentando evitar que outros intuíssem os passos necessários e lhe furtassem a glória e os proveitos que esperava. A única forma de ver os daguerreótipos era através do próprio autor. Em conversa com o cônsul americano, Robert Walsh, desenha uma estratégia. Morse convida Daguerre para uma demonstração do seu telégrafo esperando que, por cortesia, Daguerre o convide para o edifício do Diorama, onde tinha o seu laboratório, e lhe apresente os suas bem resguardadas chapas fotográficas. A coisa resulta. Ao convite do americano, o francês contrapõe uma proposta para uma visita imediata ao Diorama, onde Morse observa deslumbrado, pela primeira vez, uma série de imagens fotográficas – vistas de ruas, interiores, obras de arte, cópias de gesso e, inclusivamente, uma imagem microscópica de uma aranha. A invenção não fora ainda apurada ao ponto de permitir uma exposição suficientemente curta para possibilitar um retrato.
Entre os dois homens, que se consideravam pares na excelência, gera-se uma clara empatia. Daguerre compromete-se, segundo Morse, a enviar-lhe uma descrição do método assim que a esperada venda do invento ao Estado Francês se confirmasse, e o procedimento fosse tornado público e aberto a todos. Em 20 de Abril de 1839, através do jornal do irmão, o New York Observer, Daguerre faz chegar aos Estados Unidos a notícia da invenção da fotografia. O texto seria republicado por todo o país em vários jornais, fomentando o interesse na inovação.
No final do Verão de 1839, já nos Estados Unidos, Samuel Morse recebe um manual com a descrição dos passos e desenhos dos aparelhos. Rapidamente, em 27 de Setembro desse ano, terá feito aquela que provavelmente seria a primeira fotografia da América – uma pequena placa, do tamanho de uma carta de jogar, registou após 15 minutos de exposição a vista do seu gabinete na Universidade de Nova Iorque, onde figuravam a igreja do Messias e um edifício próximo.
A imagem é no entanto insatisfatória e o próprio Morse virá a atribuir o primeiro sucesso fotográfico em terras americanas ao inglês D. W. Seager, que tendo recebido o manual na mesma altura é mais feliz nos resultados, nesse final de Setembro.
Retratista reconhecido, tem o sentido posto nesse campo e prontamente tenta realizar os primeiros retratos, recorrendo às filhas, com exposições de muitos minutos e em pleno sol num terraço. As imagens perderam-se, delas havendo apenas cópias sob a forma de gravuras. Mas sabe-se que o resultado não seria de entusiasmar. A deficiente óptica aconselhada pelo manual de Daguerre e os longos tempos possíveis obrigavam os retratados a vinte minutos de tortura sob sol intenso, resultando o esforço em retratos de olhos fechados, imagens tremidas e contrastadas, com sombras pronunciadas abaixo do nariz e das sobrancelhas.
Os propósitos fotográficos de Samuel Morse pareciam encravados nesse início de Outono quando terá tido conhecimento que, no mesmo edíficio da Universidade de Nova Iorque, onde fizera as suas primeiras experiências, coisas entusiasmantes se passavam. John William Draper, um professor oriundo da Universidade da Virgínia, estabelecera-se aí no verão anterior e trouxera consigo uma dezena de anos de experiência própria no campo do estudo da óptica e da fotossensibilidade. Sem acesso ao manual de Daguerre e apenas com a descrição sumaria do processo que obtivera a partir de um jornal inglês, Draper abalançara-se em Setembro na sua própria via para o Daguerreótipo, improvisando uma câmara com uma caixa de charutos e uma lente de óculos. Insatisfeito com os primeiros resultados, e sempre longe do olhar público, acompanhado apenas pelo seu assistente William Henry Goode, foi testando novas soluções, experimentou várias lentes, criou diferentes conjuntos ópticos com combinações destas, jogou com os diferentes resultados de partes do espectro luminoso na matéria fotossensível. Ao aumentar a luminosidade das lentes, Draper aproxima-se como ninguém de um processo que sistematicamente permita fazer retratos sem transformar potenciais clientes em mártires da fotografia (embora tenha, numa suas primeiras tentativas, coberto uma auxiliar de farinha para tentar acelerar a exposição). O encontro entre os dois professores terá acontecido no Outono de 1839, e causado grande impacto em Morse. Desconhecem-se pormenores deste encontro, embora o investigador Howard McManus defenda, baseado num conjunto de daguerreótipos que tem em sua posse, que terão nesse Outono compartilhado as suas experiências com retratos mútuos no terraço do edíficio da Universidade de Nova Iorque. A experiencia terá convencido Morse da sua inferioridade técnica e tê-lo-á levado a frequentar, em Janeiro de 1840, as aulas que um agente de Daguerre, Francois Gouraud, deu nesse período em Nova Iorque. O acontecimento seria frustrante, com Morse a descobrir que o francês nada tinha a ensinar-lhe, dadas limitações do equipamento e da química fornecidos a partir da formulação inicial de Daguerre, e com o agente a publicamente definir o americano como um amador.
Em Março de 1840, Alexander S. Wolcott funda precisamente em Nova Iorque o primeiro estúdio fotográfico dedicado ao retrato. Wolcott aventura-se usando uma câmara de sua invenção, a primeira patente americana no campo da fotografia, em que usava um processo inovador que recorria a um espelho côncavo, à semelhança dos telescópios. As imagens de Wolcott eram pequenas devido ao seu processo e de qualidade sofrível, mas causaram sensação.

Alexander S. Wolcott, desenho da câmara alvo da patente americana 1582,
8 de maio de 1842
imagem obtida aqui


Sabedor da superioridade técnica dos daguerreótipos de Draper e ciente da sua larga experiência de retratista, Morse convence o primeiro a formar com ele uma sociedade destinada a explorar o mercado do retrato fotográfico. Esta funcionará com enorme sucesso numa divisão envidraçada do último piso do edifício da Universidade de Nova Iorque, onde à componente eminentemente técnica de Draper se associa o instinto estético e comercial de Samuel Morse. As ópticas usadas permitiam uma composição aproximada, centrada nos retratados, e a profundidade de campo relativamente reduzida que obtinham era perfeitamente adequada à técnica de retrato. Morse rapidamente aperfeiçoa uma postura padrão que permite contornar as dificuldades de exposição longa de alguns segundos – os clientes são sentados numa cadeira de braços, onde apoiam os cotovelos, o pescoço repousa sobre um suporte que permanece ocultado, as mãos são frequentemente entrelaçadas e afastadas do peito para que os movimentos respiratórios não provoquem estremecimento. Nos dias nublados, em que a pouca luz impede a recolha de imagens, Draper e Morse iniciam igualmente um trabalho pedagógico ensinando aos pretendentes do estatuto de daguerreótipistas os seus conhecimentos e técnicas. Por eles passará a formação básica de muitos dos que criarão a história inicial da Fotografia no Estados Unidos. Nomes como Mathew Brady, Albert Sands Southworth e Jerimiah Gurney, passaram pelas mãos da dupla e tornaram-se eles próprios mestres de uma nova geração de fotógrafos, transmitido o legado de Morse e Draper.
A sociedade dura poucos meses, não chegará a 1841. Draper via-se a si próprio como imvestigador, não partilha da ambição comercial de Morse nem do ânimo estético deste. Para ele, a fotografia era sobretudo um desafio intelectual e retornaria às investigações a tempo inteiro, explorando as capacidades científicas do novo meio, nos campos da fotografia astronómica e microscópica. Morse continuaria a actividade, isolado e por um curto período, num estúdio situado no último andar do edifico do New York Observer, o jornal do seu irmão. Mas, uma vez aprovado um apoio público para a construção de uma linha experimental de telégrafo, em finais de 1842, passará a concentrar aí o seu tempo e abandona definitivamente o campo da Fotografia.
Apesar de o ter tentado, Samuel morse não inventou a Fotografia. Mas o homem que deu a notícia do seu invento aos americanos, que é dos primeiros a realizá-la com sucesso nos Estados Unidos, que soube associar-se a quem o complementasse na criação de um processo eficaz de retrato fotográfico, e que soube ainda partilhar esses conhecimentos com aqueles que construiriam a História da Fotografia americana, é em boa medida o inventor da Fotografia dos Estados unidos.

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